Ourém | Em busca da Rota Carmelita nos ‘Caminhos da Fé’ rumo a Fátima (c/vídeo)

Concluída na primavera de 2018, a Rota Carmelita, no concelho de Ourém, tem início na vila de Freixianda e deve ser das rotas pedestres mais bem sinalizadas da região, ao longo dos seus cerca de 38 km de trajeto até Fátima. O percurso pode ser encontrado atualmente na página Caminhos de Fé, do Turismo de Portugal.

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A Rota Carmelita, um caminho de peregrinação de Coimbra a Fátima, segue sensivelmente o antigo Caminho do Norte do Centro Nacional de Cultura, instituição detentora da marca original dos Caminhos de Fátima. Não deve por tal ser confundida com as rotas, específicas, da Associação de Amigos dos Caminhos de Fátima, que detêm uma sinalização própria, ainda que, frequentemente, com direções coincidentes.  

No concelho de Ourém a Rota Carmelita tem marcados 38 quilómetros, mas a contagem feita por nós de Freixianda a Fátima, em duas etapas, ultrapassa um pouco esta estimativa. A Rota Carmelita – 111 quilómetros, no seu total, a partir de Coimbra – é o primeiro percurso sinalizado sobre a égide da Associação Caminhos de Fátima, uma parceria entre o Centro Nacional de Cultura, os 14 municípios que criaram a associação e o Turismo de Portugal, no objetivo de tornar as peregrinações até Fátima mais seguras, percorrendo o território numa perspetiva também turística.

Esta Rota em particular contou ainda com a parceria da Agência para o Desenvolvimento dos Castelos e Muralhas medievais do Mondego.

A Rota Carmelita surge marcada por placas metálicas a azul, que podem estar fixadas em estruturas como postes de eletricidade ou muros Foto: mediotejo.net
Em Freixianda há pequenas indicações no próprio passeio Foto: mediotejo.net
A Rota Carmelita também surge marcada por tabuletas ou painéis próprios Foto: mediotejo.net

Ao longo do percurso no concelho de Ourém a Rota Carmelita efetivamente cruza-se com muitas das marcações da Associação dos Amigos, mas tanto quando pudemos verificar as respetivas sinalizações foram respeitadas.

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De resto a Rota Carmelita, não obstante os seus mais de 40 quilómetros em Ourém, não oferece particular dificuldade neste município. Depois de Seiça começam a surgir subidas e descidas mais íngremes, mas boa parte do caminho é feita sempre a direito, em terreno plano, o que facilita o ritmo do percurso.

Cruzam-se aldeias típicas, monumentos históricos e paisagens algo mitigadas entre o campo e a serra. O projeto da Associação dos Caminhos de Fátima para este e outros trajetos é ambicioso, mas para já existem apenas as marcações.

Primeira Etapa

 – aproximadamente 17 quilómetros, cerca de 4 horas – 

1ª Etapa Freixianda – Seiça Rota Carmelita. Foto: mediotejo.net

O início desta aventura partiu um pouco às cegas. Quisemos colocar-nos na pele do peregrino comum, que em boa medida desconhecerá o que se passa nos órgãos decisores, pelo que escrevemos “Rota Carmelita” na Google e procurámos informação.

Pretendíamos fazer os anunciados cerca de 40 quilómetros da Rota no município ouriense, o único do Médio Tejo que esta atravessa, e sabíamos apenas que esta tinha início na Freixianda.

Mas Freixianda freguesia ou Freixianda localidade?

Uma das informações encontradas dava conta que o trajeto seguia o percurso do antigo Caminho do Norte para Fátima, do Centro Nacional de Cultura, pelo que seguimos para o ponto onde este entrava no concelho de Ourém, segundo o respetivo mapa disponível no site da instituição: Parcerias, na freguesia de Freixianda. A informação batia mais ou menos certa, pelo que assim começou a “peregrinação”.

A primeira paragem deu-se no “Café Regional”, em Parcerias, onde procurámos saber por onde passava a rota. Facilmente encontrámos as indicações do Caminho do Norte e do próprio Caminho de Santiago, que também por ali está marcado, mas a placa azul a dar conta da Rota Carmelita parecia inexistente. Estaríamos no sítio errado?

No Café Regional, no antigo Caminho do Norte para Fátima, informam-nos que estamos no sentido errado Foto: mediotejo.net
Há imensas marcações a indicar eventuais trajetos para Fátima, a maioria pintadas em estruturas como postes de eletricidade e muros. Pertencem a outras instituições que há muitos anos marcam estes trajetos. Foto: mediotejo.net

– Não, isto é o Caminho de Santiago e o antigo caminho Fátima Norte. – explicou-nos o responsável no Café – A Rota Carmelita separa-se a partir de Ansião, pelo menos é o que dizem os peregrinos. Agora só vai encontrar indicações na vila da Frexianda, junto à Igreja.

Oh bolas!!

– E passa aqui muita gente?, questionamos.

O ano de 2017 foi uma loucura de peregrinos, reconhece o responsável numa curta conversa, mas o tráfego a pé entretanto caiu substancialmente. Eventualmente devido à nova rota, alvitra. Por estes caminhos passam sobretudo estrangeiros, muitos a caminho de Santiago de Compostela.

Uma vez que Frexianda ainda fica a cerca de oito quilómetros, não nos aventuramos num percurso a pé. A confusão levou-nos cerca de 45 minutos de trajeto, mas a informação do “Café Regional” bate certo. Junto à Igreja Paroquial da Freixianda há efetivamente uma placa azul a dar conta de que por ali passa a Rota Carmelita e para ter cuidado com a circulação automóvel.

Não chegamos a perceber bem por onde chega a este ponto quem vem de Ansião, mas dada a hora já tardia num dia que se previa de muito calor optamos por seguir as indicações e começar o percurso. Passados cerca de 500 metros encontramos finalmente o nosso primeiro marco quilométrico: faltam 38 quilómetros para Fátima.

Junto à Igreja da Freixianda encontramos a nossa primeira placa da Rota Carmelita Foto: mediotejo.net
Ainda em Freixianda surge o primeiro marco quilométrico. Faltam 38 quilómetros para Fátima Foto: mediotejo.net

Esta primeira etapa faz-se sem particular dificuldade. As marcações – em tabuletas, marcos e até nos passeios – surgem a cada 100/200 metros, o que é pouco usual em percursos pedestres. Aliás, facilmente nos apercebemos que se andarmos mais de 500 metros sem encontrarmos qualquer indicação é sinal que estamos no percurso errado e temos que voltar para trás. Muito bem sinalizada, a indicação é sempre no sentido de Fátima, não existindo marcações em sentido inverso (para quem desejasse fazer Fátima-Coimbra).

A rota atravessa as estradas secundárias da Freixianda, até entrarmos em terreno de eucaliptal e pinhal. Dado o percurso ser essencialmente plano e a grande quantidade de sombra, rapidamente começamos a acumular quilómetros. Em pouco tempo chegamos a Rio de Couros, engalanado para as festas populares da data, percorrendo a estrada lateral à Igreja e a escadaria.

Neste momento as placas informam que nos encaminhamos para Seiça, ou seja, vamos chegar a Fátima pelo sul do concelho. Como não temos mapa do trajeto, não temos bem noção onde vai terminar o dia. Calculando que a chegada a Seiça se situe perto dos 20 quilómetros, começamos a fazer contas para terminar por aí a etapa.

À chegada a Rio de Couros, encontramos a aldeia em festa Foto: mediotejo.net
A rota permite conhecer a tradição agrícola e florestal do concelho, passando entre campos de cultivo, pinhais e eucaliptais Foto: mediotejo.net
Trajeto percorre a vida rural do concelho Foto: mediotejo.net

A informação transmitida à comunicação social refere que a Rota Carmelita pretende ser sobretudo um caminho de contemplação, não possuindo propriamente uma ligação histórica ou patrimonial à congregação das carmelitas.

A Irmã Lúcia, pastorinha de Fátima, foi carmelita, tendo morrido em 2005 no Carmelo de Coimbra, onde começa o trajeto. Percorrendo mato e pinhal, aldeias típicas e campos agrícolas, não se encontra por tal qualquer referência em Ourém ao nome de que a rota foi baptizada. Já a paisagem serve o seu propósito de percurso introspetivo.

Alguns cafés e restaurantes encontram-se pelo caminho, assim como amoras silvestres, uvas e marmelos um pouco por todo o lado nesta altura do ano. O percurso é aliás bastante elucidativo sobre a vertente agrícola e florestal da região, não faltando também os cursos de água. Nos arredores de Caxarias, a rota atravessa o Largo de São Bartolomeu, com há espaço para acampar. Existe ainda a indicação de que a vila fica próxima, caso se queira dar a etapa por concluída.

Seguimos, porém, em frente, no objetivo de chegar a Seiça. Nesta primeira etapa as marcações apenas se tornaram confusas à saída do pinhal, já nesta freguesia, quando apenas encontramos as da Associação dos Amigos dos Caminhos de Fátima, pintadas, e desaparecem as placas metálicas azuis que seguimos. Após algum tempo perdido à procura, a placa azul surge afastada, num corte à direita, ao pé da empresa Dom Mirtilo. Alguns vestígios de cimento nos postes de eletricidade levam a acreditar que algumas das indicações terão sido retiradas.

No pinhal da freguesia de Seiça é possível constatar um produção de resina, ao abrigo de um programa do PRODER Foto:mediotejo.net
a nossa primeira etapa termina junto à Junta de Seiça Foto: mediotejo.net

O dia termina perto da junta de freguesia de Seiça, com a contabilização de mais de 17 quilómetros percorridos. Seguindo a indicação dos marcos da Rota, encontramos-nos algures a 23 quilómetros de Fátima.

Segunda Etapa

 – aproximadamente 27 quilómetros, cerca de 7h30 horas – 

2ª Etapa Seiça – Fátima Rota Carmelita Foto: mediotejo.net

Dizem-nos os marcos que nos encontramos a cerca de 23 quilómetros de Fátima e é com esta convicção que partimos pela manhã, no objetivo de terminar neste dia a Rota Carmelita. Menos calor, mais vento, e um historial de um caminho quase sempre em terreno plano levam-nos a enfrentar o desafio com algum otimismo quanto ao tempo necessário para concluir o trajeto.

Retomamos perto da junta de freguesia de Seiça, onde se encontra a tabuleta a indicar a Rota Carmelita. Cerca de 500 metros mais à frente encontramos o nosso primeiro marco quilométrico do dia: faltam 22 quilómetros para o Santuário Fátima. Agora já com um destino certo, é seguir em frente até chegar ao final.

No segundo dia de viagem damos por nós na aldeia de Vale Travesso Foto: mediotejo.net
Percorrendo as aldeias ourienses há todo um conjunto de pormenores que preenchem a paisagem Foto: mediotejo.net
Chegados à avenida da Câmara de Ourém deixamos de encontrar tabuletas. Estas voltam a surgir no fim da rua Foto: mediotejo.net

Esta segunda etapa oferece um pouco mais de dificuldade, com algumas subidas e descidas que obrigam a paragens para quem não possui tanta resistência. Ao contrário da primeira etapa, onde as pedrinhas sobre as placas davam conta de que o trajeto já fora realizado por mais pessoas, este parece em grande medida sem sinais de utilização. De Seiça entramos pinhal adentro, percorrendo através dele a freguesia até chegarmos à aldeia de Vale Travesso. Algum tempo depois estamos em Penigardos e, por fim, a cidade de Ourém.

Seguindo as indicações, que nos fazem cortar à direita no sentido da rua de Castela, atravessando a avenida onde se situa a Câmara Municipal de Ourém, detemos-nos cerca de uma hora. O nosso histórico diz-nos que a cada 100/200 metros há um marco, caso contrário estamos no caminho errado. Mas por mais voltas que dêmos às ruas paralelas, desapareceram simplesmente as placas azuis.

Que fazer agora?…

Em caso de dúvida a norma é seguir em frente. Depois de muito procurar, já pensando que o melhor é seguir a direito até Fátima, acabamos por encontrar a placa no final da avenida, a mais de um quilómetro da anterior.  A situação volta entretanto a repetir-se, pelo que permanecemos no mesmo sentido. Só depois da rotunda da fonte, junto ao Lidl, na entrada da cidade, é que as placas da Rota retomam à mesma periodicidade.

A Rota Carmelita leva-nos então para a Ponte dos Namorados, passando junto ao Intermarché e seguindo o sentido do Castelo de Ourém. O corte verifica-se no sentido de Beltroa, havendo porém a indicação de uma variante da Rota pelo Castelo de Ourém, que acrescenta pelo menos  mais um quilómetro ao trajeto. Face ao número de quilómetros que nos aguardam, e querendo evitar subidas difíceis, optamos por continuar caminho.

Esta etapa, uma vez que que atravessa mais património edificado, não obstante também ser rica em paisagem, torna-se mais interessante esteticamente. Em São Sebastião fazemos uma breve paragem para contemplar as velhas ruínas da capela, onde dita a lenda que terão parado as tropas a caminho de Aljubarrota.

O percurso segue com o registo de mais subidas, dado que começamos a entrar em região de serra. Atravessamos Zambujal, Vale da Perra, Alveijar, aldeias características do concelho, com as suas Igrejas e pequenos altares de rua, e Casal de Santa Maria, entrando novamente por uma longa extensão de pinhal e mato.

Na Ponte dos Namorados, em Ourém, lemos as inscrições em latim no crucifixo. Foto: mediotejo.net
Narra a lenda que as tropas pararam junto à Capela de São Sebastião a caminho de Aljubarrota Foto: mediotejo.net
O monte do Castelo de Ourém é o ponto de referência que nos acompanha ao longo desta segunda etapa Foto: mediotejo.net

Os últimos 10 quilómetros do percurso tornam-se assim os mais difíceis, subindo frequentemente, ainda que a Rota evite as subidas a pique e passe por zonas menos acentuadas. Chegamos às traseiras da Igreja Matriz de Fátima quando estão a bater as 15h00, pelo que saímos de Seiça há mais de seis horas.

Estamos oficialmente em Fátima, mas para chegar ao Santuário ainda faltam cerca de três quilómetros. O percurso leva-nos por uma estrada secundária, passando pela Casa Mortuária de Fátima, até à Avenida dos Três Pastorinhos, mais conhecida por Estrada de Minde. Aqui, tal como em Ourém, as placas metálicas azuis praticamente desaparecem. Seguimos sempre em frente e o último marco que encontramos da Rota Carmelita é o que indica faltarem dois quilómetros para o Santuário.

No fim da avenida, na Rotunda Sul, ainda procuramos mais indicações, mas as cãibras nas pernas de quase 30 quilómetros de caminhada, calor e cansaço não nos permitem uma procura exaustiva como em Ourém. Se existem, não as vimos. Seguimos no sentido a direito, a mesma decisão que tomámos em situações anteriores, até porque sabemos que é o melhor caminho para o Santuário.

A poucos metros da Basílica da Santíssima Trindade ainda procuramos junto o Posto de Turismo de Fátima alguma indicação para o peregrino/turista/aventureiro de que terminou a Rota Carmelita, mas tal indicação não existe.

O telemóvel marca mais de 27 quilómetros e cerca de sete horas e meia de viagem. Conseguimos! Agora apenas precisamos de boleia para voltar para trás…

Chegamos ao Santuário de Fátima pela Avenida Dom José Alves Correia da Silva Foto: mediotejo.net

Ao longo dos anos os caminhos de Fátima foram sendo marcados por instituições e peregrinos que constataram a necessidade de definir trajetos seguros para a cidade religiosa. Por tal, as marcações ao longo das estradas sucedem-se, mas tornando-se por vezes confusas para quem não está habituado a segui-las, cruzando-se inclusive com rotas para Santiago de Compostela.

A placa azul da Rota Carmelita tem a vantagem, pelo menos neste momento, de se encontrar bem visível e ser um símbolo bem definido do trajeto que aponta.

Alguns caminhos, porém, se não forem limpos e cuidados ao longos dos anos, facilmente vão desaparecer com as marcações que ali foram colocadas (a invasão da erva e mato sobre as placas já se evidencia em alguns locais).

A outro nível, faltam as estruturas de apoio pensadas para quem caminha a pé. Um caminho eventualmente a ser percorrido de forma mais gradual, conforme os percursos foram acolhendo a preferência de quem se desloca até Fátima.

*reportagem publicada originalmente em setembro de 2018

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1 COMENTÁRIO

  1. Isto não é uma rota , isto é uma inquisição , ou então é uma peregrinação ao quilometro , da placa que esta a minha porta marcam 22, quilómetros a Fátima , quando a pé são 13, quilómetros , a rota carmelita não acrescenta nada a peregrinação apenas sacrifício e sofrimento gratuito .
    Passam por Seiça gentes de Castelo Branco especialmente da beira baixa e estas placas apenas confundem e desanimam que ja vem com centenas de quilómetros .
    Pessoas que por aqui passam num total sofrimento causado pela caminhada pés ligados amparados a paus etc.,
    É puro sadismo , não ha argumento que justifique este disparate .Com um caminho irregular, lamacento, pó , isolado de qualquer socorro
    Se neste trajecto, alguém sofrer de um AVC , ou enfarto, qualquer tipo de acidente, o socorro é comprometido , e, se alguma pessoa falecer por falta de SOS, informação da localização , ha alguém que assuma a total responsabilidade por tal fatalidade ?
    Claro que não … “vão assobiar para o lado” como se diz : “sacudir a agua do capote “.
    Reorientem a sinalização pelo sitio mais próximo , ponham os peregrinos protegidos e nunca isolados , tudo pode acontecer .
    Se acontecer algum acidente tudo farei para que sejam responsabilizados os responsáveis pela rota carmelita, sem qualquer excitação vai para o ministério publico .
    Fernando Sousa

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