Rui Duarte Ferreira liderou a Metalúrgica do Tramagal na década de 60. Foto: Patrícia Fonseca

Faleceu ao final do dia desta quinta-feira, 10 de agosto, em Cascais, o engenheiro Rui de Magalhães Duarte Ferreira, na sequência de uma pneumonia que o mantinha internado há mais de uma semana.

Nascido há 86 anos no Tramagal (a 2 de dezembro de 1930), era filho de Maria de Magalhães Basto e Manuel Cordeiro Duarte Ferreira, e neto de Eduardo Duarte Ferreira, fundador da Metalúrgica da borboleta. Foi o primeiro elemento da terceira geração a assumir a gestão da empresa, onde entrou em 1958. Nos anos 60, conseguiu firmar uma parceria com a marca francesa Berliet, iniciando a construção dos milhares de camiões militares que vieram a fazer história na Guerra Colonial.

Na sexta-feira, às 16h, será celebrada uma missa na igreja de Carcavelos, sendo depois realizada a sua cremação. A seu pedido, as suas cinzas serão depois levadas para o Tramagal. Será realizada uma cerimónia fúnebre no domingo, 13 de agosto, na missa do meia-dia, na igreja do Tramagal, e as suas cinzas seguirão logo depois para o jazigo da família, na mesma localidade.

O amor ao Tramagal

A sua primeira memória de infância era a ganga. Homens vestidos de ganga, a caminho da Metalúrgica. Rui Duarte Ferreira nasceu em casa, no Tramagal, e cresceu ao lado da fábrica fundada pelo avô Eduardo, então sob a gestão do seu pai, Manuel. Com as irmãs, Maria Rosa e Maria Helena, e o irmão mais novo, Carlos, faziam das instalações fabris o seu parque de diversões, ao fim de semana, conduzindo as vagonetes que os trabalhadores usavam para transportar o material entre as secções.

Quando teve de ir estudar para Lisboa, partiu com grande tristeza. Voltava os verões inteiros ao Tramagal e procurou, desde cedo, aprender os segredos da fundição.

A sua outra grande paixão era o futebol. Os seus pais tinham comprado uma casa em Carcavelos (os ares do mar fariam bem à saúde do eng. Manuel, já muito debilitado) e foi aí que surgiu a possibilidade de jogar a nível profissional, quando aos 16 anos foi convidado pelo Sporting. No Tramagal, nas férias de verão, ajudou a criar um grupo desportivo com equipas de estudantes e escriturários, que jogavam uns contra os outros. Mais tarde, já formado no Instituto Superior Técnico em Engenharia Mecânica, haveria de dedicar-se intensamente ao Tramagal Sport União, contratando alguns dos melhores jogadores do país para vestirem a camisola da borboleta. O clube chegaria, pela sua mão, a disputar a subida à 1ª Divisão.

Nesses gloriosos anos 50 e 60, Rui Duarte Ferreira queria fazer mais e melhor que todos os outros, seguindo o exemplo de inovação do avô. E isso valeu-lhe a admiração de muitos mas também críticas e vários dissabores.

No final da década de 50, quando começou a trabalhar na MDF, lamentava que a empresa não tivesse um rumo claramente definido, nem ideias de futuro. “Em 1954 foi reconhecido que o modelo industrial com base na agricultura se tinha definitivamente esgotado. A necessidade de se fixarem novos rumos para a empresa era urgente e incontornável”, recorda o engenheiro João Botequilha, que viria a trabalhar na Metalúrgica na década seguinte, como chefe da Divisão Berliet.

“No seu passado, a empresa sempre demonstrou uma singular capacidade de se antecipar ao futuro. A pioneira utilização, em 1923, de um forno eléctrico para aço vazado, a aquisição da fábrica de louça esmaltada, em 1930, e a exposição da debulhadora fixa no ano seguinte, ou a produção de gasogénios em tempo de guerra, são exemplos desse espirito de inovação. A situação exigia que se repetisse essa sua capacidade criadora”, considera Botequilha.

Rui Duarte Ferreira tinha muitas ideias mas, como contou em entrevista para o livro “1879-1997 | Metalúrgica Duarte Ferreira, Uma história em constante metamorfose” (Edição Câmara Municipal de Abrantes, 2017), quando entrou na fábrica não tinha a vida facilitada.

O meu pai fez-me o mesmo que fazia a todos. Comecei por baixo. Mandou-me arrumar revistas. Tínhamos uma biblioteca técnica bestial e foi muito bom para mim. Por sorte, o engenheiro Matos Silveira, que era do curso anterior ao meu, foi recrutado nessa altura. Como ele ainda era solteiro, estudávamos todas as noites. E no dia seguinte íamos ter com o Isidro, à Fundição, para perceber na prática como poderíamos introduzir inovações. Consegui, apesar de ter muito pouca experiência, fazer coisas muito interessantes. Na altura, Salazar tinha criado o Plano de Fomento, para ‘dar ferramentas para desenvolver a indústria portuguesa’. Eu e o Matos Silveira metemos na cabeça que iríamos conseguir concorrer para fornecer as pás directrizes de uma barragem (são as pás que controlam o caudal). Só que cada pá daquelas pesa 1,2 toneladas, e é tudo em aço. Concorremos contra fundições francesas e contra a CUF. No processo de fundição, o ferro fundido tem problemas de dilatação, decorrente da temperatura, e, com o arrefecimento e com a mudança de estado, para a solidificação, dá-se uma grande contracção. Se não se fizer nada, a peça fica com buracos nos últimos sítios a arrefecer. Como é que se evita isto? Dirigindo o arrefecimento, com metal líquido, e usando a pressão atmosférica, com um gito (uma espécie de bomba com vários metros de altura, com areia no seu interior). Tirávamos o hidrogénio do metal líquido usando uma bomba de oxigénio. Ninguém fazia isto na Metalúrgica. Usando os meus conhecimentos teóricos e a experiência do Isidro, fizemos as pás directrizes, que até gamagrafia tinham de levar. Cumprimos todas as exigências do concurso e ficámos apurados para o teste final, com a CUF. A última experiência, no final de tudo, era levantarem a pá directriz a 5 metros de altura e… zás! Deixá-la cair no chão. A primeira foi a da CUF. Partiu-se! A nossa nada, bum, catrapum, impecável! Assim ganhámos o concurso das pás directrizes, que ainda representava algum dinheiro para a empresa. Mas mais importante do que isso, senti que ganhava prestígio na Metalúrgica. Não me viam só como ‘o filho do patrão’. Depois disso fui várias vezes à Alemanha, participar em congressos, comprar material e ver como é que as fundições trabalhavam lá. Aprendi muito a ver fazer, embora a fundição não tenha muito que saber: mete-se aço para dar aço. Mas o aço com menos carbono é um aço mais caro. Nós comprávamos a sucata mais cara para fazer o aço mais caro. Mas com aquele processo do oxigénio, que queima tudo, geríamos a fusão, púnhamos os componentes que queríamos e fazíamos um aço melhor, com sucata mais barata. Conseguimos uma grande poupança e passámos a fazer aço que até a Volvo aceitava. Foi muito importante. Sem esse salto de qualidade nunca teríamos avançado para a construção de automóveis. A fundição que encontrei não tinha capacidade. Era uma fundição para máquinas agrícolas, nada mais.” 

Quando Rui Duarte Ferreira assumiu os destinos da empresa, deu-se uma verdadeira refundação da fábrica. Foram contratados mais quadros, engenheiros qualificados, gente com ideias novas. A MDF beneficiou também do vigoroso crescimento económico que, nos anos 60, permitiu ao País recuperar o atraso de muitos anos. Por força da execução dos Planos de Fomento, o investimento total na economia aproximou-se dos 30% do PIB. 

Chegou o filho de Keil do Amaral, o arquiteto Francisco Pires (Pitum), para desenhar novos bairros e uma Pousada para albergar os quadros superiores que se fixavam na aldeia. Apoiava-se também os trabalhadores que quisessem construir a sua própria casa, com materiais e linhas de crédito. Havia trabalho e qualidade de vida.

Ao lado do complexo industrial da fábrica do Tramagal, que ocupava já 50 mil m2 e empregava 2 000 trabalhadores, ergueram-se mais 5 mil m2 de área coberta, para acolher a primeira grande aposta da nova administração: uma linha de montagem automóvel, em 1964. A guerra colonial estava em curso em três frentes, o Governo mobilizava vastos meios para o Ultramar e o início da produção em grande escala de camiões Berliet iniciou-se no Tramagal. 

Rui Duarte Ferreira discursa num jantar com a Divisão Berliet-Tramagal. Foto: DR

Fez-se uma nova fundição, em 1966, continuou a investir-se em pessoal especializado, nas mais modernas formas de organização e gestão de empresas.

Mas, em 1970, por decisão da família, a gestão passa a ser garantida por Martins Simões, nomeado administrador-delegado, e Rui Duarte Ferreira assumiu o cargo de diretor de Produção. A convivência viria a ser impossível entre os dois e Rui Duarte Ferreira acabaria por ser “destituído” em poucos meses, desligando-se da empresa por completo.

Maria Basto, que se mantinha como uma das principais accionistas, escreveu na altura uma duríssima carta ao novo administrador:

Tenho orgulho no meu filho, é honrado, é trabalhador, é válido e autêntico. Não se vende nem se dobra. Pode ser incómodo porque põe situações claras doa a quem doer; além disso é um homem do seu tempo, democrático e não feudal. Foi o único Duarte Ferreira da sua geração que meteu ombros à tarefa de salvar da estagnação a empresa do seu avô; tem consigo um ideal de trabalho e entregou à Metalúrgica toda a sua capacidade e toda a sua devoção. (…)

Às palavras da sua mãe há pouco a acrescentar.

Numa nota pessoal, permitam-me que recorde as dezenas de vezes que me encontrei com o engenheiro Rui na linha de Cascais, aos sábados de manhã, nos últimos 12 anos. Com a vivacidade dos seus 70 anos, e depois pelos 80 fora, cumpria religiosamente as suas aulas de ioga e entregava-se depois, à mesa de um café (onde já nos conheciam, após tantos encontros), a longas horas de entrevistas – que não tiveram, na verdade, um fim.

A sua primeira missão foi ajudar-me a contar a história de vida do seu avô Eduardo. Depois da biografia publicada em 2006 (“Nas Asas de Uma Borboleta”, Ed. Página Seguinte/Câmara Municipal de Abrantes), fomos trabalhando a ideia de escrever a história da fábrica. Uma das suas grandes preocupações era demonstrar que os problemas financeiros da empresa, nos anos 70 e 80, não se deviam à sua má gestão na década anterior. Sentia-se injustiçado com essas críticas e apontava os balancetes e relatórios e contas dos anos 60 (com lucros) como prova. 

Se ele tivesse prosseguido aos comandos da empresa, o que teria acontecido? Se a MDF não fosse intervencionada no 25 de abril de 1974, teria a família conseguido mantê-la de pé? Ninguém sabe, ninguém pode saber. O mundo dá muitas voltas, e quase sempre por caminhos longos e tortuosos. A certeza que podemos ter é que Rui Duarte Ferreira se dedicou por inteiro à MDF em cada minuto de cada dia em que ali trabalhou e que só desejava o melhor para a empresa. Acarinhou também todas as memórias que ali construiu, desde os seus tempos de menino, passeando de carroça com o avô pelos campos agrícolas do Tejo, chutando uma bola no pelado do TSU ou olhando, pela janela da sala de estar dos pais, a multidão vestida de ganga que chegava à fábrica pela manhã.

A última vez que ouvi a sua inconfundível gargalhada foi no passado dia 1 de maio, na inauguração do Museu MDF e no lançamento do livro sobre a história da fábrica. Fico feliz por ter podido estar ali, de braço dado com ele, vendo a concretização de um sonho que partilhávamos com os seus irmãos, e tantos outros elementos da família. O sorriso que lhe vi no final desse dia ficará para sempre comigo.


Discover more from Médio Tejo

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

Deixe um comentário

Leave a Reply