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VN Barquinha | Faísca dos Reis, o desenhador que domina a fotografia

Como se de um ritual se tratasse, Faísca dos Reis insere todos os dias uma fotografia captada por si na sua página no Facebook, Sunshine Photography. Tancos ao amanhecer e a zona ribeirinha de Vila Nova da Barquinha ao pôr do sol são os seus “spots” preferidos.

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Esta é a história de um desenhador projetista de máquinas que se dedica à fotografia por paixão, mesmo não tendo qualquer formação específica nesta arte. Para si, o olhar de quem projeta uma máquina no ecrã do computador é o mesmo olhar que tenta captar o momento de uma paisagem, de um animal ou de um rosto.

Manuel Augusto Faísca dos Reis nasceu a 14 de abril de 1957 na aldeia de Enxames, no concelho do Fundão, onde viveu até aos oito anos. Com os seus pais mudou-se para Alhandra onde o seu pai era assentador da CP. As cheias de 1966 fizeram com que a sua família viesse parar ao concelho de Vila Nova da Barquinha, mais concretamente à Atalaia, aos 12 anos.

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Filho de uma família humilde, pode-se dizer que subiu a corda a pulso. Começou a trabalhar aos 14, 15 anos numa padaria, mudando-se depois para uma fábrica de escapes. Com espírito curioso e inventivo, sempre procurou saber como as máquinas trabalhavam e não descansava enquanto não percebesse o seu modo de funcionamento. Ficava fascinado a olhar para o movimento sincopado dos mecanismos, gosto que marcou a sua opção profissional.

Quanto a estudos ficou-se pelo 12º ano, mas durante toda a vida apostou na sua formação profissional, sobretudo depois de emigrar para a África do Sul, país onde chegou a 28 de janeiro de 1985 e ali permaneceu 15 anos.

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“Tive de estudar para ser o que sou hoje”, diz orgulhoso Faísca dos Reis que, apesar de não ter qualquer curso superior, trabalha lado a lado com engenheiros. Não raras vezes apresenta soluções para a produção industrial que deixam os engenheiros surpreendidos.

Na África do Sul trabalhou apenas para uma única firma, mas foi sempre evoluindo e aperfeiçoando os seus conhecimentos. Com facilidade e muito autodidatismo, passou do estirador, onde idealizava os seus projetos, para o programa informático Auto-Cad.

A necessidade de segurança para si e para a sua família – na África do Sul nasceram os dois filhos – levou-o a abandonar o país e regressar a Portugal.

Durante umas férias de Natal foi ao Centro de Emprego perguntar por oportunidades de trabalho na sua área e na região. Cinco meses depois estava a trabalhar na Olimar Eletromecâmica, em Alcanena.

É com orgulho que diz ter 52 mil desenhos registados. São projetos de máquinas ou de peças para empresas como a Lisnave, a Setenave ou a Avibom. Fala com entusiasmo das engrenagens a movimentarem-se e é essa dinâmica que o fascina. No início da carreira ainda foi desafiado a desenhar casas, mas essa ideia não o entusiasmava por “não ver isso a andar, está estático”.

Faísca dos Reis anda sempre acompanhado da sua máquina fotográfica. Foto: mediotejo.net

Do desenho à fotografia

O gosto pela fotografia começa quando comprou a primeira máquina, por volta dos 20 anos, numa viagem que fez a Andorra, Principado onde passou a lua de mel e onde regressou mais tarde já com os dois filhos. Mal comprou a máquina começou logo a tirar fotografias.

Depois, na África do Sul, onde tinha mais possibilidades financeiras, investiu em máquinas mais sofisticadas normalmente da marca Minolta. Como na altura os rolos eram baratos fotografou animais, os parques naturais e pormenores daquele país africano, ao mesmo tempo que registava em película e papel o crescimento dos filhos.

Se com as máquinas de rolos juntou centenas de fotografias, esse número disparou para os milhares com o digital. Tem um disco rígido cheio só com imagens.

“Gosto de fotografar tudo, mas derivado à minha profissão gosto da perspetiva. O desenho ajudou-me muito na fotografia, porque o olhar é mais importante do que qualquer máquina fotográfica”, assegura.

Depois do olhar, outro fator que para si é muito importante nesta arte é a luz. Aliás, o nome “Sunshine”, que uma amiga lhe atribuiu e que denomina a página de Faísca dos Reis no Facebook e no Instagram, deriva justamente daí.

Para o fotógrafo de Vila Nova da Barquinha, o nascer e o pôr do sol são as fases por excelência da fotografia. “É lindo de ver”, exclama. E cada dia o cenário muda.

“Todos os dias, no mesmo local, não se consegue tirar uma fotografia igual”, explica alguém que chega a acordar cedo dias e semanas seguidas para apanhar o sol “naquele ponto”. Outras vezes tem de esperar que o nevoeiro se dissipe. “E depois temos de nos posicionar no sítio certo para tirar a foto, não é só chegar e disparar. Há que descobrir o ângulo certo”, explica.

A par da natureza, outro tema que o fascina é o retrato. Não daquelas imagens em que o fotografado está em pose, mas sim quando é apanhado ao natural. “Isso é que importante para mim, captar a essência das pessoas e dos lugares, não é estar cá a inventar”, realça.

É disso exemplo o livro “Retratos” editado por si próprio, com fotografias de sócios e amigos do Grupo Desportivo da Moita do Norte, clube ao qual Faísca dos Reis presidiu seis anos.

“Já tenho material para quase mais dois livros de retratos com o pessoal do Cardal”, anuncia, na perspetiva de mais uma publicação em breve.

Até agora soma quatro livros editados só com fotografias suas, um dos quais está esgotado. Dois são dedicados a imagens da Peneda Gerês, região que descobriu em trabalho e que o cativou pela beleza da paisagem que se presta a boas imagens.

Seguiu-se o livro “Retratos” e o mais recente é “Tejo / Almourol”, os seus “spots” de eleição e que percorre quase diariamente.

Todos os livros são edição de autor, é o próprio Faísca dos Reis que elabora o grafismo, trata da impressão (feita em Espanha por ser mais barata e de melhor qualidade) e da distribuição. Não que os livros estejam à venda nos quiosques e livrarias porque não estão, apenas o próprio comercializa a preço simbólico, apenas para pagar a despesa.

Dois dos livros editados por Faísca dos Reis. Foto: mediotejo.net

Faísca dos Reis não é daqueles fotógrafos que usa e abusa do Photoshop. No seu computador, ao trabalhar as imagens, apenas ajuda a compensar a eventual falta de luz, nada mais, garante.

Ao longo da entrevista vai dando exemplos de locais e de pessoas que fotografou, algumas das quais já morreram como é o caso do homem que faz capa do livro “Retratos” ou o último calafate do Concelho de Vila Nova da Barquinha.

Gosta de viajar e a única região que não conhecia era o Douro Internacional em Trás os Montes. Ali esteve cinco dias de férias e visitou uma série de aldeias, passeio que já repetiu várias vezes, sempre acompanhado da sua inseparável máquina fotográfica. “Às vezes vou de carro e paro para fotografar quando vejo algo que me chama a atenção. Há certos pormenores incríveis”, diz com entusiasmo.

Faísca é também caçador, mas já deixou de disparar a sua arma para captar imagens de animais, como aquele casal de perdizes que foi alimentando diariamente até se poder aproximar e filmá-las de perto.

O futebol foi outra das suas paixões desde pequeno, só que teve de abandonar quando percebeu que “as pernas não aguentavam”.

Hoje em dia concilia o trabalho com a fotografia e caça. Depois de várias horas a projetar peças e máquinas no computador, dedica-se a procura captar as melhores imagens da natureza ao longo do rio Tejo, equipado com as suas três máquinas Sony, várias objetivas Tamron e o tripé.

Os melhores spots para si são o pôr do sol na zona ribeirinha de VN Barquinha, onde a água espelha e não há movimento, e o nascer do sol em Tancos.

As melhores fotos, na sua opinião, “são aqueles em que surgem blocos de nuvens muito grandes, brancas e azuis, em contraste com o cenário cá de baixo”. Basta pesquisar “Faísca dos Reis” no Facebook, Instagram, Youtube ou no portal Olhares para encontrar milhares de fotografias deste “caçador de imagens”.

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José Gaio
Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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