Volta a Portugal | João Paulo Félix correu 1300 km contra a violência doméstica

Com Abrantes a marcar a jornada, cada passada foi uma conquista por uma causa. João Paulo Félix concluiu no sábado os 1330 km da Volta a Portugal a correr contra a violência doméstica. Foto: mediotejo.net

Quase sempre associado a causas solidárias, João Paulo Félix, natural de Foros de Salvaterra (Salvaterra de Magos), propôs-se correr 1250 quilómetros em torno de Portugal para chamar a atenção para a problemática da violência doméstica e ao mesmo tempo homenagear os profissionais de saúde que combatem a pandemia. João Paulo, que chegou ontem a Lisboa, percorreu 1301 km. Abrantes foi o marco dos seus 5.000 quilómetros a correr por causas sociais.

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Em 25 dias, João Paulo Félix cumpriu as 25 etapas previstas, que se constituíram em 24 UltraMaratonas, num total de 1301 quilómetros, mais 51 do que o previsto. Desde Faro e até Lisboa, o ultramaratonista passou por 63 concelhos e 14 distritos, antes de chegar no sábado à meta, no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa. Recuperamos a reportagem feita com o atleta à passagem por Abrantes.

Em 25 dias, João Paulo Félix cumpriu as 25 etapas previstas, que se constituíram em 24 UltraMaratonas, num total de 1301 quilómetros, mais 51 do que o previsto. Foto: DR

Sempre disponível, humilde e com um largo sorriso nos lábios, este ultra-maratonista ribatejano de 50 anos, que já percorreu a Volta ao Ribatejo e calcorreou a Estrada Nacional 2, entre muitas outras aventuras por asfaltos nacionais e estrangeiros, abraça todos os seus desafios com a mesma alegria como se fosse o seu primeiro quilómetro.

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Mas são já um sem número de projetos que vai superando, dia após dia, sem evidenciar fadiga que está sempre associada a quem desbrava cerca de meia centena de quilómetros por dia.

Os marcos passam, mas o João nem os contabiliza: nem relógio usa nas suas corridas pois não corre pelo tempo, mas por prazer e por causas (Foto: mediotejo.net)

O mediotejo.net tomou a iniciativa de ir ao encontro deste ser humano incrível que desafia os seus limites por causas solidárias.

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A paisagem não lhe é indiferente, mas o foco está em cada passo que dá (Foto: mediotejo.net)

Para além da sua profissão de Sociólogo, após a sua rotina do dia a dia, veste o jersey, calções e sapatilhas e – desta vez – propôs-se fazer 1250 quilómetros em torno de Portugal (que acabariam por ser 1301) para chamar a atenção para a problemática da violência doméstica e ao mesmo tempo homenagear os profissionais de saúde que, na linha da frente, vão fazendo “das tripas coração” para amenizar e combater a dramática pandemia que nos está a assolar nestes últimos meses.

Pausas breves para hidratação, alimentação e tratar do corpo é fundamental neste tipo de desafios longos (Foto: mediotejo.net)

Curiosamente foi o confinamento devido à Covid-19 o “culpado” do projeto do ultra-maratonista para realizar esta grande aventura. A ideia estava mais centrada noutro projeto agora adiado, mas com vontade de ser concretizado ainda este ano: fazer a Volta à Madeira a correr – não nos enganaremos muito se dissermos que será para breve pois é uma ideia que não lhe sai da cabeça. É que quando um Homem sonha…

 

Sem querer cair no ridículo de repetir aquele chavão de que alguns de nós só olharmos para o nosso umbigo esquecendo os mais desprotegidos, o João Paulo é o exemplo vivo de quem está na vida muito mais do que apenas existir.

Homem sensível, corre por gosto e esse prazer não lhe causa dor apesar das dezenas de quilómetros que ultrapassa por dia. No final de cada etapa, a sua tranquilidade e alegria são o reflexo desse prazer que sente em correr por causas que lhe são queridas.

Com a cidade de Abrantes à vista, faltava pouco para atingir os 5 mil quilómetros a correr em prol de causas sociais (Foto: mediotejo.net)

No final da sétima jornada (de um total de 25) que ligou a localidade de Cansado (Ponte de Sor) a Sardoal, estivemos à conversa com o atleta que nos falou um pouco daquilo que leva uma pessoa a fazer-se à estrada e correr sem competição, por causas tão nobres.

Algo que gratifica quem faz o que gosta é ter uma motivação, um objetivo, uma determinação e um significado para o sentido da vida. Também aí o João Paulo tem os pés bem assentes na terra mesmo que troque de sapatilhas dia sim, dia não (um dos muitos truques que tem que contribuem para o sucesso das suas aventuras).

Considera que o que faz é parte do seu trabalho profissional ao ponto de ser firme ao afirmar que, ao correr, também sente que contribui para a sua qualificação, não dissociando uma coisa da outra. É de forma firme que diz que correr também faz parte do seu status enquanto homem e enquanto sociólogo.

Os Chefes de Divisão das áreas de Desporto e Turismo da Câmara de Abrantes, Anabela Diogo e Luís Valente fizeram questão de assinalar a marca dos 5.000 quilómetros corridos por causas sociais. Marca atingida em Abrantes (Foto: mediotejo.net)

Voltando à estrada, a jornada que acompanhámos teve o condão de assinalar isso mesmo: Abrantes foi o marco dos seus 5.000 quilómetros a correr por causas sociais. Sem grandes alaridos, o atleta refere-se ao feito como algo especial mas para si próprio, não fazendo disso uma bandeira nem procurando alcançar recordes nem figurar em livros de grandes feitos. Apenas pretende que isso seja algo que alerte para as causas pelas quais calcorreia as estradas do país.

E foi, curiosamente, na cidade florida que essa marca foi atingida. No espaço do Aquapolis Sul, em Rossio ao Sul do Tejo, os Chefes de Divisão das áreas de Desporto e Turismo da Câmara de Abrantes, Anabela Diogo e Luís Valente fizeram as honras, assinalando o número redondo, homenageando o atleta de forma simbólica, que ainda teve a grata surpresa de trocar umas palavras com a canoísta e atleta olímpica Francisca Laia bem como com Nuno Gomes, praticante de ciclismo (BTT e ciclismo de estrada) que acabou por fazer questão de o acompanhar durante alguns quilómetros para lá do local da cerimónia.

Surpresa agradável para João Paulo Félix, a felicitação da canoísta e atleta olímpica abrantina Francisca Laia (Foto: mediotejo.net)

Mas o relógio adiantava e o calor apertava. Era hora de voltar à estrada. Sempre com a mesma disposição e sem que a paragem tivesse alterado o seu foco, João lá seguiu até Sardoal, destino final da etapa e onde o esperava o casal Sónia e Rodrigo Lopes (os familiarizados com a modalidade sabem quem são os “Lagartos Apressados”) que a trio fizeram dos últimos dois mil metros uma festa de boa disposição e saudável camaradagem.

Contudo, para o nosso protagonista, algo que não pode falhar é o rigor. E, chegado à Praça da República, bem junto ao Pelourinho, analisado o acumulado da jornada, verificou que não estavam completos os objetivos do dia… nada que umas duas ou três voltas em torno do pelourinho não resolvessem. Dessa forma estava completo o plano do sétimo dia do périplo em torno de Portugal.

Chegado a Sardoal, acompanhado pelos “Lagartos Apressados”, foi recebido pelo Presidente do Município, Miguel Borges (Foto: mediotejo.net)

Na hora de repousar o corpo e repor energias, o sempre bem disposto e disponível João Paulo Félix foi recebido por Miguel Borges, Presidente do Município de Sardoal, que fez questão de agradecer o facto de escolher a vila para final de etapa e de frisar a importância do feito para a boa divulgação e promoção à Estrada Nacional 2, referindo que é um trabalho ainda “bebé” dando a entender que é neste tipo de iniciativas que o projeto se terá que concentrar e, dessa forma, crescer.

Antes do repasto e do merecido descanso, ouve tempo para um pequeno convívio e para mais algumas questões colocadas pelo mediotejo.net, numa jornada que consagrou os 5.000 quilómetros de João Paulo Félix a correr por causas sociais.

Deixamos o nosso atleta ir descansar, porque a viagem em torno de Portugal tinha que continuar no dia seguinte. Para a oitava etapa, estava programada a deslocação de Sardoal até Pedrógão Grande, a mais longa de todas (65 quilómetros). E foi mais uma jornada cumprida com sucesso.

A oitava etapa (Sardoal / Pedrógão Grande) contou com a presença dos “Lagartos Apressados” aqui em início de jornada (Foto: DR)

Sempre pautada por calor extremo (nada que o atormente depois das etapas alentejanas debaixo de temperaturas acima dos 40 graus), a estratégia era começar a correr bem cedo porque o alcatrão aquece depressa e a pele ressente-se.

Passagem pela Sertã a caminho de Pedrógão Grande, sempre com a mesma boa disposição e com companhia que ajuda na jornada (Foto: DR)

Os “Lagartos Apressados” Sónia e Rodrigo Lopes fizeram-lhe companhia, a que se juntaram mais à frente outros amigos que partilham da mesma paixão pelas corridas e pelas boas causas. Para o João correr é isso mesmo: uma festa de família. E que gozo demonstra nos seus olhos quando disso fala.

A paixão com que fala das suas corridas é contagiante. Seus olhos dizem tudo (Foto: mediotejo.net)

Fazemos votos sinceros que agora que terminou mais esta aventura (e antes de iniciar a próxima), possa usufruir da sua família, da sua casa, e das boas pescarias. Bem haja. O mediotejo.net sabe que ganhou um bom amigo para a vida e agradece toda a disponibilidade de nos receber ao vivo e a sua “super-simpatia”. A sociologia, os seus jovens e a sua família também devem estar muito gratos e orgulhosos.

c/JORGE SANTIAGO E DAVID PEREIRA

Fotos de Jorge Santiago e David Pereira

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A grande “culpada” é uma velhinha máquina de escrever Royal esquecida lá por casa e que me “infectou” para uma vida que se revelou mais tarde não fazer sentido sem o jornalismo. O primeiro boletim da paróquia e o primeiro jornal da pequena aldeia onde frequentava a escola (tinha apenas 7 anos de idade) entranharam-me a alma (e o sangue) deste “vício” de escrever e comunicar. Seguiram-se os pequenos jornais de turma, os das escolas, os painéis informativos colocados nas paredes dos átrios e o dos escuteiros... e nunca mais o “vício” sarou. Ao longo da vida, foram vários e diversificados os ofícios exercidos profissionalmente, mas o “mar dos desejos” desaguava sempre numa folha de papel ou (mais tarde) num portátil de computador (e sempre com a máquina fotográfica como companhia). Já mais "a sério” e desde jornais regionais, rádios locais, periódicos nacionais e televisão (TVI), já são mais de 45 anos de um percurso “académico” de alguém que pouco se importa de não possuir um “canudo”.

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