VN Barquinha | O que está na massa do sangue de Evelina Gaspar? (entrevista)

Evelina Gaspar. Foto: mediotejo.net

O que está “na massa do sangue” de Evelina Gaspar? Livros. Os que toca durante o horário de trabalho na Biblioteca Municipal de Vila Nova da Barquinha, que transporta no tablier do carro, que lê em simultâneo (um deles obrigatoriamente antes de dormir), que faz questão que os filhos leiam, que ouve enquanto cozinha e o que é lançado este sábado, dia 26, na Feira do Livro de Lisboa. “Na Massa do Sangue” é o primeiro romance da autora a quem requisitámos histórias de vida durante uma conversa na biblioteca – e que devolvemos agora, sem pagar multa.

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Tiremos, então, esta história da estante. Apesar de procurarmos uma autora nascida muito próximo da Cidade Luz, Paris, a secção é a de literatura portuguesa, pois veio para Portugal com os pais a tempo de se inscrever na escola primária, em Tomar. Percorremos o corredor em busca da letra “G”. A… B… continuamos… G… Gaspar, Evelina Gaspar. Acompanhamos as lombadas com o dedo até encontrarmos a que diz “Na Massa do Sangue”, romance vencedor do Prémio Literário Médio Tejo Edições 2017, lançado no sábado, 26 de maio, na Feira do Livro.

Nos próximos tempos, os leitores que queiram conhecer a obra literária com que Evelina Gaspar diz ter “saído do armário” farão o mesmo raciocínio. Neste caso, o armário dá lugar às estantes das bibliotecas, como as que frequentou assiduamente ao longo da vida e onde trabalha; as das livrarias, que se preparam para receber a história de Firmina (personagem principal); ou das papelarias iguais à que a mãe teve durante anos em Tomar.

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Foto: mediotejo.net

A “Terminal”, papelaria da mãe, é a única memória literária que associa à família. O pai era empresário, o irmão seguiu gestão e ela começou por lhes acompanhar os passos até ao ensino secundário, que concluiu em gestão de empresas, pouco antes de se inscrever no curso de Relações Internacionais. A gestão ficou pelo caminho, as relações internacionais continuaram e passaram a ser estabelecidas com os motoristas e clientes da empresa ligada aos transportes onde trabalhou.

No entanto, não é qualquer uma destas áreas que lhe está “na massa do sangue”. O que corre nas veias de Evelina são os livros. Aqueles que lhe fazem companhia 24 horas por dia nas estantes da Biblioteca Municipal de Vila Nova da Barquinha, no tablier do carro ou em casa. Não sabe precisar a data do primeiro contacto, porque diz não se lembrar deles “não existirem”, mas afiança que os “devorava” nas bibliotecas públicas, sobretudo na fase adolescente, em que descobriu as palavras de Júlio Dinis, Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco.

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Depois destes escritores vieram outros sob a aura “ingénua”, diz, de levarem a vida considerada, na altura, como “a melhor coisa do mundo”. Chegou a percorrer a Mata dos Sete Montes, em Tomar, de “caderninho” rabiscado por si na mão, mas a vida de autora ainda estava longe de ser uma das opções que foi tomando ao longo da vida, quase sempre feitas de forma “intuitiva”. Uma delas foi a mudança para Vila Nova da Barquinha, durante uma passagem que se transformou em paragem.

Foto: mediotejo.net

Conheceu os vizinhos barquinhenses depois de trocar o contrato de arrendamento do apartamento de Tomar pelo de compra da nova casa de família, onde os filhos Sebastião e Rafael, hoje adolescentes, viriam a crescer. O mesmo espaço onde passou mais tempo quando se viu desempregada, até um dos aparentes desvios da existência se revelar o caminho certo, quando teve conhecimento da possibilidade de um Contrato Emprego Inserção (CEI) na biblioteca da vila.

Muitas vezes é preciso seguir o caminho mais longo para se chegar ao destino com a bagagem certa, que se vai enchendo enquanto o percorremos. Segundo Evelina, “às vezes são estes desvios e o facto de nos perdermos que também nos adensam do ponto de vista humano. Infelizmente, às vezes tem que ser através do sofrimento. Eu preferia que fosse através das alegrias, mas não é assim”.

Manteve-se no caminho da biblioteca e passou para o quadro a desempenhar a função que já pensava ser “a melhor do mundo”, quando percorria as bibliotecas enquanto leitora. Hoje repete “sou feliz”, sempre que fala do que faz todos os dias, como bibliotecária. Está entre livros. Obras escritas por outros, pequenos grandes mundos que se soltam das capas e contra-capas de cada vez que são folheados. Uma “porta aberta” para o sentir, diz.

Foto: mediotejo.net

Batemos então à porta de “Na Massa do Sangue” e ela abre-a, mas barra-nos a entrada quando pedimos para nos contar a história do livro que estava a escrever quando tomou conhecimento do Prémio Literário promovido pela editora Médio Tejo Edições, em 2017, e que viria a vencer na categoria de romance. Não se entra para “o universo do escritor”, avisa, cada livro é um ponto de partida para “percorremos os nossos próprios universos”.

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Mesmo assim, espreitamos lá para dentro e conseguimos vislumbrar Firmina, a personagem principal, preparada para nos contar a história de várias gerações da sua família num misto de candura e alegria. A mesma história que fez Evelina “rir e chorar todos os dias” em que estiveram juntas, e o livro ia materializando a veia de escritora que começou a dar sinal na sala de espera para uma consulta médica. Não estava sozinha, tinha o Sebastião na barriga, e os textos foram crescendo com ele.

Primeiro pequeninos, publicados em blogs com pseudónimos, que acabariam por dar lugar ao nome verdadeiro e sempre na expectativa: “talvez isto continue, talvez isto continue”. Não continuava até ao dia em que as habituais uma ou duas folhas deram lugar a três, a quatro, a cinco… “Pronto, isto vai ser um romance”, pensou, e surgiram as mais de duzentas que dão corpo a “Na Massa do Sangue”, sobre o qual voltamos a fazer perguntas. A reação confirma o que Evelina foi repetindo durante a conversa.

Foto: mediotejo.net

Dá poucas respostas porque é uma pessoa de perguntas. Alguém que percorre o caminho para se ir “aproximando cada vez mais” da pessoa que é. “Quando for uma pessoa mais madura, com outra idade, espero já ter mais certezas e saber… estar mais perto de mim”. Defende que “caminhamos todos em direção a quem nós somos, a quem lá está à frente”. E ri-se quando diz: “O facto de saber que sou uma pessoa com muitas perguntas já é saber alguma coisa a meu respeito.”

Evelina Gaspar percorre o seu caminho de perguntas e respostas. Aos textos que lê e ouve acrescentou os que escreve, e uma das poucas certezas que nos dá entre as estantes da Biblioteca Municipal da Barquinha é a de que vai continuar a escrever. Porquê? Escrever é para ela “como se estivesse à procura de uma coisa menos densa, menos óbvia, mas que faz tão parte da nossa natureza como fazem a pele e os ossos, ainda que não seja visível”. Está-lhe na massa do sangue.

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