VN Barquinha | O município onde se cultiva a arte (c/ vídeo)

O rio Tejo tem inspirado visionários desde tempos imemoriais e Vila Nova da Barquinha não foi exceção. Por aqui construíram-se castelos e impulsionou-se o comércio através da navegação fluvial. A História encerrou os dois capítulos e o concelho podia ter-se agarrado a ela como fonte de promoção turística, mas decidiu aliar-lhe as terras da margem ribeirinha e lançar sementes nestes campos com a diferença de aqui não se chegar a casa com as mãos enegrecidas pela terra, mas sim pelas cores das tintas. Aqui cultiva-se arte.

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O território onde hoje se localiza o concelho de Vila Nova da Barquinha tem-se afirmado ao longo dos tempos de maneiras muito diferentes. Começou pela localização estratégica pelos romanos, árabes e a Ordem do Templo, que recebeu os castelos de Almourol, Cardiga e Ozêzere depois da reconquista cristã, no século XII. Três séculos depois, o rio Tejo voltava a motivar o reconhecimento destas terras com a construção do porto fluvial de Tancos por D. Manuel I, cujo declínio deu lugar ao desenvolvimento de um ponto de passagem ali perto chamado “Barca”, no século XVIII.

Nessa época muitos diriam o mesmo que Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa, reafirmou no início do século XX “pelo Tejo vai-se para o mundo” e do mundo chegava a arte que hoje ainda é possível apreciar, nomeadamente nas pinturas seiscentistas da Capela de Nossa Senhora dos Remédios, em Moita do Norte, ou no pórtico renascentista do escultor e arquiteto francês João de Ruão (Jean de Rouen) da igreja matriz de Atalaia, dedicada a Nossa Senhora da Assunção. Outras terão dado cor ao antigo convento de Nossa Senhora do Loreto, fundado por D. Álvaro Coutinho, Senhor de Almourol, no reinado de D. Sebastião I, hoje em ruínas.

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O parque ribeirinho transformou-se num museu de escultura ao ar livre. Fotos: CM Vila Nova da Barquinha

A ferrovia afirmou-se em meados do século XIX e a população da zona da “Barca”, denominada “Barquinha” desde 1771, voltou-se para as margens do Tejo, conciliando as artes piscatórias e o comércio com a agricultura. O rio foi banhando os campos que a partir do início do século XXI passaram a alimentar o corpo e a mente com a inauguração do Parque de Escultura Contemporânea Almourol (PECA), a 6 de julho de 2012, pelo então presidente da República Aníbal Cavaco Silva.

Ali, no Barquinha Parque, tinham-se plantado as sementes do Mercado das Artes, com a assinatura do protocolo de parceria entre a Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, presidida por Miguel Pombeiro, a Fundação EDP e o Instituto Politécnico de Tomar (IPT). O investimento superior a dois milhões de euros incluía uma galeria de arte nos Paços do Concelho, a reabilitação do centro cultural e a conversão da Casa da Hidráulica num espaço para ateliers e residências artísticas, o Centro de Estudos de Arte Contemporânea (CEAC).

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O CEAC promove atividades regulares ao longo do ano. Fotos: CEAC

O projeto dos arquitetos paisagistas Hipólito Bettencourt e Joana Sena Rego – que conquistou o Prémio Nacional de Arquitectura Paisagista 2007 na categoria “Espaços Exteriores de Uso Público” – revelou-se campo fértil para a arte contemporânea (desde a década de 60 do século passado) e o parque de escultura comissariado por João Pinharanda viu brotar as esculturas de Alberto Carneiro, Ângela Ferreira, Carlos Nogueira, Cristina Ataíde, Fernanda Fragateiro, Joana Vasconcelos, José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis, Rui Chafes, Xana e Zulmiro de Carvalho.

O Mercado das Artes deu frutos e entre os milhares de pessoas que por ali passam anualmente para os apanhar encontram-se artistas, apreciadores de arte, alunos, turistas e visitantes. O rio Tejo é agora paisagem, não só de passeios na margem, mas de visitas de escolas de arte e das iniciativas desenvolvidas regularmente pelo CEAC em colaboração com o IPT, como tertúlias, palestras, exposições e ateliers para crianças e adultos nas áreas da pintura, desenho, fotografia, vídeo e teatro.

As residências de artistas já trouxeram ao concelho 11 criativos. Fotos: Alexandra Baudouin, Augusto Brázio e mediotejo.net

A vista também inspira os criativos das Residências Artísticas, que em duas edições trouxeram ao concelho Valter Vinagre, Augusto Brázio, Nelson D’Aires, Alexandra Baudouin, Tito Mouraz, Andreia Santana, Hermano de Noronha, Henrique Loja, Sílvia Rodrigues, Sofia Mascate e Nuno Silas. No primeiro ano em que os primeiros artistas se candidataram, 2015, as raízes da arte começaram a afastar-se da margem e a querer percorrer a vila com a regeneração da antiga escola EB1 de Vila Nova da Barquinha, num projeto orçamentado em cerca de 70 mil euros, transformando-a na nova galeria de Santo António.

Raízes que se fortaleceram e em 2017 vão chegar ao resto do concelho com o novo projeto de arte pública ARTEJO, no âmbito do programa nacional “Arte Pública Fundação EDP”, que leva a arte à população. Alexandre Farto (Vilhs) e Manuel João Vieira, que dirige os artistas, são nomes confirmados e, brevemente, serão revelados os restantes responsáveis pelas 10 intervenções artísticas que todas as freguesias do concelho vão receber.

A arte presente na vila vai expandir-se para o resto do concelho. Fotos: mediotejo.net

No entanto, não o farão de forma passiva uma vez que o processo engloba assembleias de apresentação do projeto à população, apresentação das propostas dos artistas, realização das intervenções em espaço público e visitas guiadas às obras. O envolvimento com a comunidade barquinhense também irá incluir a criatividade de alunos das escolas e do CEAC e está levantada a hipótese de envolver artistas da região, como o torrejano Violante.

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Fernando Freire, vereador da Cultura na altura do lançamento do Mercado das Artes e atual presidente da autarquia, e Carlos Vicente, coordenador do CEAC, confirmam que a arte se cultiva em Vila Nova da Barquinha. Conversámos com ambos sobre os primórdios do Mercado das Artes e a fecundidade do concelho onde a cultura com a marca “Barquinha é Arte” não precisa de estufa para crescer porque alia a busca pela estética à identidade do território.

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