“Vozes de burro não chegam ao céu”, por Vera Dias António

Foto: Leonor Carvalho

Saindo do meu registo normal, de escrever sobre pessoas, hoje falarei de expressões, mais concretamente de uma parte da nossa tradição oral, os provérbios. Nós, falo dos portugueses, que por cá nascemos e crescemos não temos, em parte, noção da riqueza e complexidade da nossa língua e, mais, da nossa linguagem. Neste âmbito é óbvio que “cada cabeça, sua sentença”, mas o meu interesse por este tema tem sido feito a duas cabeças, a do meu marido e a minha.

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O Rui cresceu noutro país, onde fez todo o percurso escolar em inglês. Frequentou paralelamente a escola portuguesa. O Rui veio para Portugal há 20 anos e embora seja filho de portugueses e tenha feito escola portuguesa, não cresceu, ainda assim, exposto à cultura, à conversa normal e comum que todos fazemos e que se enraíza em nós. Como tal, não raras vezes, “perde o fio à meada” quando numa conversa entram expressões cá das nossas e deixa de perceber o sentido do que está a ser dito.

Estamos juntos há 15 anos e ainda hoje questiona o sentido de várias expressões, quando as uso. Outro dia, numa conversa sobre pessoas que falam mal dos outros para os prejudicar eu concluí que “onde há fumo, há fogo”, mas “Deus escreve direito por linhas tortas, além de que “vozes de burro não chegam ao céu” e a conversa mudou obviamente de rumo.

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Primeiro porque é possível dar-se uma resposta muito acertada com recurso a três expressões, ou mais. Depois porque passámos a falar no sentido da última. A expressão remete efetivamente para quem fala mal de nós, ou diz alguma coisa infundada ou gratuita com intenção de nos prejudicar. Mas dito assim, a frio, não tem jeito nenhum, coitados dos burros, porque é que não hão de ser ouvidos no céu? Acontece que estes são os burros no outro sentido da palavra, e não aqueles que “comem palha se lha soubermos dar”.

Num outro dia, porque a expressão foi utilizada por alguém num noticiário, fomos para o bacalhau, mais concretamente, para “as águas de bacalhau”. Conseguimos entender o sentido, nós que cá crescemos e sabemos que tanta coisa neste país fica neste estado, mas porquê “ficar em águas de bacalhau”?! Porque tira o sal?! Não, pelo contrário, não se trata da água em que se demolha o bacalhau, mas, sim, remete para os acidentes e perdas dos nossos pescadores bacalhoeiros, perdas que ficavam lá, nas águas do bacalhau, nos mares da Terra Nova ou Gronelândia, sem haver nada a fazer.

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Todos nos reconhecemos nestas expressões que se entranham em nós enquanto crescemos. Creio que até o Rui “primeiro estranhe, depois entranhe”.

Há ainda assim expressões que, embora tenham um sentido correto, são desengraçadas. Ainda que remeta para o respeito a expressão “quando um burro fala o outro baixa as orelhas” é desrespeitosa, não acham?! Nunca gostei desta. Mas a raça asinina tem uma grande presença neste mundo, servem para ilustrar tudo.

Os burros estão para os provérbios como os alentejanos para as anedotas. Fui à biblioteca de Mação buscar 2 livros de provérbios e expressão oral e fiquei como “um burro a olhar para um palácio”. O número de provérbios com burros quase que iguala as palavras amigo ou amor, que são das mais badaladas.

Hoje saí realmente do meu registo e espero não ter passado “de cavalo para burro” mas é um tema de que gosto e que me diverte e que gostaria de partilhar.

Por estes dias estou sem serviço da MEO pelo que escrevo no telemóvel, o que me causa confusão, acreditem.

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Se não me custasse tanto escrever aqui ainda dissertava sobre o serviço MEO na minha zona, os meus vizinhos aplaudiam. Fica para outra altura. Mas há serviços que se julgam palácios e nós devemos ser os ditos, a olhar para eles…

Está crónica, hoje condicionada às minhas limitações tecnológicas lembra-me que “burro com fome, cardos come”, temos que sobreviver, que nos adaptar. Dentro do possível, “albarda-se o burro à vontade do dono” e “queira ou não queira, este burro há-de ir à feira”, embora tenha muito mais pano para mangas!

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Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica. Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida. Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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