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Sexta-feira, Janeiro 21, 2022
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VN Barquinha | Judith Bauer, a construtora de almas… dos violinos

Judith Bauer sabe de cor o número de peças que constituem um violino e um violoncelo, 64. Não sabe apenas, conhece-as. Aliás, não conhece apenas, cria a maioria. Entre elas encontra-se a que dá por nome de “alma” e, essa, nasce ou é reparada na pequena oficina na Atalaia, em Vila Nova da Barquinha, que a luthier alemã (nome dado a estes profissionais) abriu em 2015 depois de passar por Itália, França e Lisboa. Uma viagem que começou no dia em que a alma do seu violoncelo lhe revelou o que ia na sua. Este domingo instala o seu atelier na Galeria de Santo António, no novo Espaço das Indústrias Criativas que é inaugurado às 15:00, local que acolherá também o Centro de Artes Mona Martins, ligado à criação de figurinos e mascotes, cenografia e escultura.

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Uma das ruas mais conhecidas de qualquer localidade é a da farmácia. Ali se acorre sempre que as maleitas do corpo assim o exigem. A Atalaia, em Vila Nova da Barquinha, não é exceção e todos sabem onde fica o local assinalado pela cruz verde. Menos saberão que a poucos metros de distância, no prédio branco de primeiro andar, se tratam as enfermidades das almas. Não, não falamos da igreja, falamos da oficina de Judith Bauer.

Quando pensamos em música, o pensamento tem tendência a ligar-se às memórias auditivas. Recordamos o que ouvimos e esquecemos que, antes das mãos que fazem a música ecoar, existiram outras com uma arte diferente que lhe deram corpo através da construção dos instrumentos ou lhes trataram as “feridas”. Este é o trabalho da alemã nascida em Munique (Baviera), que se mudou para o Médio Tejo há pouco mais de um ano e onde celebrou o 40º aniversário em fevereiro.

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Entramos na pequena oficina, com mais violinos e violoncelos do que qualquer palco onde tenhamos assistido a um concerto, e encontramos Judith com o seu avental numa das mesas de trabalho que partilham o espaço com equipamentos e uma banca de carpinteiro. Banca semelhante à utilizada pelo bisavô materno da luthier no seu ofício das madeiras e que, apesar de nunca se terem conhecido, lhe assegurou os genes de quem gosta de “fabricar algo” a partir deste material.

Fotos: mediotejo.net

Os pais, ambos professores, eram apreciadores de música e estimularam o gosto de Judith e da irmã pela música. Começou a tocar piano aos sete anos e chegou a ponderar seguir uma carreira, mas depressa teve consciência de que não “basta ser bom, é preciso ser “mesmo bom, fora do normal” senão teria à sua espera uma “vida difícil”. Ser professora, seguindo as pisados dos pais, nunca esteve nos planos e ri-se quando diz que “não tinha muito jeito”.

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Das teclas passou para as cordas. O violino e o violoncelo entraram na sua vida e descobriu a vocação no dia em que entrou numa oficina em Nuremberga em busca da cura para a alma do seu violoncelo, que tinha “caído”. Judith esboça um sorriso de jovem adolescente, como se falasse de um artista pop em dia de concerto, e admite que se apaixonou no momento em que foi recebida pelo senhor “simpático” que a esperava fora de horas: “cheguei naquele sítio e adorei. Entrei lá e fiquei… ai eu quero isto”. A decisão estava tomada.

Judith cedeu à insistência da mãe, terminou o liceu e estava pronta para partir. A escola “pequenina” nas montanhas alemãs onde poderia ter iniciado a formação de luthier não a persuadiu. A beleza da aldeia foi relegada para segundo plano pela vontade de uma jovem de 19 anos com vontade de conhecer o mundo e o primeiro destino para onde pensou fazer as malas foi Milão, mas Cremona conquistou-a. Foi naquela província da região de Lombardia, em Itália, que aprendeu a dar corpo à música, entre 1996 e 2000, guiada pela mestria que por ali paira no ar desde os tempos de Andrea Amati (1505-1577), considerado o pai da família dos violinos.

Fotos: mediotejo.net

Chegou a ponderar sair da escola devido à dificuldade em construir os instrumentos e revela com um sorriso “resisti”. No último ano do curso ainda passou por França até se estabelecer em Lisboa, onde trabalhou dois anos num atelier. O som dos violinos e dos violoncelos foi ecoando nos diversos apartamentos que habitou na capital portuguesa e a viagem até ao Médio Tejo surgiu-lhe no destino, então desconhecido, quando o amor passou a estar, literalmente, “no ar”. Descobriu-o no curso de paraquedismo em Évora em que conheceu o marido, paraquedista, que pouco tempo depois viria para o Polígono Militar de Tancos.

Aliou a mudança à vontade de sair da confusão “de uma cidade grande”, onde “não há espaço” e as pessoas “passam o tempo a correr” e chegou à Atalaia, mantendo o atelier em Lisboa cerca de um ano com uma assistente, onde ia duas vezes por semana. Volvido mais de um ano, Judith diz-se “super contente por estar aqui”. “Aqui” sente que pode passear com os filhos, um rapaz de dois anos e uma rapariga de quatro, à vontade e a inscrição numa escola pública não implica listas de espera intermináveis ou a eterna busca por um lugar de estacionamento.

O dia-a-dia divide-se entre a construção e a reparação e o facto de vir para o interior, com menos clientes e mais tempo, foi encarado como oportunidade para fazer a parte que mais gosta: “construir do princípio até ao fim”. Mesmo assim, muitos clientes da capital mantiveram-se habituais e de vez em quando ruma a Lisboa para fazer entregas, sendo a vontade “de ajudar” quem conhece, em alguns casos há dez anos, maior do que os custos de combustível.

Fotos: mediotejo.net

O tempo, esse, continua a ser menor do que os pedidos que chegam de todo o mundo e no Médio Tejo já fidelizou clientes em Tomar, Torres Novas e Abrantes. A procura vinda da região não é muita, mas salienta que “os músicos daqui estão contentes por eu estar cá”. Fala daqueles que têm conhecimento da existência do atelier. Outros, à semelhança da população da localidade, continuam a não saber o que se passa para lá da porta. Algumas das visitas à loja, inaugurada em novembro de 2015, foram motivadas não pela música, mas pela curiosidade de comprovar se o espaço é dedicado ao ensino da arte que combina sons e ritmos.

Ali não se ensina, cria-se. O processo que transforma a madeira num violino ou violoncelo é igual e tem por base uma cópia de um instrumento já existente, como os dos construtores antigos Stradivari ou Amati, ou parte de uma ideia sua. Tudo começa com os traços desenhados numa folha de papel, seguidos pela criação do molde e, passo a passo, as duas placas de madeira vão dando lugar ao instrumento. O calor e a água conferem-lhe as formas e o violino “em branco”, isto é, sem verniz surge passados dois meses. Uma vez aplicada a película de acabamento “à base de óleo de linhaça”, os instrumentos ganham cor através dos pigmentos e um mês depois estão prontos para conhecer as mãos de quem lhes libertará o som. O tempo de gestação duplica quando passamos dos violinos aos violoncelos.

A qualidade do verniz utilizado não passa apenas pela sua composição, também tem que ser “bom para o som” e os mais “grossos não deixam os instrumentos vibrar”. Por sua vez, a madeira mais utilizada é o pinho proveniente dos Alpes italianos e o acer ondulado dos Balcãs, onde prevalece o frio e “tem pouco vento”. Judith nunca utilizou madeira portuguesa pois o stock que guarda em casa veio dos tempos em que estudou em Itália e vai assegurando “as madeiras antigas e bem secas” que asseguram a qualidade dos seus trabalhos. A lenha está na garagem, a matéria-prima no sótão.

Fotos: mediotejo.net

Depois passa-se à parte da afinação, pensamos nós. “Qual afinação? A das cordas ou a da sonoridade do instrumento?”, pergunta a luthier. Sentimo-nos de regresso às cadeiras da escola e lançamos sem grande certeza “a sonoridade do instrumento”. Judith responde “quem tem um instrumento tem que o afinar de cada vez que o toca”, mas “por vezes é preciso ajustar um bocadinho o cavalete e a alma”. Novamente a alma…

Sabíamos que a música tem alma, mas afinal essa alma resulta da harmonia de muitas outras. Almas que se juntam às cordas que Judith compra, à pestana, ao estandarte ou à voluta, entre as 64 peças necessárias para criar estes instrumentos que fazem a música partir das partituras para o mundo. Alguns exemplares estão guardados no novo armário da sala que partilha paredes com o atelier onde se encontra, entre outros equipamentos, a banca do carpinteiro e à qual chegamos depois de passarmos pela secretária com o computador em que “lamentavelmente” passa “muito tempo” a tratar da burocracia. Sempre que pode, prefere substituir o teclado do computador pelas ferramentas que enchem as gavetas e as estantes, entre elas três de eleição, que depois de compradas assumem a técnica da luthier ao serem adaptadas.

Utensílios de precisão com os quais gosta de curar as enfermidades musicais, tal como um médico gosta de curar os seus doentes. No que respeita aos “partos” distingue-se dos clínicos ao dedicar-se exclusivamente a cada peça que cria até estar concluída. Judith diz preferir fazer um violino de cada vez, dar-lhe “a alma” e “a energia”, e interrompe a conversa dizendo “estou aqui a falar e já estou cheia de vontade de fazer um”. Nem sempre pode pois aos pedidos de “construção de instrumentos novos” juntam-se os arranjos e a venda de instrumentos já fabricados, alguns em segunda mão. Sorri enquanto sussurra “gosto mesmo de fazer isto, gosto mesmo”.

Fotos: mediotejo.net

As primeiras criações são sempre especiais e o primeiro violino ficou em casa dos pais, a pedido dos mesmos. O segundo “foi difícil vender”, mas mentalizou-se que a profissão implicava desapego e vida foi facilitada pois, se estar longe da vista significa estar longe do coração, a segunda criação, uma viola de arco ou violeta, seguiu de Lisboa até à Venezuela e ficou separada da criadora por mais de 6.500 quilómetros. Mais longe ficou o violino que viajou até à Austrália, mais perto o que viajará para Berlim e quase vizinho o que partirá para o norte de Portugal.

Judith faz o que gosta, sempre fez. Uma “sorte” aliada à máxima de que “é preciso fazer as coisas com paixão e profissionalismo”, contrariando a ideia que lhe chegou a passar pela cabeça quando era estudante: “não pensava que ia conseguir fazer disto a minha vida”. Preferiu ouvir a alma e foi arriscando sem receio porque “o medo não ajuda nada” e o resultado motiva-a a querer ensinar os filhos “para fazerem o que eles gostam”. O sucesso está garantido? Não, mas, afinal o que é o sucesso? A luthier acaba por nos dar a resposta: “se conseguirmos fazer o que gostamos mesmo, não é preciso ganharmos tanto dinheiro porque somos felizes com o nosso dia-a-dia”.

*Peça publicada originalmente em janeiro de 2017

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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