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Quarta-feira, Agosto 4, 2021

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VN Barquinha: Extensões de saúde encerram no verão por falta de médicos

O cenário repete-se pelo terceiro ano consecutivo. Chega o verão e o aviso na porta faz referência ao fecho durante os meses de julho, agosto e setembro devido a férias. Podíamos estar a falar de um estabelecimento comercial, mas não. Falamos das extensões de saúde de Atalaia, Limeiras e Praia do Ribatejo. A solução encontrada pela Unidade de Saúde Familiar Barquinha para a falta de recursos humanos é concentrar a equipa na sede e os utentes chegam a ter que percorrer mais de 10 quilómetros para fazer um penso.

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Tempo de calor significa férias e é comum ouvir-se por todo o lado que “o país pára”. No concelho de Vila Nova da Barquinha o interregno sazonal abrange a saúde e os três polos da Unidade de Saúde Familiar Barquinha (USF Barquinha) — Atalaia, Limeiras e Praia do Ribatejo — encerram durante os meses de julho, agosto e setembro. A situação não é nova, repete-se pela terceira vez, e resulta da decisão daquela unidade em concentrar a equipa na sede durante o período de férias.

O aviso online no Portal da Saúde é confirmado pelo encontrado na porta da extensão de saúde de Atalaia. Ambos direcionam os utentes para a sede da USF Barquinha e na Atalaia a justificação apresentada para o fecho temporário é “por motivos de férias”. Se nesta freguesia a deslocação ronda os três quilómetros, no caso dos dois polos localizados na freguesia de Praia do Ribatejo (Limeiras e Praia do Ribatejo) a distância é superior a 10 quilómetros.

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O aviso na porta do polo de Atalaia direciona os utentes para a sede da USF Barquinha. Foto:mediotejo.net

Este é o caso de Elídio Dias Ferreira e Isabel Santos, dois septuagenários reformados das Limeiras que encontramos no balcão de atendimento da USF Barquinha. A sala não está cheia e quem por ali se encontra tem um problema maior do que a espera: o calor. Descobrimos mais tarde pelo coordenador da USF Barquinha, Joaquim Branco, que o ar condicionado não funciona e os “muitos” pedidos realizados até à data não obtiveram resposta.

É este “forno”, como Joaquim Branco carateriza o edifício onde proliferam as ventoinhas, que o casal das Limeiras “visita” três vezes por semana para Elídio “fazer o penso”. A deslocação semanal feita em carro próprio soma quase 90 quilómetros se considerarmos as viagens de “14 ou 15 quilómetros para cada lado” e tem consequências no orçamento familiar. Isabel queixa-se das “poucas possibilidades para andar sempre a pagar gasolina”, situação que se repete este ano pois o tratamento dura há quatro e já apanharam os fechos temporários anteriores.

Questionada sobre as expetativas de que a situação se resolva, a septuagenária espera que o polo das Limeiras volte a abrir no próximo verão, mas receia que “feche de vez”. Uma preocupação que Joaquim Branco desvaloriza. O coordenador da USF Barquinha, para quem Sofia Theriaga Gonçalves, diretora executiva do Agrupamento de Centros de Saúde do Médio Tejo (ACES Médio Tejo) nos remeteu, refere que a saída de um médico no passado mês de maio tornou a tarefa “humanamente impossível” para a equipa até então composta por cinco médicos, cinco enfermeiros e cinco administrativos que trabalha “das oito às oito”.

Elídio Dias Ferreira e Isabel Santos percorrem cerca de 90 quilómetros todas as semanas no carro do casal para fazer um penso. FOTO: MEDIOTEJO.NET
Elídio Dias Ferreira e Isabel Santos percorrem cerca de 90 quilómetros todas as semanas no carro do casal para fazer um penso. Foto: mediotejo.net

No ano passado, a falta de recursos humanos foi motivada por duas médicas estarem de licença de maternidade. Este ano, ao médico que saiu foi acrescentada a ausência de um segundo por motivos de férias — só pode ir um de cada vez — e um terceiro que se encontra de baixa médica. Contas feitas, dos cinco médicos previstos para a USF Barquinha restam dois, apoiados atualmente por três administrativos e três enfermeiros — os restantes estão de férias — que asseguram consultas diárias, domicílios às segundas e quartas-feiras e prescrição de receituários num universo de 8.212 utentes inscritos.

O responsável pela USF Barquinha desde a sua inauguração, em 2013, admite que a decisão tem “prejuízo para as populações” e a hipótese do polo das Limeiras ser reaberto em setembro devido à chegada de um novo médico no próximo dia 16 de agosto foi equacionada numa reunião com os presidentes da autarquia, Fernando Freire, e da Junta de Freguesia da Praia do Ribatejo, Benjamim Reis.

Neste momento já duvida e o mais certo será manter-se a logística acordada “com os autarcas” em que a população entrega o receituário crónico na sede da junta de freguesia da Praia do Ribatejo e na extensão de saúde das Limeiras às terças e quintas-feiras, que um funcionário da Junta de Freguesia leva à sede da USF Barquinha e devolve no dia seguinte.

Joaquim Branco, coordenador da USF Barquinha, não prevê que a situação se resolva no próximo verão. Elídio Dias Ferreira e Isabel Santos percorrem cerca de 90 quilómetros todas as semanas no carro do casal para fazer um penso. FOTO: MEDIOTEJO.NET
Joaquim Branco, coordenador da USF Barquinha, não prevê que a situação se resolva no próximo verão. Foto:mediotejo.net

A solução poderia passar pela contratação de médicos não afetos ao Serviço Nacional de Saúde durante os meses de julho, agosto e setembro, mas a mesma é descartada por Joaquim Branco. Este esclarece que a “gravidade deste ano” pode diminuir e o cenário previsto para 2017 é das extensões de saúde encerrarem “apenas dois meses”, reforçando a ideia de que não está previsto fechar qualquer polo definitivamente, apesar do receio das populações.

O receio do encerramento definitivo é partilhado pela Comissão de Utentes dos Serviços Públicos do concelho de Vila Nova da Barquinha (CUSP Barquinha). Segundo Joaquim Moura, representante deste movimento, a interrupção da prestação de cuidados de saúde durante o período de férias verifica-se há mais tempo no polo de Atalaia, onde “um mês passou a três” e desabafa “um dia destes, quando os três meses acabarem, já não há [extensão de saúde]”. Outro motivo de preocupação é a idade da médica daquele polo, 62 anos, muito próxima da reforma.

A CUSP Barquinha também alerta para o facto das deslocações não estarem a ser asseguradas e Joaquim Moura refere o fim do transporte gratuito providenciado pela Junta de Freguesia da Praia do Ribatejo em ocasiões anteriores, cortando a distância superior a 10 quilómetros que separa os utentes das extensões de Praia do Ribatejo e Limeiras da USF Barquinha. A família é a alternativa mais utilizada, sobretudo pela população idosa, o que representa “um inconveniente” para quem trabalha e tem de assegurar o apoio.

A extensão de saúde de Atalaia é uma das que encerra no verão. Foto: mediotejo.net
A extensão de saúde de Atalaia é uma das três que encerram no verão. Foto: mediotejo.net

Noutros casos, os utentes têm recorrido ao “Transporte a Pedido”, projeto da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo que começou a funcionar no concelho em maio deste ano. O novo serviço constitui-se como uma solução para o problema das deslocações, mas o facto de ser pago – as tarifas variam entre 1,60€ e 5,10€ consoante a distância – acaba por “afastar muita gente”, diz o representante da CUSP Barquinha.

Tratando-se de um serviço intermunicipal assumido pela autarquia, esclarecemos junto desta se os utentes usufruem de algum desconto por se tratar de um contexto com necessidades específicas. Rosa Garret, vereadora responsável pelo pelouro da Saúde, diz que a hipótese não foi equacionada em parte por se tratar do ano zero do projeto, mas poderá vir a sê-lo no futuro depois de um levantamento do número de utilizações associadas ao fecho sazonal das extensões de saúde.

Futuro esse que, segundo Rosa Garret, não tem previsto o encerramento definitivo de qualquer um dos três polos, considerando o “feedback da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARS LVT) e do ACES Médio Tejo” de que “não se trata de um risco, pelo menos para já”. A solução apresentada pela USF Barquinha, diz, só foi encarada pelo município como “inevitável” ao inteirarem-se de todas as necessidades e reforça que a situação “momentânea” deve ser ultrapassada de forma a colmatar as “lacunas” sentidas pela população, especialmente na freguesia de Praia do Ribatejo.

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Rosa Garret, vereadora da Saúde do município, diz que a ARS LVT e o ACES Médio Tejo não preveem o encerramento definitivo “para já”. Foto: mediotejo.net

Ouvidas todas as partes, percebe-se que nenhuma delas perspetiva um cenário muito diferente num futuro próximo. O país vai continuar a parar nos meses mais quentes do ano, mas se lá por “fora” apenas basta beber o café noutro estabelecimento ou cortar o cabelo noutro cabeleireiro, em alguns pontos do concelho de Vila Nova da Barquinha deseja-se que a doença também tire férias no verão.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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