- Publicidade -

VN Barquinha: Milhares de militares invadem Regimento de Paraquedistas no 60º aniversário

O Regimento de Paraquedistas assinalou esta segunda-feira, dia 23, o seu 60º aniversário com uma cerimónia oficial em que recebeu a Medalha de Honra Municipal e a habitual reunião de antigos militares na zona adjacente ao quartel, em Tancos. Os ambientes vividos dos dois lados da vedação foram muito diferentes, mas unidos pelas boinas verdes e o lema “que nunca por vencidos se conheçam”.

- Publicidade -

- Publicidade -

Milhares de “boinas verdes” regressaram ao quartel do Regimento de Paraquedistas esta terça-feira para comemorar o 60º aniversário daquela tropa militar que se assinala anualmente a 23 de maio. A zona adjacente começou a receber antigos militares no dia anterior vindos de todo o país para assistir às comemorações protocolares e recordar os tempos que ali passaram juntos num convívio marcado pela descontração e o petisco.

As atividades oficiais começaram no quartel com o içar da bandeira nacional, seguido pela homenagem aos mortos em combate e a missa realizada na capela. Uma multidão composta por antigos militares e familiares de paraquedistas no ativo começava a juntar-se junto ao portão que dá acesso à parada Alferes Paraquedista Mota da Costa, aguardando a sua abertura.

- Publicidade -

42_1
Filipe Constantino (ao centro) considera o Regimento de Paraquedistas como “uma mãe”

Junto da parada encontrámos um grupo de antigos militares, entre eles Filipe Constantino, de 63 anos, que entrou para o Regimento de Paraquedistas em 1974 e se refere a esta força militar como “uma irmandade, cuja mãe é esta casa”. Os filhos mais novos estão sob a responsabilidade do Tenente-Coronel Gonçalves, comandante do Batalhão de Formação há cerca de um ano, e segundo este o batalhão é composto atualmente por duas companhias, a de Formação Terrestre e a de Formação Aeroterrestre. Os formandos recebem a instrução básica na primeira e transitam para a segunda depois de um “curso de combate”.

A seu cargo tem cerca de 150 militares nos dois turnos da Companhia de Formação Terrestre e o número ronda os 60 militares na etapa posterior. Segundo este formador “a origem dos paraquedistas começa neste batalhão” e as cerimónias em que o passado, o presente e o futuro das Tropas Paraquedistas se encontra são encaradas pelos mais novos com muita ansiedade, sobretudo pelos que “vão começar a saltar para a semana”.

27_01
A cerimónia oficial incluiu a atribuição de medalhas

A ansiedade também se sentia naqueles que aguardavam a abertura do portão e uma vez autorizados a entrar, o quartel foi “invadido” por milhares de pessoas que se juntaram ao Chefe do Estado-Maior do Exército, General Frederico Rovisco Duarte e à sua comitiva para assistir à cerimónia militar. O Estandarte Nacional contou na sua escolta com uma fanfarra composta por 50 militares paraquedistas na situação de reforma e disponibilidade e o Hino Nacional foi entoado nas bancadas e na tribuna.

Dali todos os presentes assistiram a um vídeo com uma restrospetiva histórica dos últimos 60 anos, à atribuição de medalhas e imposição de grifos, demonstrações de formação militar e saltos em paraquedas, entre outros. O ponto alto da cerimónia foi a entrega da Medalha de Honra Municipal às Tropas Paraquedistas, recebida pelo Coronel Vasco Pereira, Comandante daquele Regimento, das mãos dos presidentes da Câmara Municipal e da Assembleia Municipal de Vila Nova da Barquinha, Fernando Freire e Rui Picciochi, respetivamente.

As Tropas Paraquedistas receberam a Medalha de Honra Municipal com a presença do Chefe do Estado-Maior do Exército
As Tropas Paraquedistas receberam a Medalha de Honra Municipal com a presença do Chefe do Estado-Maior do Exército

O protocolo deu então lugar à descontração nos almoços convívio que decorreram dentro e fora do quartel. Passámos a vedação e encontrámos muitos grupos de antigos paraquedistas e familiares reunidos em ambiente de piquenique no qual predominava o cheiro de churrasco. Foi entre eles que encontrámos Amadeu Palma, chegado do concelho de Aljustrel, distrito de Beja. Começou a carreira militar em Tancos na década de 70 antes de seguir para Sintra e Monsanto e a sua presença regular neste dia é justificada por “eu gosto disto, vivo isto, vivo o paraquedismo. Ainda há pouco encontrei moços do Minho que não via há quarenta anos”.

Na mesa de Amadeu Palma havia leitão assado, na de Marciano Albuquerque partilha-se picanha. A viagem do presidente da Associação de Paraquedistas do Alto Alentejo começou cedo neste dia e o ponto de partida mais provável terá sido a sede da associação em Elvas, distrito de Portalegre. A data é tida como “especial” por permitir “viver recordações com muita nostalgia” dos tempos em que se tornou paraquedista, em 1971, antes de seguir para Moçambique, onde este entre 1972 e 1974.

Os saltos de paraquedismo foram muito aplaudidos pelo público
Os saltos em paraquedas foram muito aplaudidos pelo público

Na sua opinião, o “espírito de paraquedismo” é igual em todas as gerações que se encontram neste convívio, mas salienta “isto mudou radicalmente, mesmo na maneira de conviver, de nos darmos uns com os outros”. Uma vez que se fala de gerações questionamos sobre a diminuição do número de militares no ativo, que Marciano Albuquerque atribui ao facto das “necessidades dos paraquedistas serem totalmente diferentes pois o contexto mudou e muitos não querem ficar”.

Pedro Matos, de 34 anos, é um desses casos. A formação foi concluída em 2000 e decidiu voltar a viver o ambiente que o dia 23 proporciona alguns anos depois da sua rescisão com os paraquedistas. O grupo tem vindo a crescer ano após ano e este reúne-se agora em volta do grelhador para recordar o convívio que diz ter tido “mais com mais rapazes daqui do que com muitos familiares meus”. A sua experiência é caraterizada como “um sonho que depois passou a realidade, mas não nos deu aquilo que nós esperávamos. Estávamos estagnados, muitos dos meus amigos saíram e foram para a GNR”.

Os atos protocolares no interior do quartel deram lugar ao churrasco do lado de fora da vedação
Os atos protocolares no interior do quartel deram lugar ao churrasco do lado de fora da vedação

O percurso de António Fernandes, de Guimarães, foi muito diferente. Entrou para o quartel em 1995 e frequentou a primeira missão na Bósnia no ano seguinte. O reencontro é vivido todos os anos “muito intensamente” devido a uma união que diz ser “melhor do que a de irmãos”. A essência paraquedista é “diferente de qualquer tropa, é uma tropa de elite, é uma tropa especial. Tenho agora 41 anos de idade e se me deixassem voltar para a tropa eu voltaria”.

Um ano mais velha é Sandra Moreira, que saiu de Gaia em 1997 para iniciar a formação em Tancos e acabou por ficar a morar em Tomar. O ambiente marcadamente masculino nunca foi para si um cenário de discriminação e sente que o maior respeito vem “dos camaradas mais antigos, sobretudo dos que estiveram na Guerra do Ultramar, devido à história das enfermeiras paraquedistas”, cujo primeiro curso foi realizado no Aeródromo Militar de Tancos em 1961.

Pinto, António Bernardino, outro militar e Sandra Moreira
Pinto, “Culatra”, outro militar e Sandra Moreira

Pinto e António Bernardino, mais conhecido por “Culatra”, acenam em jeito de concordância quando Sandra diz que o Dia das Tropas Paraquedistas é “o melhor dia do ano” e afiança que “a tropa ensina muito, aprende-se a dar valor ao pouco que se tem e ensina-nos a ser homens e mulheres com H e M grandes”. Ambos chegaram a Tancos no dia 22 de abril de 1974, um deles a bordo de uma Berliet Tramagal, e ficaram de guarda ao quartel durante a Revolução dos Cravos, que acabou por atrasar o início da sua formação.

Alguns dos muitos testemunhos que fomos encontrando na data em que se celebraram os 60 anos de existência das Tropas Paraquedistas em Portugal. Cada ano representa milhares de vivências que neste dia são relembradas num espírito de camaradagem que apenas é compreendido por quem partilhou as boinas verdes e o lema “que nunca por vencidos se conheçam”.

O programa das comemorações que teve início esta segunda-feira continua na primeira quinzena de julho com o Challenge Inter-Écoles de Parachutisme (CIEP) e os Torneios da Comissão Portuguesa de Paraquedistas e da União Europeia de Paraquedistas. No mês de outubro realiza-se o XXVI Congresso da União Europeia de Paraquedistas e para dezembro está prevista a apresentação da versão preliminar de nove estudos sobre a História das Forças Paraquedistas desde 1961.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
O seu nome

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).