Especial | Tancos, a série de factos reais que marcou o ano

A BA n.º3 vista do exterior. Foto: mediotejo.net

O roubo nos Paióis Nacionais de Tancos marcou 2017 e voltou a ser tema no ano que agora termina. O assunto que todos consideram “grave” ocupou o prime time com um enredo de suspense a fazer lembrar produções televisivas intemporais e, se em “Dallas” o mundo queria saber quem tinha morto J.R., neste caso continua por responder “Quem furtou o armamento militar?”. Apresentamos esta série de factos reais desde o início para enquadrar os que vão surgir em 2019.

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Na quinta-feira, 29 de junho de 2017, o país era surpreendido com o comunicado do Exército de que os Paióis Nacionais de Tancos, concelho de Vila Nova da Barquinha, tinham sido assaltados no dia anterior. A notícia de abertura dos telejornais daquela data acabou por se transformar em muitas outras sobre uma história que dura há quase ano e meio e levou à demissão de um Ministro da Defesa e de um Chefe do Estado-Maior do Exército (CEME).

Muito se disse e escreveu sobre o assunto que todos consideram “grave” e para o qual se exigem culpados. Entre o conhecimento da lista de material roubado – tornada pública por um jornal espanhol -, troca de acusações políticas, reforço da segurança em instalações militares, desativação dos paióis, atropelos na investigação entre a Polícia Judiciária e a Polícia Judiciária Militar ou uma recuperação supostamente encenada, o enredo adensa-se.

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O suspense de muitas séries televisivas não rivaliza com esta situação real em que a pergunta principal continua por responder “Quem furtou o armamento militar dos Paióis Nacionais de Tancos?”. A ela juntam-se outras que muitos evitam colocar, como “Quem ganhou (ou perdeu) com o esquema que o antigo CEME, General Rovisco Duarte, chegou a admitir poder ter sido montado com “informação do interior”?” ou “Foi a primeira vez que aconteceu ou que se tornou público?”.

São quase duas dezenas de suspeitos (militares e civis) envolvidos e as revelações têm surgido. No entanto, fora dos tribunais, quem sabe o que se passou não fala e alguns usam o tema para conquistar pontos eleitorais. Quanto à população, o desinteresse vai-se instalando. Uma notícia sobre o roubo de Tancos já é considerada como mais uma, remetendo-nos para nova questão “Excesso de informação, falta de notícias ou contra-informação?”.

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A verdade está algures entre o segredo dos deuses e o segredo de Justiça, persistindo a dúvida se a resolução do caso será um novo “Milagre de Tancos”. Esta série de episódios reais sobre um assunto sério promete ter continuidade em 2019 e resta saber se, no final da “temporada”, se cumpre o pedido do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, para o apuramento de “tudo, de alto a baixo, até ao fim, doa a quem doer”.

Até lá, fazemos um enquadramento do que se passou desde 2017 com o momento “zero” e os factos relevantes de três cenários – político, militar e judicial – para que se prepare para os próximos desenvolvimentos. A investigação continua e, entre janeiro e maio, a comissão de inquérito ao furto nos Paióis Nacionais de Tancos vai ouvir 63 personalidades e entidades, incluindo o Primeiro-Ministro, António Costa.

ROUBO DO MATERIAL E PRIMEIRAS REAÇÕES

Tancos. Foto: DR

2017

O desaparecimento do material militar dos Paióis Nacionais de Tancos ocorre a 28 de junho de 2017 e o Exército lança um comunicado no dia seguinte em que refere ter sido detetada a violação do perímetro de segurança. O então Ministro da Defesa, Azeredo Lopes, garante que “não ficará nada por levantar” e o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, numa visita a Tancos, pede o apuramento de “tudo, de alto a baixo, até ao fim, doa a quem doer”.

Entre as reações do ministro e do presidente, a lista geral apresentada a 30 de junho pela instituição militar surge pormenorizada a 2 de julho no jornal “El Español”, que publica o “inventário definitivo” enviado para as forças antiterroristas espanholas. Neste documento constam, entre outros itens, 1.450 cartuchos de munição de nove milímetros, 18 granadas de gás lacrimogéneo e 150 granadas de mão ofensivas.

As reações de diferentes forças políticas surgem dois dias depois do furto do material roubado, com o PSD e o CDS-PP a pedirem a presença do então Ministro da Defesa, Azeredo Lopes, no parlamento e o PCP a defender que devem ser retiradas consequências do caso que carateriza como sendo de “extrema gravidade”. O CDS-PP reforça a sua posição a 3 de julho, data em que líder do partido, Assunção Cristas, pede a demissão de Azeredo Lopes.

O CENÁRIO POLÍTICO

Marcelo Rebelo de Sousa. Foto: DR

2017

Perante o pedido de demissão do Ministro da Defesa apresentado por Assunção Cristas o Primeiro-Ministro, António Costa, manifesta confiança em Azeredo Lopes e, à semelhança deste, solidariedade com o CEME, General Rovisco Duarte. No dia 21 de julho, o Conselho Superior de Defesa Nacional reúne-se e, a 27, o Diretor do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP), Júlio Pereira, declara na Comissão de Defesa Nacional que o Serviço de Informações de Segurança (SIS) tomou conhecimento do assalto a Tancos pela comunicação social.

O mês de setembro começa com Marcelo Rebelo de Sousa a mostrar preocupação com o tempo que está a levar o apuramento dos factos e responsabilidades. Os mesmos que Azeredo Lopes desvaloriza cerca de uma semana depois, numa entrevista em que admite a possibilidade de “no limite, pode não ter havido furto nenhum”. O Ministro da Defesa recusa responder sobre este assunto aos deputados da Assembleia da República.

No mesmo dia, anuncia medidas para melhorar a segurança e vigilância de paióis e, mais tarde, no transporte e armazenamento de material militar. Já em outubro, face ao aparecimento das armas na Chamusca, no dia 18, salienta, no dia 26, ser a “a primeira vez” em democracia que se recupera material “de um furto desta natureza”.

Surgem notícias sobre discrepâncias entre o material militar roubado e o recuperado, levando o Presidente da Comissão Parlamentar da Defesa Nacional, Marco António Costa, a referir “possíveis discrepâncias entre o inventário e o que efetivamente estaria armazenado”. No mês de novembro, o Ministro da Defesa anuncia a instalação de sistemas de videovigilância em 18 unidades do Exército.

2018

O Governo e o Presidente da República mantêm-se em silêncio até ao mês de março. No dia 1, Marcelo Rebelo de Sousa defende que casos como este devem ser investigados “mais longe e a fundo”, na cerimónia em que o Almirante António Silva Ribeiro foi empossado como novo Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA).

Vinte dias depois chega ao Parlamento o relatório enviado pelo Ministro da Defesa em que são apontadas falhas de segurança nos Paióis Nacionais de Tancos a diversos níveis. Marcelo Rebelo de Sousa volta a pedir o “apuramento integral” dos factos” um ano depois do roubo e, já em julho, reitera a “exigência de esclarecimento cabal” depois das notícias que apontam discrepâncias entre o material militar roubado e o encontrado na Chamusca.

Azeredo Lopes. Foto: mediotejo.net

As declarações dos partidos políticos sucedem-se e, a 25 de setembro, o momento do roubo em Tancos quase é relegado para segundo plano quando a Polícia Judiciária, no âmbito da Operação Húbris, revela que a recuperação do armamento na Chamusca foi encenada. Os responsáveis apontados são a Polícia Judiciária Militar, a GNR de Loulé e o suposto autor do furto. Algumas notícias referem que Azeredo Lopes terá tido conhecimento do plano.

O Ministro da Defesa nega a acusação, surgida do interrogatório realizado ao Major Vasco Brazão, o nono arguido envolvido no processo da recuperação do material roubado. Até à data tinham sido emitidos mandados de detenção a quatro responsáveis da Polícia Judiciária Militar, incluindo o seu diretor, Coronel Luís Vieira, um civil e três elementos da GNR. O seu chefe de gabinete de Azeredo Lopes, Tenente-General Martins Pereira, admite entretanto que recebeu Vasco Brazão e Luís Vieira e recusa qualquer “indicação de encobrimento de eventuais culpados do furto de Tancos”.

O mesmo Tenente-General afirma, mais tarde, numa entrevista que o seu advogado entregou no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) um documento sobre a operação de recuperação do material de Tancos. O mesmo ter-lhe-á sido entregue pelo ex-porta-voz e o ex-diretor da Polícia Judiciária Militar numa reunião no seu gabinete.

António Costa afirma na Assembleia da República desconhecer o memorando e acrescenta que o Ministro da Defesa também não. Azeredo Lopes acaba por se demitir do cargo a 12 de outubro com a justificação de querer salvaguardar as Forças Armadas de serem “desgastadas pelo ataque político” e pelas “acusações” de que é alvo. Dois dias depois, o Governo anuncia João Cravinho como novo Ministro da Defesa.

Ainda em outubro, Marcelo Rebelo de Sousa reitera que desconhece os factos associados ao caso de Tancos, que mantém a exigência para que seja apurada a verdade e as consequências da especulação política na investigação em curso, posição acompanhada pela do Primeiro-Ministro, António Costa. O novo Ministro da Defesa assegura estar a trabalhar para apurar o que “correu mal” no caso de Tancos que o resultado da avaliação será apresentado “em breve”.

Entretanto, no dia 26, o CDS-PP vê aprovada a proposta para a criação de uma comissão de inquérito ao roubo nos Paióis Nacionais de Tancos, que apresentou a 3 de outubro. A entidade surge com o objetivo de “identificar e avaliar os factos, os atos e as omissões” do Governo “relacionados direta ou indiretamente com o furto de armas em Tancos”, desde o assalto a Tancos até ao presente, de modo a “apurar as responsabilidades políticas daí decorrentes”.

António Costa. Foto: DR

A 6 de novembro realiza-se uma conferência de líderes parlamentares e a tomada de posse da comissão de inquérito – que tem até maio de 2019, prazo prorrogável por mais 90 dias, para averiguar – fica agendada para o dia 14. A cerimónia fica marcada quando o PSD critica a isenção do presidente, o socialista Filipe Neto Brandão, que tinha sido eleito para a comissão fiscalizadora dos Serviços de Informação da República (SIRP) pela Assembleia da República.

Face a notícias sobre desentendimentos entre o Governo e a Presidência da República, António Costa diz que ambos partilham a “ansiedade” para a resolução do caso de Tancos e que o Governo será “um livro aberto” no apuramento da verdade. Marcelo Rebelo de Sousa acrescenta que todos querem que “a instrução criminal seja incisiva, vá até ao fim e, tanto quanto possível, seja rápida”.

No dia 3 de dezembro, o coordenador dos deputados do PS, Ascenso Simões, envia um requerimento ao presidente da comissão de inquérito com uma lista de nomes ligados a diversas áreas para deporem. Entre eles, encontram-se os de António Costa, Joana Marques Vidal, dos ex-ministros da Defesa Aguiar-Branco e Azeredo Lopes e dos respetivos chefes de gabinete, desde janeiro de 2014.

Na sexta-feira seguinte, dia 7, foi divulgado o calendário das audições a 63 personalidades e entidades propostas pelos diversos partidos políticos da comissão de inquérito que se reúne duas vezes por semana. As primeiras são no próximo mês de janeiro e estão previstas visitas a Tancos e ao Campo Militar de Santa Margarida, que recebeu parte do material transferido dos paióis entretanto encerrados.

O CENÁRIO MILITAR

Área do paiol de Tancos. Foto: DR

2017

O comunicado emitido pelo Exército no dia 29 de junho sobre a deteção da violação no perímetro de segurança dos Paióis Nacionais de Tancos no dia anterior revela o roubo do armamento militar, cuja lista é divulgada de forma geral no dia 30, com a indicação de explosivos, granadas de gás lacrimogéneo e granadas foguete anticarro.

No dia seguinte, sábado, o Chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), General Rovisco Duarte, exonera comandantes de cinco unidades militares. É durante o noticiário da noite da RTP que o General Rovisco Duarte anuncia e justifica a medida, dizendo que “não quero que haja entraves às averiguações e decidi exonerar os cinco comandantes das unidades que de alguma forma estão relacionadas com estes processos”.

No mesmo espaço noticioso é anunciado o reforço de segurança em Tancos e a abertura de processos de averiguações internos do Exército às cargas e condições de armazenagem, à área de segurança física das instalações e ao sistema de controlo de acessos e vigilância eletrónica. A decisão do CEME nas exonerações gerou discordâncias no Exército, tendo o Tenente-General António de Faria Menezes pedido a exoneração do Comando das Forças Terrestres e o Tenente-General Antunes Calçada pedido passagem à reserva.

Os militares exonerados foram os comandantes da Unidade de Apoio da Brigada de Reação Rápida (Tancos), Tenente-Coronel Teixeira Correia, do Regimento de Infantaria 15 (Tomar), Coronel Ferreira Duarte, do Regimento de Paraquedistas (Tancos), Coronel Hilário Peixeiro, do Regimento de Engenharia 1 (Tancos), Coronel Paulo Almeida, e da Unidade de Apoio Geral de Material do Exército (Benavente), Coronel Amorim Ribeiro.

Os cinco seriam renomeados a 17 de julho e, até essa data, o CEME admite numa entrevista que a escolha dos paióis foi feita “a dedo” e que existe a possibilidade do roubo ter sido realizado com acesso a “informação do interior”. Perante a Comissão Parlamentar de Defesa Nacional assume diversas falhas de supervisão por parte do Exército no caso que o então Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), General Pina Monteiro, carateriza de “soco no estômago” e no qual diz, mais tarde, ter tido um papel “muito reduzido”.

General Rovisco Duarte Foto: mediotejo.net

Nas declarações do CEMGFA fica-se a saber que o valor envolvido no furto ronda os 34 mil euros e que parte do material estava referenciado para abate. No mesmo dia em que os cinco comandantes são renomeados, é anunciada transferência do material militar guardado em Tancos para outras unidades militares. Três dias depois, surge um novo comunicado que indica o reforço de segurança dos paióis do Campo Militar de Santa Margarida, em Constância, e o cancelamento dos investimentos previstos para Tancos.

O mês de julho termina com a abertura de processos disciplinares a militares do Regimento de Engenharia 1, unidade responsável pela segurança dos paióis e outubro começa com a Operação Tróia, na qual o Exército transfere o armamento militar guardado em Tancos. A operação envolve vários ramos das Forças Armadas, tendo o transporte para Marco do Grilo (Seixal) sido assegurado pela Marinha, para o Campo Militar de Santa Margarida pelo Exército e para o Campo de Tiro de Alcochete pela Força Aérea.

A 18 de outubro, a Polícia Judiciária Militar emite um comunicado em que refere a recuperação do material roubado em Tancos num terreno da Chamusca. O General Rovisco Duarte diz na altura não existirem dúvidas sobre a existência do furto em Tancos e afirma que os responsáveis serão encontrados.

A 21 de novembro, já depois de se verificarem discrepâncias entre a lista de material roubado e recuperado, o CEME é ouvido à porta fechada na Comissão Parlamentar de Defesa Nacional durante três horas e meia. Marco António Costa, social-democrata e presidente desta comissão, diz ter ficado esclarecido com justificações dadas “com total transparência” pelo General Rovisco Duarte.

2018

O novo ano começa com o anúncio do Exército, no dia 18, sobre a conclusão dos quatro processos disciplinares abertos na sequência do assalto aos Paióis Nacionais de Tancos e abre um processo para apurar a discrepância entre o material roubado e o encontrado. As penas aplicadas aos militares variam, sendo a mais gravosa – proibição de saída durante 15 dias – aplicada ao sargento do Regimento de Engenharia 1 que não ordenou as rondas “como estava previsto na norma de execução permanente”.

O primeiro processo, segundo declarações do Ministro da Defesa, Azeredo Lopes, estava associado ao “incitamento à prestação de falsas declarações” e foi instaurado a uma praça, que cumpriu a pena de proibição de saída durante seis dias. Por sua vez, o oficial que estava de serviço no dia do furto foi punido foi punido com uma “repreensão agravada” por não ter realizado a ronda.

O quarto processo militar foi instaurado depois de verificada a discrepância do material e aplicado ao responsável pelo controlo de entradas e saídas das cargas dos paióis, que recebe a pena de “repreensão simples” por não ter preenchido corretamente o registo do material. Nenhum dos quatro militares recorreu das penas atribuídas e, no dia 19, o General Rovisco Duarte afirma que o caso de Tancos “é um assunto encerrado”.

General Rovisco Duarte e Almirante António Silva Ribeiro. Foto: mediotejo.net

O novo Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), Almirante António Silva Ribeiro, é empossado a 1 de março. Já em julho, o General Rovisco Duarte informa o parlamento de que não irá entregar a lista de material recuperado por esta se encontrar em segredo de Justiça. Poucas horas depois, durante a audição da Comissão Parlamentar de Defesa Nacional afirma que o Exército nunca garantiu que o material encontrado era o mesmo que tinha sido furtado de Tancos.

No final de setembro, a Operação Húbris, levada a cabo pela Polícia Judiciária, revela que a recuperação do armamento militar foi uma encenação preparada pela Polícia Judiciária Militar, o autor do furto e a GNR de Loulé. No mês seguinte surge a primeira consequência política direta e o Ministro da Defesa, Azeredo Lopes, demite-se na sexta-feira, dia 12, sendo substituído por João Cravinho. A Associação de Praças afirma que a demissão do ministro não resolve o “escândalo” de Tancos e questiona se a responsabilidade das chefias militares será apurada.

A 17 de outubro, o Presidente da República recebe a carta em que o General Rovisco Duarte pede exoneração do cargo de CEME, invocando “razões pessoais” e, na rede interna do Exército, justifica que as “circunstâncias políticas assim o exigiram”. Marcelo rebelo de Sousa exonera o General Rovisco Duarte no dia seguinte e, a 19, aceita a nomeação do Tenente-General José Nunes da Fonseca, que estava colocado na GNR, como novo CEME.

A proposta para a criação de uma comissão de inquérito ao roubo nos Paióis Nacionais de Tancos é aceite no dia 26 do mesmo mês e entra em funções a 14 de novembro. No início de dezembro esta entidade apresenta uma lista de 63 personalidades e entidades a quem pretende fazer audições e é referida a visita a Tancos e ao Campo Militar de Santa Margarida.

Entre elas encontram-se os CEME desde 2014, o General Carlos Jerónimo, o General Rovisco Duarte e o Tenente-General Nunes da Fonseca. O período temporal é igual para os CEMGFA, nomeadamente o General Pina Monteiro e o Almirante Silva Ribeiro, assim para os comandantes da unidade militar onde ocorreu o roubo, das Forças Terrestres e da Logística do Exército. Todos serão ouvidos a partir de janeiro de 2019.

O CENÁRIO JUDICIAL

Justiça. Foto: DR

2017

No dia 4 de julho, o Ministério Público abre um inquérito ao roubo de armamento militar nos Paióis Nacionais de Tancos no dia 28 de junho por suspeitas da prática dos crimes de associação criminosa, tráfico de armas internacional e terrorismo. A investigação é liderada pela Polícia Judiciária com a colaboração da Polícia Judiciária Militar.

Na mesma data, o Ministério da Defesa Nacional anuncia o despacho para que a Inspeção-Geral da Defesa e Inspeção do Exército avaliem as condições de segurança. A 18 de outubro, a Polícia Judiciária Militar anuncia em comunicado que encontrou material roubado na Chamusca – armas de guerra, granadas e explosivos – durante a madrugada depois de receberem uma denúncia anónima.

No documento é referido que a operação que envolveu o núcleo de investigação criminal da GNR de Loulé e o armamento “já se encontra nos Paióis de Santa Margarida, à guarda do Exército, onde está a ser realizada a peritagem para identificação mais detalhada”. O Ministério da Defesa destaca “relevância da operação” e destaca a necessidade de se aguardar até a investigação ser concluída.

O CEME, General Rovisco Duarte, diz não existirem dúvidas sobre a existência do furto em Tancos e afirma que os responsáveis serão encontrados. Na mesma altura surgem notícias de que a lista do material recuperado referia armamento não incluído no inventário dos Paióis Nacionais de Tancos, como explosivos PE4A.

2018

O início do segundo semestre de 2018 ficou marcado pelas notícias de que algum material desaparecido ainda não tinha sido localizado. Continuava por resolver a questão da discrepância entre o roubado e o recuperado, que Azeredo Lopes afirmou desconhecer, a 17 de julho, numa audição na Comissão de Defesa Nacional, preferindo aguardar “aclaração” por parte do Ministério Público.

Na altura em que Marcelo Rebelo de Sousa nomeava Lucília Gago como nova Procuradora-Geral da República já decorria a Operação Húbris. A ação da Polícia Judiciária ligada à recuperação encenada das armas de Tancos na Chamusca levou à detenção, a 25 de setembro, do diretor-geral da Polícia Judiciária Militar, Coronel Luís Vieira, e de três militares da GNR de Loulé, incluindo o seu comandante, sargento Lima Santos.

Chamusca. Foto: DR

No total, foram emitidos oito mandados de detenção que incluíram outros militares da Polícia Judiciária Militar e um civil, João Paulino. O Ministério Público pediu a detenção do porta-voz da Polícia Judiciária Militar, Major Vasco Brazão, que se encontrava em missão na República Centro-Africana.

O Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa decreta prisão preventiva para o Coronel Luís Vieira e João Paulino. Os restantes ficam em liberdade, sujeitos a termo de identidade e residência, suspensão do exercício de funções e proibição de contacto com os outros arguidos e militares das Forças Armadas, GNR e Polícia Judiciária Militar.

O Major Vasco Brazão regressa a Portugal a 1 de outubro, sendo detido para interrogatório, e no dia 3 é-lhe aplicada prisão domiciliária como medida de coação, além de não poder contactar com os outros arguidos. Entre as duas datas, a Inspeção-Geral da Administração Interna abre processos disciplinares aos três militares da GNR. A nova Procuradora-Geral da República toma posse no dia 12, a mesma data em que o Ministro da Defesa se demite.

Surgem notícias sobre um telefonema da sua antecessora, Joana Marques Vidal, a Azeredo Lopes no dia seguinte à recuperação do material no qual discordava com a continuidade da Polícia Judiciária Militar na investigação pois o caso tinha sido entregue à Polícia Judiciária. O facto não foi confirmado, nem desmentido pela antiga Procuradora-Geral da República.

No dia 23, o Coronel Luís Vieira justifica o silêncio perante o Ministério Público, através do advogado, por não querer “perturbar e contribuir para mais intoxicação daquilo que é a informação que tem vindo a denegrir entidades e instituições”. O Tenente-General Martins Pereira é ouvido como testemunha pelo Ministério Público no dia seguinte e, a 25, Azeredo Lopes demonstra disponibilidade para ser ouvido pelo Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP).

No final do mês, a lista enviada pela Polícia Judiciária Militar para o parlamento é divulgada, confirmando que algum material roubado continua por recuperar, nomeadamente cinco granadas, mais de 30 cargas de explosivos e 1450 munições de nove milímetros. Por sua vez, o Major Vasco Brazão nega o encobrimento de suspeitos na recuperação do material roubado, promete colaborar com a Justiça e assumir responsabilidades por erros no processo.

Granada. Foto: DR

Em novembro, a Procuradoria-Geral da República confirma que os processos do roubo e recuperação do armamento militar de Tancos foram “apensados”, passando a ser um único que envolve, nomeadamente, os crimes de associação criminosa, abuso de poder, tráfico de influência e de armas. No dia 29, o ex-fuzileiro conhecido por conseguir arrombar portas de forma eficaz é constituído arguido. O “Fechaduras” admite ter sido contactado para participar no assalto a Tancos, mas diz que não participou.

O ano de 2018 entra no último mês com a nova comissão de inquérito ao roubo nos Paióis Nacionais de Tancos – que tomou posse a 14 de novembro – a pedir para ouvir 63 personalidades e entidades propostas pelos partidos políticos que a integram a partir de janeiro de 2019. Entre elas encontram-se o antigo juiz militar e ex-diretor da Judiciária Militar, Coronel Gil Prata, o Coronel Luís Vieira e o Major Vasco Brazão.

Na proposta apresentada pelo PS no dia 3 também constavam chefes das equipas de investigação da Polícia Judiciária, o anterior e atual comandantes da GNR, a secretária-geral do Sistema de Segurança Interna (SSI), Helena Fazenda, a atual responsável pelo Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP), Graça Mira Gomes, e o seu antecessor, Júlio Pereira.

No dia 17, a Unidade de Contraterrorismo da Polícia Judiciária lidera diversas buscas no centro e sul do país, no âmbito da Operação Húbris II, e detém oito suspeitos ligados ao assalto a Tancos. A operação envolve três magistrados do Ministério Público e 85 investigadores e deixa de fora a Polícia Judiciária Militar. Entre os detidos encontra-se A. Laranginha, suposto autor do roubo de pistolas Glock da PSP, em janeiro de 2017.

Um nono suspeito entrega-se no dia 19 depois de saber, em Espanha, que era procurado. O ex-sargento do Exército que terá vendido informação aos autores do roubo nos Paióis Nacionais de Tancos, tal como A. Laranginha, é um dos seis suspeitos que ficaram em prisão preventiva. Os restantes saíram em liberdade, estando um proibido de se ausentar do país e dois sujeitos a termo de identidade de residência.

* c/ LUSA

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