Abrantes | A Democracia e o 25 de Abril foram às Escolas (C/VIDEO)

A celebração dos 44 anos do 25 de abril de 1974 envolveram este ano as escolas secundárias de Abrantes, com o objetivo de aprofundar a proximidade do tema com aquela que muitas vezes é já chamada a 2ª geração de abril.

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Na escola secundária Manuel Fernandes, na quarta-feira, dia 24, decorreu uma sessão com alunos de oito turmas do 6º ano desta escola e da Escola EB 2,3/S Octávio Duarte Ferreira, do Tramagal, tendo a mesma contado com os testemunhos dos professores Mário Pissarra e Lígia Vitória, professor e aluna do Liceu de Abrantes, à data da revolução. As intervenções de ambos geraram um conjunto de pertinentes perguntas por parte dos alunos presentes no auditório e que, antes, tinham cantado diversas canções que marcaram o período revolucionário.

Abrantes | A Democracia e o 25 de Abril foram às Escolas (C/VIDEO)
Em Abrantes, os estudantes debateram a Escola, a Democracia e o 25 de Abril . Foto: CM ABT

Lígia Vitória tinha 15 anos quando ocorreu o 25 de Abril de 74, “o dia perfeito, antecedido de mágoas profundas”, disse aos jovens enquanto ia traçando um retrato social do país e projetando imagens das ruas de Lisboa, epicentro da revolução. “Foi esta sensação de quebrar grades, do fim da mordaça, da liberdade de sentir e de dizer”.

Nascida e criada numa família “antifascista”, afirmou à plateia que essa condição a impedia de “dizer na rua o que se passava em casa”. Relembrou aquele dia, e os que se seguiram, no antigo Liceu de Abrantes, no Edifício Carneiro, em que professores e alunos falaram de tudo, “sem medo”.

E como é que foi o 1º de Maio de 74 em Abrantes? “Viu-se uma coisa incrível que foi surgir do nada uma população que percorreu as ruas da cidade e foi ao quartel agradecer aos militares do Regimento de Infantaria nº 2 de Abrantes”.

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O poder local foi uma das grandes conquistas de abril, destacou o professor Mário Pissarra. Foto: CM ABT

O professor Mário Pissarra, por sua vez, que tinha chegado a Abrantes 1 ano antes, em setembro de 1973 para dar aulas de Filosofia no Liceu, contou aos alunos o papel de um grupo de estudantes do Liceu na organização da manifestação: “As alunas ofereceram as flores. Os alunos fizeram os cartazes”, contou o professor proveniente de Idanha-A-Nova.

Jovem progressista, o professor Mário Pissarra “que mantinha grande cumplicidade com os estudantes” de então (citação de texto de José Martinho Gaspar in edição Passos do Concelho especial 40 Anos do 25 de Abril) recordou o Reitor da escola, Professor João Pequito, que defendeu os alunos sempre que foi preciso, incluindo a própria liberdade de pensamento do convidado desta sessão, e destacou a relevância do poder local e o seu exercício de proximidade como uma das grandes conquistas de abril.

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Mário Pissarra e Lígia Vitória, professor e aluna do Liceu de Abrantes, à data da revolução, foram os oradores na escola Manuel Fernandes. Foto: mediotejo.net

Munido de um livro que uma das netas andou a ler, “A contradição humana”, Mário Pissarra pragmatizou: “a essência da Democracia são as contradições e o pluralismo”, em contraponto ao sistema vigente do regime deposto pela revolução: “tínhamos um partido único, passámos a ter vários partidos e a liberdade de escolha”, sem esquecer o fator da tolerância “para respeitar a escolha dos outros.

Abrantes | A Democracia e o 25 de Abril foram às Escolas (C/VIDEO)

Numa sessão moderada pelo jornalista Mário Rui Fonseca, o professor Pissarra concluiu a sua intervenção, ao deixar um desafio geracional: “daqui a 44 anos, vocês são os responsáveis por uma democracia melhor do que nós fizemos”. E deu a tática: participando na vida em sociedade, criticando o que está mal, “respeitando sempre a liberdade dos outros, sempre que critiquem aquilo que nós propomos”.

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Escola Secundária Dr. Solano de Abreu, sessão ‘A Escola, a Democracia e o 25 de Abril’

Escola Secundária Dr. Solano de Abreu

Integrada nas comemorações do 25 de Abril decorreu, na Escola Secundária Dr. Solano de Abreu, a sessão ‘A Escola, a Democracia e o 25 de Abril’, esta terça-feira 24 de abril. Como convidadas Helena Bandos, professora, e Ana Maria Moreira, aluna da Escola Industrial e Comercial de Abrantes aquando da Revolução dos Cravos.

Durante o regime ditatorial os pátios eram dois na então Escola Industrial, hoje Escola Dr. Solano de Abreu. “Um para rapazes e outro para raparigas” lembra Helena Bandos. Para entrar no recinto escolar também as entradas era diferentes e “os alunos, rapazes e raparigas só podiam encontrar-se a 150 metros da escola”. Naquela época as turmas não eram mistas e existiam cursos só para rapazes, caso dos industriais. Apenas na década de 1970 “inscreveu-se a primeira rapariga no curso de mecanotecnia”, conta.

“Não se podia falar de política, mas até comer um bife ou umas migas era fazer política” portanto, como professora de História, Helena Bandos procurava dar a volta ao contexto e “brincava” com os assuntos chegando mesmo a levar aos alunos do pós-laboral a revista Seara Nova. “Dava a mesma matéria mas metia a minha colherada” refere.

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Escola Secundária Dr. Solano de Abreu, durante a sessão ‘A Escola, a Democracia e o 25 de Abril’. (Da esquerda para a direita) Jorge Costa, Ana Moreira, Joana Margarida Carvalho e Helena Bandos

Helena Bandos nasceu em Angola e quando chegou a Portugal estranhou a forma conservadora de se viver na Metrópole. “Uma pessoa que cresce no mato é livre até na maneira de vestir”, diz. Por isso recorda-se da época em que a moda era a mini-saia. “As meninas começaram a subir as batas” mas na escola “não deixavam entrar quem tivesse a saia acima do joelho. Estava o senhor Eliseu com uma fita métrica” a comprovar as medidas impostas pelo regime. As alunas acabaram por dar a volta à proibição, com muita imaginação e protesto.

Ana Maria Moreira recorda uma infância muito feliz na Escola. Rebelde, irreverente, a primeira a ter uma motorizada, mas “nunca fui mal educada e nunca faltei ao respeito a ninguém”, vinca. Por isso, conhecia bem a sala do diretor onde “era visita assídua”. Na vida adulta tentou ser professora de Educação Física e ainda foi durante cinco anos até desistir por perceber “não ter vocação para educar os filhos dos outros”. Confessa sentir dificuldade em compreender quem “não consegue perceber que a nossa liberdade termina quando começa a do outro”.

Após o 25 de Abril, mais exatamente no dia 29 de abril de 1974 “invadimos o pátio dos rapazes e a partir daí começou a reunir-se a comissão de estudantes. Conquistámos o direito de fumar no pátio” e pairava no ar “um sentimento de igualdade”, no entanto Ana considera que durante o período de transição “as coisas não correram tão bem” devido a “abusos na euforia da liberdade”.

Em muitas escolas “os diretores eram informadores da PIDE” refere Helena Bandos, na Escola Industrial e Comercial de Abrantes “nunca aconteceu” por isso o dia da Revolução decorreu de forma “pacífica” entre os professores. Para a docente o problema, em Abrantes, foi o “açambarcamento de alimentos. As pessoas tinham medo de uma guerra”.

Ana Moreira recorda-se de ouvir na rádio “E depois do Adeus” e durante dois ou três dias “não fazíamos mais nada do que cantar canções do Zeca Afonso. Não tínhamos noção da dimensão do que realmente estava a acontecer”. Após o dia da Revolução a vida decorreu normalmente, “o meu pai no mesmo emprego, eu continuei a estudar. Abrimos mais as asas”, diz.

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Escola Secundária Dr. Solano de Abreu. Sessão ‘A Escola, a Democracia e o 25 de Abril’

No dia 1 de Maio de 1974 “vieram os operários de Tramagal, fomos ao quartel, gritámos ‘Viva as Forças Armadas!” lembra Helena Bandos. O 25 de Abril “trouxe a paz, conseguiu-se acabar com a Guerra Colonial 13 anos depois e conquistou-se a Liberdade”.

Na escola “o ensino foi mudando gradualmente. A Escola D. Miguel de Almeida teve um papel muito importante na mudança. Foram lá lançadas novas áreas de estudo, novos esforços, e já se podia discutir e questionar os programas”, explica Helena Bandos, referindo que “a Seara Nova teve muita importância na formação dos alunos que a liam, discutiam e questionavam”.

Durante a sessão, quer Ana Maria Moreira quer Helena Bandos alertaram os jovens alunos, que encheram o auditório da Escola Dr. Solano de Abreu, para os perigos dos “radicalismos” muito presentes no mundo atual nomeadamente na Europa, deixando um apelo de transformação.

Por seu lado, e no encerramento da sessão, o diretor do Agrupamento de Escolas nº1 de Abrantes, Jorge Costa, pediu para os alunos olharem para Abril não como algo do passado mas como futuro. Explicou a diferença entre democracia e ditadura e deixou várias perguntas para uma reflexão: “Será que a democracia se esgota no ato de votar? Será que em democracia estamos perante pequenas ditaduras da maioria? E esta liberdade está garantida? Será que os políticos transformaram a política numa profissão?”.

Em jeito de repto deixou uma última pergunta: “E vocês têm a certeza que podem participar?”. Jorge Costa quis que os alunos refletissem sobre um “horizonte que não seja apenas de um tablet ou de um jogo de computador”. A sessão foi moderada pela jornalista Joana Margarida Carvalho.

*C/ Mário Rui Fonseca

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