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Quinta-feira, Setembro 23, 2021

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VN Barquinha: Serafim Luís Homem, o poeta inspirador (C/Vídeo)

Quem nasce poeta mais cedo ou mais tarde descobre o dom de versar sobre a vida. No caso de Serafim Luís Homem, conhecido por Poeta das Limeiras, a veia poética revelou-se quando aprendeu a ler e a escrever. O facto ganha relevância se considerarmos que completará 98 anos no próximo dia 10 de janeiro (99 anos em 2017) e que terminou a quarta classe aos 42, depois de um acidente que lhe decepou os dedos da mão direita. Se pensam que é esquerdino, enganam-se, e se acham que procurou muito pela sua musa inspiradora, também. Encontrou-a antes dos dez anos de idade e estiveram casados durante sete décadas. Só a morte os separou.

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O Poeta das Limeiras tem nome próprio de anjo e apelido terreno. Nasceu numa antiga capela reconvertida em casa de habitação na freguesia da Praia do Ribatejo, concelho de Vila Nova da Barquinha, e segundo os registos oficiais terá vindo ao mundo com uma irmã gémea no dia 10 de janeiro de 1918. Decidimos reger-nos por essa data apesar da mãe, Florinda, lhe ter revelado que deu à luz “à meia noite do dia 26 de dezembro de 1917”. O registo só seria feito depois do pai, José Luís, regressar da faina da pesca em Constância e pagar “a multa” estava fora de questão. Dos sete filhos do casal restam dois, ele e o irmão mais novo, José, que vive em Tomar.

A irmã não sobreviveu ao garrotilho, uma infeção nas vias respiratórias superiores, e ele deve a vida à “açorda de alho” e à mezinha receitada por “um doutor de Constância especializado em febres” feita à base de sementes de mostarda e vinagre. Volvidos praticamente 98 anos, celebrados no próximo domingo, Serafim Luís Homem recebeu-nos em casa, a penúltima da rua que lhe dedicaram, a Rua do Poeta. As entrevistas e as homenagens não lhe são estranhas e chegou a receber a Medalha Municipal de Mérito em 2009, mas continua a recusar os convites para ir à televisão “sem saber porquê”.

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O Poeta das Limeiras recebeu a Medalha Municipal de Mérito em 2009

A lareira acesa contribui para o ambiente acolhedor de um lar recheado com memórias emolduradas e literatura arrumada na estante de onde tira um antigo livro de atas. Antes de nos sentarmos abre-o e pergunta-nos sobre o que queremos falar. O nonagenário perdeu a conta aos poemas que escreveu e diz-nos que tem “tudo guardado” naquele álbum A3 de folhas amarelecidas, “um dos muitos”.

Fala com uma energia contagiante e diz ter uma história de vida “tão grande, tão grande” que se perde. Folhear o álbum confirma que se trata “de um livro de histórias”, provavelmente a sua coletânea mais importante. Família, música, religião, escola, factos históricos, tempos da tropa, estórias da terra e a trombose aos 50 anos, tudo está lá. O amor verdadeiro também.

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Cada página tem uma história transformada em poesia

Nas primeiras folhas encontramos a autobiografia datada de 1989, em que se apresenta como “filho de humildes famílias, mergulhados no analfabetismo e nas dificuldades da vida”. No virar da página está o poema dedicado à mãe, “Retalhos da vida de uma enjeitada”, abandonada em bebé na roda dos expostos por ser fruto da relação entre “um doutor e uma criada”.

Os poemas sucedem-se sem uma ordem cronológica, decidiu reuni-los naquele álbum mais tarde. Lembra-se de cada história e vai declamando ou cantando de cor o sem fim de versos escritos na caligrafia firme “elogiada pela professora”. Maria de Lurdes ensinou-o a ler e a escrever durante o “curso de adultos em Constância” no qual que se inscreveu pouco depois dos 40 anos de idade e como forma de agradecimento recebeu um poema em que Serafim garante ter sido “um aluno excelente, que não passou por esmola”.

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Nos seus cadernos de linhas, todos os poemas estão assinados

Chegou a frequentar a escola primária quando era pequeno, mas o chumbo na terceira classe levou-o a entrar no mundo laboral aos dez anos como ajudante numa serração da Praia do Ribatejo. Manteve a função na tropa até “às dez e tal da manhã do dia 11 de agosto de 1939”. Preparava madeira “para os cartéis de arame farpado da guerra” quando ficou sem os dedos da mão direita. No hospital foi visitado pela Maria, por quem se tinha apaixonado na primária, e desde então seguiram o conselho sábio que o médico lhes deu na altura: “Nunca se deixem.”

Mais do que uma paixão de escola, Serafim encontrou a sua musa inspiradora e o amor “de uma vida inteira” que terminou com o falecimento da esposa em abril de 2013. As recordações suplantam a perda e o brilho nos olhos do poeta faz acreditar que “viveram felizes para sempre”. Os seis anos de namoro à janela na casa dos sogros, situada ao lado daquela onde nos encontramos, ficaram marcados pela privação das visitas durante um mês depois de lhe ter roubado o primeiro beijo. A curiosidade de Maria foi mais forte perante a mentira sobre um lobisomem que vinha a descer a rua “a rebolar”, espreitou fora da portada e ficou ultrajada com tamanha ousadia.

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Serafim namorou seis anos com Maria na última janela da Rua do Poeta

Uma vez feitas as pazes, começaram “70 anos de casados de amor, de carinho, de amizade. Vivíamos como Deus vive com os santos e os anjos”. Do casamento nasceu um filho, certamente habituado aos duetos regulares do casal entoados pela casa. A música era constante na vida de Serafim, sobretudo no tempo dos “Rambóias”, grupo musical de seis elementos que chegou a atuar no Teatro Maria Matos. Assume que “não sabia música”, mas isso não o impediu de ser violinista, compositor, ensaiador e vocalista.

Além de músico, considera-se “um poeta popular, mas realista” e nunca sentiu necessidade de ser o “fingidor” que Fernando Pessoa refere na “Autopsicografia” (O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente). A escrita do Poeta das Limeiras é genuína e muitas vezes era Maria que o desafiava: “Oh Serafim, vai lá fazer um poemazito.”

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Os dois violinos dos tempos de músico continuam na sala

Entre os “poemazitos” está o dedicado à sua “companheira de tudo”, intitulado “Amigos para Sempre”. Ambos combinaram que seria concluído quando um morresse, respondendo à questão colocada na última estrofe: “O que seria eu sem ti / E tu o que serás sem mim”.

Serafim concluiu-o no dia em que lhe entregaram a certidão de óbito de Maria:

“Não deixaste de ser minha / Não deixei de ser quem era / Agora és a minha santinha / Que está no céu à minha espera”.

A inspiração mantém-se viva como no dia em que escreveu o primeiro poema, numa visita com a neta Susana ao Castelo de Almourol, e o poeta assegura que “aparece de um momento para o outro”. Há cerca de dois meses escreveu “O Caminho da Verdade”, uma reflexão sobre a Vida e Deus dividida em 179 partes, para a qual tenciona fazer “um índice”. Nela, a fé católica mistura-se com as palavras de Omraam Mikhaël Aïvanhov, guia espiritual para quem o Sol está no centro de tudo, e a Lei de Lavoisier, descoberta em 1785 pelo pai da química moderna (“Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”).

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O poeta com o gato da vizinha, na rua que lhe presta homenagem

A morte é encarada com otimismo porque “não morremos, transformamo-nos em tudo” e, se hoje escrevesse sobre o mundo, “talvez fizesse um poema muito sentimental, alegre e triste”, porque “vamos para um mundo bom, embora transformados numa brasa ou noutra coisa. Vamos para uma felicidade”.

A data da partida torna-se irrelevante quando se viveu quase um século de forma plena. A poesia chegou quando tinha que chegar e apesar da reconhecida qualidade das palavras, o verdadeiro dom do Poeta das Limeiras reside na transformação de cada momento simples numa ode à vida. Tal como deveríamos fazer todos os dias, no ano que agora começa.

*Publicada originalmente a 5 de janeiro de 2016

**Republicada no âmbito de alguns trabalhos a que voltamos a dar destaque e que foram publicados no jornal mediotejo.net entre dezembro de 2015 e dezembro de 2016

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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