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VN Barquinha: Quando a água das bicas era fonte de vida no concelho (c/vídeo)

A Fonte da Moita e o Chafariz da Barquinha são marcos importantes do quotidiano rural de outrora e património com mais de século e meio de História. Os tempos mudaram desde a segunda metade do século XIX, assim como os ritmos e as rotinas, transformando-os em locais de passagem onde alguns ainda param para matar, não a sede, mas as saudades.

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Longe vão os tempos em que o concelho ribeirinho tinha como ponto de encontro as bicas da Fonte da Moita e do Chafariz da Barquinha. Ali juntavam-se homens, mulheres e crianças de todas as idades em diversas alturas do dia e a conversa fluía como a água que matava a sede, lavava as roupas, regava os campos e se tornou no ingrediente principal dos refrigerantes produzidos localmente.

A história começa com a Fonte da Moita na segunda metade do século XIX, mais precisamente em 1857, quando o espaço onde um ribeiro corria a céu aberto foi requalificado pela Câmara Municipal por cerca de 815 mil réis. Mais tarde, em 1863, as necessidades da população levaram a autarquia, sob presidência de António Gonçalves Rato, a construir o chafariz em Vila Nova da Barquinha no então Largo dos Rebelos.

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As estórias das gentes da terra e a monografia “Barquinha, Crónicas Históricas” de António Luís Roldão, publicada pela Câmara Municipal em 2014, contam como a água das novas bicas era preciosa para quem tinha sede e afazeres. No tanque coberto construído para aproveitamento do logradouro lavavam-se as roupas das famílias e das casas, tarefa intercalada com pausas de conversa e namoricos nas sombras das amoreiras plantadas pelo município.

A Fonte da Moita (postais antigos: CM VN Barquinha / fotos: mediotejo.net)
A Fonte da Moita  (postal antigo: CM VN Barquinha / foto: mediotejo.net)

A água deixava o local em cântaros, transportada à cabeça para consumo caseiro e nas carroças para a venda porta a porta, ou seguia livremente o seu caminho para a horta dos Rebelos e os quintais do Paúl, cumprindo a missão de regar as terras. Mais tarde, viria a tornar-se no principal ingrediente promovido pelas fábricas de refrigerantes locais como prova da qualidade das marcas Traguil e Capela.

Essa mesma água passou a correr seis anos depois para o chafariz, hoje localizado no largo a que dá nome. Os custos da obra projetada pelo arquiteto Joaquim Santana Haiseler foram minimizados por donativos de 65 habitantes da vila e a reutilização de alguns materiais. O pináculo era o antigo Padrão da Ponte de Tancos, demolida com a chegada do caminho-de-ferro, e do Convento do Loreto foram trazidos grades, pilares e tanques.

A inauguração realizou-se no último dia de 1863 e a vila ganhou um novo ponto de encontro que, segundo reza a lenda, chegou a ser abençoado pela aparição de um santo. Os dias pertenciam às donas de casa que juntavam o útil ao agradável e conversavam enquanto os cântaros feitos com barro da região enchiam. À noite, as conversas eram diferentes com o chafariz ocupado pelos homens depois de saírem dos cafés “Central” e “Barca”.

O Chafariz da Barquinha (postal antigo: CM VN Barquinha / foto: mediotejo.net)
O Chafariz da Barquinha (postal antigo: CM VN Barquinha / foto: mediotejo.net)

No inverno transportava-se a água saída das bicas para aquecer em casa e no verão os tanques transformavam-se nas piscinas dos mais novos. No entanto, em qualquer estação do ano era muita a gente da região que afluía a ambos os locais em busca da “finíssima água” que entretanto deu lugar à que nos chega pelas torneiras de casa, muitas vezes abertas e fechadas em silêncio.

A roupa é agora lavada pelas máquinas, os banhos de verão tomam-se noutras paragens e as conversas regulares deram lugar aos cafés adiados vezes sem conta ou são metidas em dia à distância. Século e meio depois, a água da Fonte da Moita e do chafariz de Vila Nova da Barquinha deixou de ser pretexto para partilhar vida e passou a ser memória partilhada.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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