VN Barquinha: Filipa Gaspar… 33 anos de idade, 27 anos de CUR

A conversa com Filipa Gaspar foi motivada pela "casa cheia" da XIV Gala do Fado. Foto: mediotejo.net

O encontro com Filipa Gaspar ficou marcado na sede do Clube União de Recreios para falarmos sobre a XIV Gala do Fado desta noite de sábado, dia 15. Sabíamos à partida que os 260 lugares estavam ocupados e a conversa seria com o elemento mais recente da Direção. Pouco depois da chegada descobrimos que 27 dos 33 anos de vida de Filipa se cruzam com a associação octogenária da qual o filho já é “a mascote”. Não esquecemos o Fado, mas a curiosidade sobre o que motiva esta relação de quase três décadas foi maior.

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O Clube União de Recreios (CUR) surgiu na vida cultural de Moita do Norte, em Vila Nova da Barquinha, no ano de 1929, mais precisamente no primeiro dia de dezembro, resultado da fusão das coletividades Sociedade Recreativa Moitense e Operário Futebol Clube. Cinco anos depois era integrada na nostálgica Casa do Povo, ressurgindo em 1944. Hoje, 87 anos depois, com Francisco Ferreira na presidência da Direção, continua a ter um papel ativo na vertente cultural do concelho e a ser ponto de encontro da população.

Algures nesta história, não muito longe, uma menina estreava-se nas idas a pé para a antiga Escola Primária, hoje convertida em Loja Social, onde o imenso escorrega azul fazia as delícias da pequenada durante os recreios. Filipa Gaspar lembra-se dos dias de inverno em que o Bairro de Santa Maria era invadido pelo ribeiro e a estrada de terra batida se transformava em lamaçal. Lembra-se também de ser essa a altura em que começou a participar nas iniciativas do CUR.

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Os anos passaram e as recentes obras de conservação e valorização da sede, num investimento total de 140.000€, mudaram os pormenores arquitetónicos, mas deixaram intactas as memórias dos “Tempos Livres” realizados no primeiro andar, cujas paredes têm pendurados cartazes dos concursos de Vestidos de Chita em que participou e nos quais chegou a arrecadar primeiros prémios.

A competição regressou à “passerelle” do Clube em 2013 com a inovação dos aventais e a antiga “Miss” no papel de organizadora. Filipa nunca se afastou da associação e tornou-se, no início deste ano, no mais recente elemento da Direção responsável pela organização anual do Festival das Sopas, do Corso Carnavalesco, de eventos de Fado (Vozes do Fado e Gala do Fado), da Festa do Sócio, da Feira das Artes e do Natal da Criança.

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O Clube União de Recreios. Foto: mediotejo.net
O Clube União de Recreios. Foto: mediotejo.net

Os restantes dias do calendário estão ocupados com as atividades semanais do grupo de teatro “Arte&Manhas”, da Escola de Dança Desportiva, das aulas de yoga e da Academia das Artes. A última é dinamizada por Filipa desde o primeiro minuto e são muitas as horas que lhe dedica, partilhadas com as do emprego como educadora social no Lar Fernando Eiró Gomes (Santa Casa da Misericórdia do Entroncamento) e o filho de dois anos que se transformou na “mascote” da associação.

A entrada nos órgãos sociais é encarada com naturalidade e justificada com a participação regular nas iniciativas realizadas ao longo dos anos. Na sua opinião “simplesmente” assinou um papel que oficializa a ligação que tem ao CUR desde sempre. “Porquê?”, perguntamos. A resposta surge de imediato: “Em primeiro lugar, porque é a nossa terra e é um gosto que acabo por ter em ajudar na nossa casa. Porque esta acaba por ser também a minha casa”.

Por falar em casa, quisemos saber em qual das duas passa mais tempo. Para Filipa, quem ali colabora “por gosto à camisola” fica num meio termo e dá como exemplo a forma como o grupo de cantares tem acompanhado o filho desde os momentos da gravidez. Os tempos de ser ele a pisar o palco já chegaram na estreia com o grupo “a tocar maracas”.

O Grupo de Cantares Casa do Povo começou em 2013, quando Filipa criou a Academia das Artes com o objetivo de ir ao encontro das necessidades e expetativas da população envelhecida do concelho. A par da música trazida pelo grupo que deu continuidade à antiga Tuna do Clube União de Recreios (TCUR) surgiram as artes manuais com o grupo de bordados e costura. Os elementos do primeiro ensaiam nas noites de sexta-feira e os do segundo nas tardes de quinta-feira.

O palco para a XIV Gala do Fado já estava montado no salão. Fotos: mediotejo.net
O palco para a XIV Gala do Fado já estava montado no salão. Fotos: mediotejo.net

Neste último dia cruzam-se com os participantes das aulas de yoga da professora Fátima Passos que ali se realizam também à segunda-feira. A hipótese destes se encontrarem com os elementos da modalidade mais antiga do CUR, a Escola de Teatro, pode aumentar no futuro. Neste momento, além de estar “ a trabalhar algumas peças”, o diretor Nuno Ferreira procura interessados no curso de atores.

O movimento na entrada da sede é grande e por ali também passam os elementos da Escola de Dança Desportiva coordenada por Rosário Correia. Todos podem ler o recado aos visitantes: “Entra amigo a casa é tua / mas com esta condição: / atritos, ficam na rua / só entra a educação” e ficar a saber que o início da construção da sede – inaugurada no dia 27 de dezembro de 1969 – teve início cerca de uma década antes, a 10 de outubro de 1959.

Os dançarinos chegaram à antiga Casa do Povo em 2012, numa fase em que apenas existia a dança social, destinada a quem quer aprender e divertir-se “sem ir para competição”. A estes pares juntaram-se os ligados à pré-competição e competição de nível nacional e internacional e, no conjunto, rondam as três dezenas. Filipa chegou a fazer parte do grupo até à altura em que o par da dança, Bruno, voltou a ser “apenas” (reforçamos as aspas com os dedos) o par da vida com quem partilha os fins-de-semana quando este regressa do trabalho, em Itália.

Entre as memórias do primeiro andas estão os Tempos Livres e os Vestidos de Chita. Fotos: mediotejo.net
Entre as memórias do primeiro andas estão os Tempos Livres e os Vestidos de Chita. Fotos: mediotejo.net

O ritmo não abranda e a dança revela-se um pólo diferenciador do CUR com as aulas direcionadas para pessoas com Síndrome de Down (Trissomia 21). O par que, neste momento, se prepara para começar a competir ensaia às segundas-feiras e os restantes no dia dos cantares. A preocupação de Filipa em “integrar toda a gente” revela-se uma causa maior quando salienta “a Casa do Povo é aberta a todo o povo”.

A sua visão de futuro passa pela realização de, pelo menos, um evento anual por mês e gostava de deixar como marca pessoal a criação de um grupo infantil de instrumentos de percussão, apenas com arrufos. As verbas obtidas nos eventos e os apoios por parte da autarquia e juntas de freguesia são suficientes para (sobre)viver, mas não para sonhar e o “sonho” de Filipa, tal como a vontade de Francisco Ferreira em formar uma orquestra esbarram com o elevado investimento financeiro associado.

A ideia, contudo, não é colocada de parte pela dirigente associativa, educadora social, organizadora de eventos, mãe “solteira” durante a semana, música, dançarina, etc., etc., etc., que ainda tem tempo para uma terceira pós-graduação. A área de formação na Reabilitação Psicossocial vem enriquecer o trabalho desenvolvido no lar, ligado à Psicogeriatria. A faixa etária dos idosos revelou-se apaixonante, apesar da experiência profissional com crianças de nove anos e a pós-graduação em Proteção de Menores.

O sorriso nos lábios com que fala sobre as atividades desenvolvidas no CUR mantém-se quando descreve seu dia-a-dia no lar. “Gosto de tentar perceber e aprender o que posso fazer para ajudar mais”, diz, de forma a contrariar a ideia de que um educador social apenas está presente “para os idosos ocuparem o seu tempo”. Filipa defende que “cada atividade tem o seu objetivo, o seu quê de reabilitação” e os mais velhos entendem a importância do trabalho desenvolvido para “a melhoria da saúde deles”.

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A dirigente mais recente e a modalidade mais antiga do CUR. Fotos: mediotejo.net

A idade torna-os “pessoas com um passado e uma história que temos de respeitar” e devem ter “o seu tempinho para dizer que sim, que vão fazer”. O poder de escolha é salientado e não concorda com a ideia de que voltam a ser crianças. Existe uma regressão, admite, mas “merecem mesmo respeito que um adulto normal”.

A conversa que começou com uma casa cheia na XIV Gala de Fado do CUR passou por uma história associativa com 87 anos, dos quais focou uma pessoal de 33, e terminou na atualidade com a pergunta sobre a data em que foi o coração encher-se para ajudar os outros. Nestes casos, a lotação não esgota e o sorriso volta com a resposta: “sempre fui assim. Não entrei em enfermagem, mas na minha segunda opção que nem conhecia. Simplesmente sabia que era um curso que dava para trabalhar com pessoas com deficiência, idosos, crianças, toxicodependentes… Eu pensei, é isto!”.

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