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Quarta-feira, Julho 28, 2021

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VOZ AOS AUTARCAS: Pedro Ferreira – Torres Novas

Pedro Ferreira, Presidente da Câmara Municipal de Torres Novas
Pedro Ferreira, Presidente da Câmara Municipal de Torres Novas

Como muitos torrejanos, habituei-me desde criança a olhar para aquele edifício tão belo quanto diferente, de uma forma especial.

Sempre que entro nele, mesmo vazio de equipamentos, de imediato me vêm à memória rostos, sons, vozes, cheiros, risos e pregões a ecoarem no espaço.

Era ali o centro social da então vila. Era ali o centro da “vida” torrejana.

O bulício era tanto à época, que a minha mãe, com o saco das compras na mão esquerda, apertava com a outra a minha mão, enquanto deambulávamos pela Praça.

Ela à procura de bons produtos e bons preços e eu à procura certamente de sensações novas, de encontrar amigos, de esperar que desse a volta até aos bolos ou aos rebuçados.

Como eu gostava de a acompanhar à Praça do Peixe.

E lá estava nas velhas escadas desgastadas pelo uso, o velho dos “chupas” de anis enrolados em papel de lustro, mesmo ao lado dum toldo improvisado onde se vendiam quinquilharias.

E no inverno o carrinho das castanhas assadas enroladas em papel de jornal, tão quentinhas que saltavam de mão para mão.

No chão calcetado ou num dos degraus de pedra branca, quase sempre gente pobre, alguns deficientes, a pedir esmola. E as poucas moedas lá iam caindo dentro duma boina rota.

Dentro da Praça, do lado direito várias bancas em pedra com os talhantes da vila e do concelho e do lado esquerdo as flores, o pão e os bolos.

Ao fundo, bem ao fundo, apregoava-se o melhor peixe, e o piso molhado pelo gelo e pelos pingos de água caídos das caixas de madeira e das lavagens, empurrados à mangueirada pelo homem da Câmara, de botins pretos de borracha, por vezes faziam escorregar os mais distraídos.

Nesta zona o despique era muito e roçava a provocação entre comerciantes. Entre peixeiros, reza a história que teria que haver sempre uma boa “peixeirada”. Era da praxe. Uma provocação aparente, disfarçada, mas indispensável entre os pregões a ecoar: “OLHE O MELHOR CARAPAU, FREGUESA”…. “VENHA ANTES AQUI…ESTE ATÉ VEIO DA NAZARÉ!”… “NÃO LIGUE DAMA…ESTE É QUE É BEM FRESQUINHO!”

Ao longo do centro da Praça, as bancas dos legumes, da fruta, das hortaliças.

Talões e faturas para quê? A licença sanitária, essa sim. E o desequilíbrio das balanças representava sempre um bónus para o freguês. E lá vinha mais uma laranja ou mais um cacho de uvas e até dava para provar uma provocadora azeitona ou uma mão cheia de tremoços!

E no bulício da Praça, muita gente conversadora, que ali vinha só para conversar e pôr as notícias em dia. Tanta calhandrice, caramba! Como conversa puxava conversa, não é que iam palrando até à taverna mais próxima? E era só escolher… a da Júlia, a do Crispim, a do Zé da Ana, a do Mário Alturas ou a do Léu, as mais próximas, claro! Então, lá vinham uns copos de “três”!

E muito cuidadinho com o trânsito já que algumas carroças não passam devagar.

A Praça entretanto adoeceu com uma doença chamada “novos tempos” e foi definhando até fechar de vez.

Porém, com tanta energia acumulada ao longo de décadas, foi provocando todos os que por ela passavam, como que a dizer: “Vão deixar-me assim?”

A resposta finalmente veio e a Praça do Peixe ressurgiu cheia de força. E acordou com a força de uma cidade. Uma cidade também saudosa e desejosa de preservar memórias e dar-lhes vida.

E a Praça rejuvenescida aqui está. Disposta a não morrer mais, preparada para tudo o que nela queiram fazer a bem da cidade que a viu nascer. A bem do centro histórico onde teimosamente continua a morar, provocando os vizinhos prédios em ruínas para que sigam o seu exemplo. E até já sonha que ainda consegue trazer mais gente do que antigamente.

Por tudo isto, publicitar neste dezembro “AQUI HÁ NATAL” na nossa Praça do Peixe, é o mesmo que dizer AQUI HOUVE CONTOS VERDADEIROS DE NATAL. Venham senti-los. Não serão para contar, mas que os houve, certamente houve.

Se eu pudesse, garanto que até poria no meu Presépio, em sítio de destaque, uma réplica desta velha Praça do Peixe que tanto diz aos torrejanos.

Por isso vamos todos neste Natal entre os dias 12 e 23 de dezembro à Praça do Peixe, onde haverá muita animação cultural, muito espírito solidário e muitas prendinhas para comprarem.

E que bonita que ela está por dentro e por fora, também já preparada para a “Passagem de Ano”. Não se espantem, pois agora que acordou, a nossa Praça não vai parar.

Mesmo agora saí da Praça sem fazer barulho com o portão, e não é que me pareceu ouvir do fundo da Praça “Venha cá ó freguês…?”! Talvez me tivessem mesmo chamado. Seja como for, tenho que lá voltar. Venham também, até porque “AQUI HÁ NATAL”!

Um Feliz Natal para todos!

Pedro Ferreira – Presidente da Câmara

Presidente da Câmara Municipal de Torres Novas

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