Tramagal | 1930-2017 | Rui Duarte Ferreira

Rui Duarte Ferreira liderou a Metalúrgica do Tramagal na década de 60. Foto: Patrícia Fonseca

Faleceu ao final do dia desta quinta-feira, 10 de agosto, em Cascais, o engenheiro Rui de Magalhães Duarte Ferreira, na sequência de uma pneumonia que o mantinha internado há mais de uma semana.

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Nascido há 86 anos no Tramagal (a 2 de dezembro de 1930), era filho de Maria de Magalhães Basto e Manuel Cordeiro Duarte Ferreira, e neto de Eduardo Duarte Ferreira, fundador da Metalúrgica da borboleta. Foi o primeiro elemento da terceira geração a assumir a gestão da empresa, onde entrou em 1958. Nos anos 60, conseguiu firmar uma parceria com a marca francesa Berliet, iniciando a construção dos milhares de camiões militares que vieram a fazer história na Guerra Colonial.

Na sexta-feira, às 16h, será celebrada uma missa na igreja de Carcavelos, sendo depois realizada a sua cremação. A seu pedido, as suas cinzas serão depois levadas para o Tramagal. Será realizada uma cerimónia fúnebre no domingo, 13 de agosto, na missa do meia-dia, na igreja do Tramagal, e as suas cinzas seguirão logo depois para o jazigo da família, na mesma localidade.

O amor ao Tramagal

A sua primeira memória de infância era a ganga. Homens vestidos de ganga, a caminho da Metalúrgica. Rui Duarte Ferreira nasceu em casa, no Tramagal, e cresceu ao lado da fábrica fundada pelo avô Eduardo, então sob a gestão do seu pai, Manuel. Com as irmãs, Maria Rosa e Maria Helena, e o irmão mais novo, Carlos, faziam das instalações fabris o seu parque de diversões, ao fim de semana, conduzindo as vagonetes que os trabalhadores usavam para transportar o material entre as secções.

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Quando teve de ir estudar para Lisboa, partiu com grande tristeza. Voltava os verões inteiros ao Tramagal e procurou, desde cedo, aprender os segredos da fundição.

A sua outra grande paixão era o futebol. Os seus pais tinham comprado uma casa em Carcavelos (os ares do mar fariam bem à saúde do eng. Manuel, já muito debilitado) e foi aí que surgiu a possibilidade de jogar a nível profissional, quando aos 16 anos foi convidado pelo Sporting. No Tramagal, nas férias de verão, ajudou a criar um grupo desportivo com equipas de estudantes e escriturários, que jogavam uns contra os outros. Mais tarde, já formado no Instituto Superior Técnico em Engenharia Mecânica, haveria de dedicar-se intensamente ao Tramagal Sport União, contratando alguns dos melhores jogadores do país para vestirem a camisola da borboleta. O clube chegaria, pela sua mão, a disputar a subida à 1ª Divisão.

Nesses gloriosos anos 50 e 60, Rui Duarte Ferreira queria fazer mais e melhor que todos os outros, seguindo o exemplo de inovação do avô. E isso valeu-lhe a admiração de muitos mas também críticas e vários dissabores.

No final da década de 50, quando começou a trabalhar na MDF, lamentava que a empresa não tivesse um rumo claramente definido, nem ideias de futuro. “Em 1954 foi reconhecido que o modelo industrial com base na agricultura se tinha definitivamente esgotado. A necessidade de se fixarem novos rumos para a empresa era urgente e incontornável”, recorda o engenheiro João Botequilha, que viria a trabalhar na Metalúrgica na década seguinte, como chefe da Divisão Berliet.

“No seu passado, a empresa sempre demonstrou uma singular capacidade de se antecipar ao futuro. A pioneira utilização, em 1923, de um forno eléctrico para aço vazado, a aquisição da fábrica de louça esmaltada, em 1930, e a exposição da debulhadora fixa no ano seguinte, ou a produção de gasogénios em tempo de guerra, são exemplos desse espirito de inovação. A situação exigia que se repetisse essa sua capacidade criadora”, considera Botequilha.

Rui Duarte Ferreira tinha muitas ideias mas, como contou em entrevista para o livro “1879-1997 | Metalúrgica Duarte Ferreira, Uma história em constante metamorfose” (Edição Câmara Municipal de Abrantes, 2017), quando entrou na fábrica não tinha a vida facilitada.

O meu pai fez-me o mesmo que fazia a todos. Comecei por baixo. Mandou-me arrumar revistas. Tínhamos uma biblioteca técnica bestial e foi muito bom para mim. Por sorte, o engenheiro Matos Silveira, que era do curso anterior ao meu, foi recrutado nessa altura. Como ele ainda era solteiro, estudávamos todas as noites. E no dia seguinte íamos ter com o Isidro, à Fundição, para perceber na prática como poderíamos introduzir inovações. Consegui, apesar de ter muito pouca experiência, fazer coisas muito interessantes. Na altura, Salazar tinha criado o Plano de Fomento, para ‘dar ferramentas para desenvolver a indústria portuguesa’. Eu e o Matos Silveira metemos na cabeça que iríamos conseguir concorrer para fornecer as pás directrizes de uma barragem (são as pás que controlam o caudal). Só que cada pá daquelas pesa 1,2 toneladas, e é tudo em aço. Concorremos contra fundições francesas e contra a CUF. No processo de fundição, o ferro fundido tem problemas de dilatação, decorrente da temperatura, e, com o arrefecimento e com a mudança de estado, para a solidificação, dá-se uma grande contracção. Se não se fizer nada, a peça fica com buracos nos últimos sítios a arrefecer. Como é que se evita isto? Dirigindo o arrefecimento, com metal líquido, e usando a pressão atmosférica, com um gito (uma espécie de bomba com vários metros de altura, com areia no seu interior). Tirávamos o hidrogénio do metal líquido usando uma bomba de oxigénio. Ninguém fazia isto na Metalúrgica. Usando os meus conhecimentos teóricos e a experiência do Isidro, fizemos as pás directrizes, que até gamagrafia tinham de levar. Cumprimos todas as exigências do concurso e ficámos apurados para o teste final, com a CUF. A última experiência, no final de tudo, era levantarem a pá directriz a 5 metros de altura e… zás! Deixá-la cair no chão. A primeira foi a da CUF. Partiu-se! A nossa nada, bum, catrapum, impecável! Assim ganhámos o concurso das pás directrizes, que ainda representava algum dinheiro para a empresa. Mas mais importante do que isso, senti que ganhava prestígio na Metalúrgica. Não me viam só como ‘o filho do patrão’. Depois disso fui várias vezes à Alemanha, participar em congressos, comprar material e ver como é que as fundições trabalhavam lá. Aprendi muito a ver fazer, embora a fundição não tenha muito que saber: mete-se aço para dar aço. Mas o aço com menos carbono é um aço mais caro. Nós comprávamos a sucata mais cara para fazer o aço mais caro. Mas com aquele processo do oxigénio, que queima tudo, geríamos a fusão, púnhamos os componentes que queríamos e fazíamos um aço melhor, com sucata mais barata. Conseguimos uma grande poupança e passámos a fazer aço que até a Volvo aceitava. Foi muito importante. Sem esse salto de qualidade nunca teríamos avançado para a construção de automóveis. A fundição que encontrei não tinha capacidade. Era uma fundição para máquinas agrícolas, nada mais.” 

Quando Rui Duarte Ferreira assumiu os destinos da empresa, deu-se uma verdadeira refundação da fábrica. Foram contratados mais quadros, engenheiros qualificados, gente com ideias novas. A MDF beneficiou também do vigoroso crescimento económico que, nos anos 60, permitiu ao País recuperar o atraso de muitos anos. Por força da execução dos Planos de Fomento, o investimento total na economia aproximou-se dos 30% do PIB. 

Chegou o filho de Keil do Amaral, o arquiteto Francisco Pires (Pitum), para desenhar novos bairros e uma Pousada para albergar os quadros superiores que se fixavam na aldeia. Apoiava-se também os trabalhadores que quisessem construir a sua própria casa, com materiais e linhas de crédito. Havia trabalho e qualidade de vida.

Ao lado do complexo industrial da fábrica do Tramagal, que ocupava já 50 mil m2 e empregava 2 000 trabalhadores, ergueram-se mais 5 mil m2 de área coberta, para acolher a primeira grande aposta da nova administração: uma linha de montagem automóvel, em 1964. A guerra colonial estava em curso em três frentes, o Governo mobilizava vastos meios para o Ultramar e o início da produção em grande escala de camiões Berliet iniciou-se no Tramagal. 

Rui Duarte Ferreira discursa num jantar com a Divisão Berliet-Tramagal. Foto: DR

Fez-se uma nova fundição, em 1966, continuou a investir-se em pessoal especializado, nas mais modernas formas de organização e gestão de empresas.

Mas, em 1970, por decisão da família, a gestão passa a ser garantida por Martins Simões, nomeado administrador-delegado, e Rui Duarte Ferreira assumiu o cargo de diretor de Produção. A convivência viria a ser impossível entre os dois e Rui Duarte Ferreira acabaria por ser “destituído” em poucos meses, desligando-se da empresa por completo.

Maria Basto, que se mantinha como uma das principais accionistas, escreveu na altura uma duríssima carta ao novo administrador:

Tenho orgulho no meu filho, é honrado, é trabalhador, é válido e autêntico. Não se vende nem se dobra. Pode ser incómodo porque põe situações claras doa a quem doer; além disso é um homem do seu tempo, democrático e não feudal. Foi o único Duarte Ferreira da sua geração que meteu ombros à tarefa de salvar da estagnação a empresa do seu avô; tem consigo um ideal de trabalho e entregou à Metalúrgica toda a sua capacidade e toda a sua devoção. (…)

Às palavras da sua mãe há pouco a acrescentar.

Numa nota pessoal, permitam-me que recorde as dezenas de vezes que me encontrei com o engenheiro Rui na linha de Cascais, aos sábados de manhã, nos últimos 12 anos. Com a vivacidade dos seus 70 anos, e depois pelos 80 fora, cumpria religiosamente as suas aulas de ioga e entregava-se depois, à mesa de um café (onde já nos conheciam, após tantos encontros), a longas horas de entrevistas – que não tiveram, na verdade, um fim.

A sua primeira missão foi ajudar-me a contar a história de vida do seu avô Eduardo. Depois da biografia publicada em 2006 (“Nas Asas de Uma Borboleta”, Ed. Página Seguinte/Câmara Municipal de Abrantes), fomos trabalhando a ideia de escrever a história da fábrica. Uma das suas grandes preocupações era demonstrar que os problemas financeiros da empresa, nos anos 70 e 80, não se deviam à sua má gestão na década anterior. Sentia-se injustiçado com essas críticas e apontava os balancetes e relatórios e contas dos anos 60 (com lucros) como prova. 

Se ele tivesse prosseguido aos comandos da empresa, o que teria acontecido? Se a MDF não fosse intervencionada no 25 de abril de 1974, teria a família conseguido mantê-la de pé? Ninguém sabe, ninguém pode saber. O mundo dá muitas voltas, e quase sempre por caminhos longos e tortuosos. A certeza que podemos ter é que Rui Duarte Ferreira se dedicou por inteiro à MDF em cada minuto de cada dia em que ali trabalhou e que só desejava o melhor para a empresa. Acarinhou também todas as memórias que ali construiu, desde os seus tempos de menino, passeando de carroça com o avô pelos campos agrícolas do Tejo, chutando uma bola no pelado do TSU ou olhando, pela janela da sala de estar dos pais, a multidão vestida de ganga que chegava à fábrica pela manhã.

A última vez que ouvi a sua inconfundível gargalhada foi no passado dia 1 de maio, na inauguração do Museu MDF e no lançamento do livro sobre a história da fábrica. Fico feliz por ter podido estar ali, de braço dado com ele, vendo a concretização de um sonho que partilhávamos com os seus irmãos, e tantos outros elementos da família. O sorriso que lhe vi no final desse dia ficará para sempre comigo.

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