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Segunda-feira, Dezembro 6, 2021
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VN Barquinha | António Luís Roldão, memórias com fragrância de Sabão Tejo (c/fotos)

Não é longínquo o tempo em que a freguesia de Moita do Norte era conhecida pelo polo industrial do concelho de Vila Nova da Barquinha. Ao final do dia regressava-se a casa com manchas de azeite nas camisas, pó barrento nas calças e as mãos negras da pólvora. “Provas” do trabalho nos lagares e nas fábricas de cerâmica e pirotecnia que eram limpas com recurso a outro bem precioso produzido na Rua Luís de Camões, o Sabão Tejo.

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Foram menos de 100 os anos que passaram desde a época áurea, mas suficientes para fazer uma limpeza mais profunda a todos esses espaços, hoje desativados, que continuam presentes na memória coletiva dos que ali asseguraram sustento. Escolhemos um deles, a antiga Fábrica de Sabão, para viajar até ao passado e escolhemos António Luís Roldão como companhia. Não só porque domina a história local como ninguém, mas também porque algumas das suas memórias têm fragrância azul e branca.

O Tejo esteve e continua por perto nesta história de vida, desde a espuma do rio que acompanha a Rua da Barca onde nasceu há 86 anos à do sabão cujo fabrico acompanhou desde 1962 até à última barra. Fecharam-se as portas e desapareceu a enorme caldeira alimentada pelo gerador de vapor que produzia o equivalente a 100 caixas de produto.

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Ficou a calha que distribuía três toneladas da mistura de sebo e óleos de palma, palmiste e bagaço de azeitona ainda a ferver, assim como os moldes que as recebiam para depois passarem à mesa onde o sabão era cortado em barras, pesado e embalado.

Foto: mediotejo.net

Na “Quinta de Santo António”, abençoada a partir dos painéis de azulejos com a imagem do casamenteiro por excelência na parede exterior e por cima da porta da casa dos patrões, pouco resta.

Luís Roldão conheceu primeiro o negócio como propriedade dos Paneiros, família espanhola à qual pertenciam as duas irmãs que na década de 50 seguiram de Vila Nova da Barquinha até às Caldas da Rainha com os maridos para fundar a Sagilda – Sabões Garantia Industrial, Lda.

A fábrica ainda passou pelas mãos da Sociedade Industrial Alegria, de Sacavém até ser comprada pela Manuel Martins & Filhos, Lda., cujo património é mantido pelos herdeiros. O nome dos últimos donos mantém-se impresso nas caixas de cartão empilhadas graças à proteção da estrutura construída na altura da reestruturação com um tipo de alumínio austríaco que muitos consideravam topo de gama.

Mais resistentes eram as caixas de madeira que transportavam o sabão amarelo utilizado na limpeza dos soalhos e afetava o cartão por ser mais húmido.

No auge das décadas de 60 e 70, uma parte significativa do norte do país cheirava a Tejo. Para Vila Real, Trás-os-Montes, Chaves ou Bragança chegaram a sair camiões com 600 caixas. Ora, fazendo as contas, se 100 caixas correspondiam a três toneladas de produto então cada viagem correspondia a 18 toneladas da fragrância de Moita do Norte a circular de uma só vez. Era muito sabão e muita papelada.

Pouco mais de meia dúzia de funcionários assegurava o fabrico do primeiro e António Luís Roldão a segunda a nível administrativo e contabilístico.

Foto: mediotejo.net

Para ser contratado não foi necessário mostrar o CV ou estar inscrito no Centro de (des)Emprego. Quando Manuel Martins faleceu foram-no buscar ao Entroncamento, onde trabalhava no “Arlindo das Malhas” e o pai mantinha a oficina de sapateiro. A suavidade das lãs contrastava com a dureza do emprego que tivera antes, iniciado quando faltavam 17 dias para completar os 14 anos na antiga serração de madeiras João Lobo Pereira & Filhos Lda, no local do atual Centro Náutico de Vila Nova da Barquinha.

Os tempos não eram fáceis e o estado de pobreza foi nutrido pelos conflitos bélicos. Luís Roldão “perdeu a paz” aos dois anos de idade com a chegada da Guerra Civil espanhola, cujo final coincidiu com o início da Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945). Conviveu com a realidade dos racionamentos e das senhas que levavam os miúdos com pouco mais de seis anos até ao “Almeida”, no Largo Infante Santo, ou ao “Quaresma”. E se era difícil matar a fome do corpo, tudo apontava para suceder o mesmo à sede que tinha por conhecimento.

A caminhada de quem nascia no seio de famílias modestas era feita de forma descalça no verão e nas brincadeiras geradas pelas cheias do inverno. Para aliviar o impacto dos desníveis existiam os estudos, mas nem todos conseguiam chegar ao Liceu Nacional Sá da Bandeira em Santarém, ao Colégio Nun’Álvares em Tomar, ou ao Externato de Santa Bárbara, na Escola Prática de Engenharia de Tancos. A quarta classe era o fim do caminho.

Foto: mediotejo.net

Uma vez aprendida essa lição, Luís Roldão juntou-lhe outras tornando-se num autodidata profissional e mestre da investigação. Desde os temas da seleta literária do sétimo ano aos dos arquivos da Torre do Tombo, quis conhecê-los ao máximo sem precisar de um mentor pedagógico. Porquê? “Sei lá, nasce connosco, é intrínseco”, responde, reafirmando a ânsia de “saber, saber, saber, saber”.

O mesmo aconteceu com os números que aprendeu a dominar na antiga fábrica de sabão até ao momento em que os avanços tecnológicos desenvolvidos na área de Lisboa se traduziram em recuos na indústria do interior.

No escritório sentia o cheiro do sabão misturado com o proveniente do lagar de azeite, mais tarde convertido em carpintaria, situado na mesma propriedade. Num extremo, a caldeira e os moldes. No outro, as quatro prensas alinhadas e o “sem fim” (sistema rotativo que transportava a azeitona até ao sistema de moagem).

Luís Roldão na Fábrica de Sabão. Foto: mediotejo.net

O ruído devia ser constante e a apenas diminuía na altura em que os funcionários passavam pelo refeitório à hora de almoço e os chuveiros ao final do dia. A entrevista não coincidiu com qualquer um destes momentos e a visita guiada pelas vidas da Fábrica de Sabão e de Luís Roldão foi feita ao som de pássaros e um galo com horário desregulado que ia cantando espaçadamente, a fazer lembrar as manhãs em que o despertador é adiado vezes sem conta.

Foto: mediotejo.net

O cenário não deixa de ter o seu lado poético, tal como ele, que concluiu em 2017 o quarto livro de poemas com ilustrações de uma “pintora famosa”. Perguntamos se a História pode inspirar a poesia e começa por dizer que são completamente diferentes, mas acaba por acrescentar “só quem sente… Aquilo é uma questão de sentimento que está cá. Nós não percebemos o que somos, muitas vezes funcionamos sem saber como funcionamos. Não dá para perceber. Somos atirados a fazer aquilo daquela maneira”.

A resposta faz-nos rebuscar a ânsia do “saber, saber, saber, saber” e acabamos nós por perceber que, no seu caso, a História e a poesia têm mesmo um ponto comum: a paixão com que nos entregamos às coisas. A mesma paixão que o levou a continuar a caminhar para a antiga fábrica depois de ter mudado de emprego aos 54 anos (e já reformado) para ajudar naquilo que melhor sabia fazer. Esteve até ao fim dos tempos do Sabão Tejo dos quais guarda memórias com uma fragrância especial e a chave.

*Notícia publicada em dezembro de 2017, revista e republicada em novembro de 2021

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Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Nasci na década de 57 e lembro me quando andava na escola década 60… Entrada e saída dos camiões na fábrica do sabão tudo acaba ..um abraço ao senhor Rondao e obrigada pela reportagem.

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