Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -
Quinta-feira, Julho 29, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

VN Barquinha: Uma quinta comunitária com amizade biológica

Num território marcado pela paisagem rural não é novidade a existência de espaços cultivados em comunidade. Em Vila Nova da Barquinha existe uma quinta centenária onde a tradição tem quase duas décadas e os doze hortelãos passam os dias na companhia do proprietário, do genro e do cão, que já não ladra quando os vê entrar porque fazem parte da casa. Uns são reformados, outros estão no ativo e partilham o que a terra dá num terreno que não é seu, mas que produz para todos.

- Publicidade -

- Publicidade -

Eugénio Aparício Passos tem 81 anos e as canadianas denunciam os tempos em que trabalhou como maçano na Atalaia, onde nasceu, e a partir dos 14 anos em Alcântara, Lisboa. A adolescência de cabaz às costas deu lugar ao serviço militar em Portalegre e foi nessa altura que conheceu a futura esposa, Maria dos Anjos, uma jovem costureira que frequentava a casa do pai e da madrasta. Juntaram os trapinhos e aos 25 anos mudou-se para a Quinta do César, propriedade com quase 12 mil metros quadrados pertencente a Celeste Barral que amadrinhou Maria dos Anjos, a filha dos caseiros Quitéria e Manuel. É aqui que esta história começa.

Na altura, o casal vivia na casa principal com a “madrinha”, viúva, e o “velho Barral”. A casa onde hoje mora foi construída “por uns homens de Lisboa” contratados pelo irmão “Manel” no sítio onde antes estavam os fornos a lenha. O Supermercado Passos, na Moita do Norte, garantiu o sustento da família até à época em que as grandes superfícies arrasaram o comércio local e colmatou o fim iminente do negócio com a abertura de uma casa de pasto, O Cantinho do Génito, conhecida pelo famoso cozido à portuguesa. Aos 70 anos decidiu reformar-se e desde então é acompanhado na sua rotina diária pelos hortelãos a quem cede parcelas de terreno para cultivo há quase duas décadas.

- Publicidade -

quinta06O genro, Filipe, anda sempre por perto enquanto assegura algumas tarefas da quinta onde o gato convive amigavelmente com os pombos e as “Matildes”, nome atribuído às galinhas. Isto é um prenúncio do ambiente que encontramos quando falamos com alguns dos agricultores. Quando questionado sobre a origem desta “tradição”, Eugénio conta que “começou a vir um, dois, três… agora estamos aí doze!”. Doze pessoas a cultivar o seu pedaço de terra e a conviver todos os dias não gera simples camaradagem, mas sim “uma família”. O ambiente “não podia ser melhor e se tenho alguma coisa aí amanhada devo-o a eles porque não sou capaz, tenho medo de cair”.

E porque “nem só de trabalho vive o homem”, os petiscos nesta “família” são frequentes. Pudemos comprová-los em pleno magusto no Dia de S. Martinho, em que se seguiu o ditado popular e abriu o vinho, mais precisamente um barril de 50 litros de água-pé, na casa de um hortelão que mora na mesma rua, Carlos Cardoso. Este ex-paraquedista de 57 anos tem o seu espaço “cedido por pessoas muito nossas amigas” há seis, que diz ocupar com “orgulho”. Salienta que quando “uns não têm alfaces, os outros têm, quando uns não têm couves, os outros têm e não é preciso pedir licença a ninguém para lá ir buscar”.

quinta01Artur Neto, o “assador de serviço”, está por perto e vai acenando. Nos últimos três anos tem conjugado o trabalho como forneiro da Soladrilho (Entroncamento) e a horta, cujos donos conhece há mais tempo. Descreve o ambiente que se vive na quinta como “uma amizade, uma família que temos aqui todos. É espetacular. Nunca encontrei isto em nenhum lado”. Manuel Serrano, de 67 anos, também já conhecia os donos antes de ter o seu espaço de cultivo e refere que “quase foi criado na quinta” porque a mãe conhecia a sogra de Eugénio. A opinião de que a experiência é “muito saudável” é partilhada por José Ventura, reformado com 70 anos, que fala orgulhosamente das suas abóboras “com 40 e 50 quilos”. Só resulta porque “a terra é muito boa” e quando lhe perguntamos o que ali se dá melhor é assertivo na resposta “tudo”.

A entrevista é interrompida pelo aviso de que o bacalhau na brasa está pronto. As castanhas chegam num tabuleiro de barro trazido por Zézinha, a esposa de Carlos, e enchem-se os copos com a água-pé. Decidimos continuar e, entre castanhas, falamos com Anselmo Bento, a pessoa mais antiga na quinta, quer no tempo em que cutiva a terra, há cerca de uma década, quer na idade, 74 anos. O Sr. Bento, como é conhecido, resume a entreajuda existente a “um mata-se e outro esfola-se, toca a andar para a frente” e explica o tempo que passa com o grupo “fartei-me de trabalhar, como eles aqui todos. Agora, não aproveitando, o que fazemos?”.

quinta03Também de volta das castanhas temos Diamantino Condeço, 49 anos, que trabalha como mecânico e cultiva o seu canto há dois anos. Troca olhares cúmplices com os colegas quando diz que na quinta “é tudo malta fixe e todos gostam de água, só água”. Podem não beber apenas água, mas é como “peixe na água” que Manuel Bento, 68 anos, descreve como se sente nos últimos cinco anos. Trabalha como motorista e sempre que pode, junta-se aos restantes hortelãos num “convívio muito familiar em que cada um tem o seu canto, mas se o parceiro precisar de uma ajuda, ele ajuda”.

Entre os convivas estão pessoas que não fazem parte do grupo, mas que aparecem quando são convidados porque gostam da “camaradagem”, dos “petiscos” e têm grande respeito pelo “mestre Génito”. O mesmo a quem fazemos a pergunta que nos surgiu desde o início da reportagem “quem é o César que deu nome à quinta?” Eugénio não sabe e decidimos investigar com a ajuda de Rafael Domingos, arquiteto paisagista na Câmara do Entroncamento com paixão pela genealogia.

quinta05Se a propriedade pertenceu a Celeste Barral e o pai dela morou lá, talvez encontrássemos algum indício na árvore genealógica da família, da qual Rafael faz parte. Aos treze anos, o arquiteto tirava as primeiras notas ao ouvir a avó falar dos antepassados espanhóis e voltaria a pegar nelas quando teve que fazer pesquisa na Torre do Tombo durante o trabalho de final de curso. O que era para ser “uma horinha por dia para fazer isto, na brincadeira” tornou-se coisa séria e há seis anos que é um dos “400 e poucos sócios” da Associação Nacional de Genealogia.

A avó estava certa e Rafael fala-nos de um tal Juan António Barral que casou em 1822 na capela de Nossa Sra. dos Remédios, na Moita do Norte, com uma moitense chamada Maria dos Remédios. A partir daí a família foi crescendo e entre os descendentes surgem nomes como Carlos Barral Filipe, a quem foi atribuída uma das principais ruas de Vila Nova da Barquinha, Carlos Barral Godinho, que deu o apelido da esposa à famosa Casa Paris no Entroncamento, e Eugénia Barral Torres, que casou com Aquiles da Mota Lima, cuja faceta filumenística gerou o Museu dos Fósforos em Tomar.

quinta02O César não apareceu, mas descobrimos a elevada probabilidade do terreno da quinta com o seu nome ter pertencido aos Templários e integrado as posses da Casa Sommer, mais precisamente, a Quinta da Cardiga. Celeste Barral terá recebido a quinta do pai, Carlos Pereira Barral que, por sua vez a terá herdado da mãe, Maria da Nazaré Pereira, costureira que aos dezassete anos já sabia assinar a certidão de casamento.

São apenas suposições e fica o mistério das origens centenárias de uma quinta onde a junça que alguns hortelãos referem não estraga a pureza da amizade que por ali cresce todos os dias. Usando um termo em voga, poderíamos chamar-lhe uma “amizade biológica”, mas apenas se não considerarmos os petiscos como aditivos.

quinta04

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome