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Terça-feira, Novembro 30, 2021

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VN Barquinha | Mona Martins e o mundo colorido do impossível

Simone Martins conhece-se por Mona desde que ouviu a avó tratá-la assim ainda dentro da barriga da mãe. Quase 50 aniversários depois, que completa a 16 de dezembro e assume com gosto por representarem uma conquista ao tempo, o diminutivo carinhoso dá nome ao atelier que tem em Vila Nova da Barquinha há meia dúzia de anos e ao novo que é inaugurado este domingo, dia 26, com o Espaço das Indústrias Criativas. No entanto, não nos chocava se tivesse optado pelo nome de “Alice” porque Mona Martins faz-nos lembrar a personagem curiosa de Lewis Carroll que segue o coelho até ao País da Maravilhas.

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Nós decidimos segui-la até ao 6A da “Travessa Estreitinha” e encontrámos o mundo colorido do impossível. Um universo que começou a ser alinhavado com os fios coloridos levados para a casa na cidade de São Paulo pelo pai eletricista e a criançada separava como diversão de fim-de-semana. O anúncio era feito com pompa e circunstância e se as irmãs, uma mais nova e outra mais velha, preferiam o programa de ir comer pizza, Mona gostava de mexer nos “sacos e sacos” de cores.

A estrutura do mundo da mana do meio, aquela “que se bate na mais velha, leva da mais velha e se bate na mais nova, leva do pai e da mãe”, lembra rindo, também começou a ganhar forma com as espátulas que a mãe enfermeira trazia do Hospital Universitário (HU) da Universidade de São Paulo (USP). Nas pausas dos empregos dos pais e da escola das filhas, ao domingo, era a imaginação que trabalhava enquanto assistia aos desenhos animados com o pai, cujas risadas não chegavam ao ambiente silencioso da biblioteca onde devorava as bandas desenhadas do “Charlie Brown” e do “Mortandelo & Salaminho”.

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Mona Martins no primeiro atelier. Fotos: mediotejo.net

Memórias de uma época em que se brincava na rua com os amigos, mas que não considera serem melhores do que as gerações atuais vão ter. Para Mona “não é melhor, nem pior. É diferente” e assume que chega a sentir inveja dos mais novos. Concordamos. Todos já passámos por isso e nos perguntámos qual a razão de não existir um insuflável para adultos ao lado dos infantis ou, melhor ainda, um para pularmos juntos. A criança que dizem existir dentro de nós é impedida de sair pelas idades (e pesos) anunciados nas placas… não é justo!

Mais, as gerações mais velhas não tinham o mundo colorido do impossível criado pelo atelier Mona Martins porque a “Alice” de São Paulo ainda não tinha conhecido a professora de artes, a dona Valentina, e percebido que não era preciso levar uma “vacina” dolorosa para fazer algo tão bom na vida. Foi no liceu que se deu o momento de descoberta e os fios coloridos, os desenhos animados, as espátulas e as bandas desenhadas passaram a estar ligados pela vontade de criar.

De repente, passou a fazer sentido a busca por coisas para dar volume às pétalas quando pediam na sala de aula para desenharem uma flor ou a vontade de enquadrar o guarda-vestidos do quarto que partilhava com as irmãs com a entrada da luz. Os brinquedos eram outro desafio e, se na primeira vez o fabricante levou com as culpas pelo boneco aparecer desmontados poucos segundos depois de chegar às mãos de Mona, a mãe depressa percebeu que não era possível existirem tantos erros de fabrico.

Mascote da ANA Aeroportos e figurinos de um projeto alemão. Fotos: Mona Martins

Mas que mundo colorido do impossível é este? E como cabe numa “Travessa Estreitinha” de Vila Nova da Barquinha? Descobrimos a resposta numa entrevista feita em português com dose dupla. Do lado das perguntas o de Portugal e do lado das respostas o do Brasil. Entre entrevistadora e entrevistada não esteve um oceano, mas a secretária do escritório da qual o Atelier Mona Martins parte para o mundo com projetos de figurinos, mascotes, esculturas e cenografia.

Um local onde Mona se assume como “parteira” e trata cada criação como “filho”. Não seu, mas dos clientes de países como Portugal, Alemanha, Angola, Grécia ou Cabo-Verde. Foi ali, pelas mãos da criativa paulista e de Cátia, Sílvia e Luísa, as três colaboradoras, que nasceram ou renasceram algumas das mascotes que atualmente alimentam o imaginário de diversas gerações. As mesmas mãos que desafiam o possível sempre que chega um novo pedido e, segundo Mona, transformam o seu atelier num “desfile de mundos”.

Neste mundo colorido do impossível, que Mona descreve a certa altura como “o universo do não possível”, Vasco da Gama cruza-se com o Panda mais conhecido das crianças, o Falco da PSP cumprimenta a Vita e o Bache da Kidzania, as mascotes dos aeroportos de Angola e Lisboa tentam aprender a música que os animais do sumo “Um Bongo” cantam há anos (toda a gente se engasga algures na lenga-lenga dos oito frutos…) e o cão Pico do Chocapic ladra quando passa uma “francesinha” do Porto.

O atelier onde trabalha com as três colaboradoras. Fotos: mediotejo.net

A destreza do Gorila da famosa pastilha elástica até podia ter dado uma ajuda quando Mona vestiu a estátua do Marquês de Pombal, em Lisboa, com a camisola do Benfica (a águia Vitória também lhe passou pelas mãos), mas ela acabou por estar sozinha na grua a preparar o estadista para as comemorações dos adeptos encarnados.

Neste mundo de mundos ainda esvoaçam os tecidos e os acessórios dos figurinos que vai fazendo para eventos, cenários de teatro e televisão e trabalhos pro-bono, como as mascotes criadas para a Terra dos Sonhos, organização sem fins lucrativos que tem como missão de realizar os sonhos de crianças, jovens e idosos.

Com tudo isto, no 6A da “Travessa Estreitinha” também se encontra “uma pessoa que acredita muito”, incluindo que se pode “ver” com os dedos. O toque é fundamental para quem constrói os sonhos e as ideias que surgem nas memórias descritivas apresentadas pelos clientes ou as soluções sugeridas a partir do zero. Bem, do zero não porque cada criação implica pesquisa e técnica específicas.

Estátua do Marquês de Pombal com a camisola do Benfica e mascote do Zig Zag. Fotos: Mona Martins e mediotejo.net

Por exemplo, as mascotes, “figurinos com volume”, ganham forma com a máxima de que importa construir mantendo a beleza, a funcionalidade e o respeito pelo conforto do “humano que está ali dentro”. Da junção dos materiais que formam a estrutura e o revestimento surge o trabalho que Mona diz “estar no limite do impossível”. Um mundo do sonho que lhe dá “vida” e sobre o qual fala com a serenidade típica de quem sabe o que faz, de quem enfrenta o erro com segurança.

Sim, porque o mundo colorido do impossível não surgiu em Vila Nova da Barquinha. Já veio consistente para este lado do Atlântico quando Mona chegou a Lisboa para fazer o mestrado no IADE – Instituto de Artes Visuais e Design. Das casas de Cascais (Alcabideche e Carcavelos) mudou-se para o centro de Lisboa, onde viveu quatro anos e decidiu que estava na altura de dar a notícia aos sócios do atelier inaugurado em São Paulo pouco depois do liceu que ia ficar por terras lusas a tempo inteiro.

Nas malas de viagem colocou a formação académica com duas pós-graduações – uma em Arte, Comunicação e Sociedade e outra em Arte e Educação – e despediu-se do Instituto de Artes (IA) da UNESP – Universidade Estadual Paulista, onde deu aulas como professora de figurinos para o curso de dança e cenotecnia na área do teatro. Com ela veio também o filho João, hoje com 21 anos e que nasceu “basicamente dentro de uma produção”, relembra com o sorriso aberto que marca toda a entrevista.

O mundo colorido do impossível “cabe” na Travessa Estreitinha. Fotos: mediotejo.net

As produções de teatro sempre a fascinaram, mas não vistas da plateia e cedo percebeu que o seu sonho “era ficar atrás do palco, a construir coisas”. A curiosidade pela parte técnica suplantava as histórias nos tempos de criança em que assistia ao “Clube do Mickey” e, em vez de acompanhar os movimentos do rato mais famoso do mundo, se punha a pensar “como se construía aquele castelo”. O mesmo acontecia no Carnaval que lhe desafiava o interesse de “como ela tem uma asa? Como ela subiu aí? De onde sai fumo da asa?”.

Algumas questões acabaram por ter resposta quando começou a trabalhar nesse que é um dos eventos festivos mais emblemáticos do mundo e o aforismo popular português “a vida são dois dias e o Carnaval são três” perde significado quando é dito com sotaque brasileiro. Não são três dias, são mais de trezentos por ano quando se está envolvido na montagem do desfile. Mona começou em 1995 como escultora, em 1996 juntou-lhe a parte da decoração e em 1997 assinou o Carnaval do grupo especial “Carnaval Rosa de Ouro”.

São Paulo foi então apresentada como a capital mundial da gastronomia e teve a oportunidade de “perceber como funciona uma escola de samba”, constituída por “4.200 componentes, 11 alas, sete carros alegóricos, uma bateria, sete passistas por intervalos”. Muitos elementos para “harmonizar” de forma a contar um “enredo” em pouco mais de uma hora e 150 metros. Continuou em 1998, na edição em que o grupo musical brasileiro “Os Demónios da Garoa”, considerado o “mais antigo do mundo” e famoso por interpretar o poeta paulista Adoniran Barbosa, era o tema.

O Espaço das Indústrias Criativas é inaugurado este domingo e vai ser partilhado com a luthier alemã Judith Bauer. Fotos: mediotejo.net

Acabaria, de facto, por ser a poesia que motivou a vinda definitiva de Mona para Portugal. Não a de Adoniran Barbosa, nem a dos poetas do “jardim à beira-mar plantado”. A cidade brasileira onde “não existe comida no planeta que você não encontre a qualquer hora” foi trocada pelo país em que “a qualquer hora” temos sandes em máquinas e o ingrediente mais exótico deve ser o coco dos néctares porque Portugal é, segundo a artista, uma “poesia concreta” na qual se pode “caminhar” e “tocar”.

Uma poesia única que não é feita de palavras, mas de essência inspirada pela sensação de segurança, beleza e tranquilidade. Uma qualidade de vida feita de coisas pequenas, tal como cada linha com que se cose um figurino, e cujo resultado final é grandioso. A simplicidade que diz encontrar em Vila Nova da Barquinha quando vira uma esquina, toma um café, janta fora com os amigos ou mesmo numa ida aos correios.

Em Lisboa tinha tudo isto numa escala maior, assim como os encargos financeiros que decidiu diminuir quando no seu sexto ano em Portugal foi votar e percebeu as mudanças “bruscas” que se avizinhavam. Se no Brasil “não tinha funcionado”, aqui iria passar-se a mesma coisa. O cenário político mudou de rosa para laranja e o cenário pessoal mudou das cores urbanas para as da pequena localidade do interior que tinha conhecido anos antes quando parou no antigo restaurante “A Palmeira” durante uma viagem.

Já se trabalha no novo Centro de Artes Mona Martins. Fotos: mediotejo.net

A “sobremesa”, um passeio pelo Parque de Escultura Contemporânea Almourol, surpreendeu-a e na altura pensou comprar uma das casas em frente ao parque ribeirinho para criar uma comunidade artística. Foi dissuadida pelos amigos, mas recordou-se desse dia quando fazia uma busca na internet sobre alternativas à capital e encontrou uma casa à venda. Ligou para a proprietária naquela noite e na manhã seguinte estava na vila a fechar o negócio sobre o qual refletiu durante o tempo em que bebeu um café. Duas semanas depois tornava-se na mais recente munícipe barquinhense.

Apresentar um cartão de visita com a morada de Vila Nova da Barquinha não foi motivo para as dificuldades que sentiu nos primeiros tempos. A necessidade de viajar pelo país também não se impôs como dificuldade para alguém que cresceu na capital do estado de São Paulo, município que de acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) tinha uma população de 11.253.503 habitantes em 2010. Se considerarmos os resultados dos Censos de 2011, do INE, que apontam para cerca de 10,5 milhões de portugueses fica-se com uma boa noção de proporção…

Mona depressa percebeu que muita gente sabe onde fica o concelho do “castelinho” que depressa corrige “não, é um castelão”. Outros associam-no à proximidade da estação ferroviária do Entroncamento, à Feira do Cavalo na Golegã e às paisagens de Constância. Além disso, acredita que um cliente satisfeito é o melhor meio de divulgação de uma empresa e quem a procura o faz com conhecimento do trabalho realizado até à data.

O novo espaço está vocacionado para a pesquisa e formação. Fotos: mediotejo.net

As criações do Atelier Mona Martins falam por si, marcadas pelo “gestual artístico pesado” de alguém que se considera sobretudo uma escultora pois “um figurino também é uma escultura” que assenta no suporte, o corpo. Uma criativa que prefere comprar uma máquina em vez de ter um carro novo e revela a preferência pela secção das ferramentas nos folhetos publicitários.

O trabalho também é alimentado pela pergunta constante “como faço isso?”, a mesma curiosidade que levou a pequena Alice ao País das Maravilhas e trouxe o mundo colorido do impossível a Vila Nova da Barquinha. Tal como Alice, Mona explorou o novo mundo e deslumbrou-se. Ao contrário da personagem criada por Lewis Carroll na segunda metade do século XIX decidiu não regressar do sonho e prolongá-lo concorrendo ao concurso público lançado pela autarquia para a exploração de duas salas de exposição na Galeria de Santo António.

A sua proposta foi uma das duas vencedoras e este domingo, dia 26, é oficialmente inaugurado o Espaço das Indústrias Criativas. O edifício da Rua Marechal Carmona, junto da Igreja Matriz de Vila Nova da Barquinha, passa a integrar o Centro de Artes Mona Martins e é partilhado com o atelier de Judith Bauer, a luthier alemã residente na freguesia de Atalaia cuja história contámos em janeiro deste ano. Num lado constroem-se almas de violinos, do outro passa-se de “fazedor” a “criador”.

Mona Martins e a oficina numa das salas da antiga Galeria de Santo António. Fotos: mediotejo.net

Na “Travessa Estreitinha” fica a vertente comercial do mundo colorido do impossível e o novo espaço recebe a “linha artística”, diz Mona, direcionada para a pesquisa e formação, que dará às pessoas “esse contacto do cortar, do costurar, do modelar, do criar soluções”. Para 2018 está projetada uma programação centrada na escultura, traje e adereços e o traje vai ser estudado ali “nessa perspetiva escultórica, de uma história, de um momento”, construindo-se uma narrativa por peça.

A artista considera que “muita coisa boa vai acontecer” depois da inauguração, marcada para as 15h00, incluindo para a população que pode voltar a frequentar aquele edifício. Cada espaço, acrescenta, apenas se assume como tal quando lá se entra e as portas vão estar abertas para quem tiver a curiosidade da Alice. O mais certo é não se encontrar o coelho do relógio, mas nunca se sabe. Pode chegar o dia em que também ele se torna um dos “filhos” do mundo colorido do impossível criado por Mona Martins.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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