“VN Barquinha – 16 de maio de 1834. A história da Batalha da Asseiceira, na Guerra dos dois irmãos”, por Fernando Freire

Caricatura representando D. Pedro e D. Miguel a disputar a coroa portuguesa, por Honoré Daumier, 1833

Há sempre uma razão que se opõe a outra razão. O choque de uma razão contra outra razão dá a questão. Esta oposição de razões à estrutura da questão dá o princípio do contraditório. Quando me contam a história dos vencedores, e a nossa história é, predominantemente, de vencedores, pois como soe o adágio popular “dos vencidos não reza a história”, é sempre esquecida pelo narrador a história dos vencidos. Contudo, por defeito de ofício, valorizo o sábio hábito de ouvir as partes e a oposição das suas razões para depois tirar a minha (in)justa conclusão.

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Hoje, no dia do aniversário desta grande batalha efetuada no nosso território, decidi contar-vos a história dos vencidos e dos vencedores da Batalha da Asseiceira. Importa, em primeiro lugar, fazer uma breve sinopse sobre as guerras liberais que assolaram o país durante longos seis anos, de 1828 a 1834.

I –  A GUERRA QUE OPÔS OS DOIS IRMÃOS.

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De um lado, Dom Pedro I, Imperador do Brasil ou Dom Pedro IV de Portugal, apoiado pela burguesia e por uma elite cultural, letrada e viajada, que tinha bebido as doutrinas libertárias da revolução francesa, donde resultou a célebre trilogia “liberté, egalité, fraternité”. O Imperador representava o liberalismo, corrente política que apareceu em meados do século XVIII, fruto do iluminismo que defendia uma menor intervenção do estado na economia, na sociedade, no livre-cambismo, na liberdade de comércio e nos direitos individuais.

Do outro lado, Dom Miguel, absolutista, apoiado pelo clero e pela nobreza. O poder era centralizado no Rei que é o núcleo de toda a vida política.

Dom Pedro, Imperador do Brasil, não podendo assumir a coroa, abdicou na sua filha Dona Maria da Glória, de 4 anos (a futura rainha Dona Maria II) propondo que esta casasse com seu tio Dom Miguel. Este ficaria regente do reino até a menor atingir a maior idade. Dom Miguel, que estava exilado no estrangeiro, no início prometeu que aceitava tal acordo e que juraria a carta constitucional de 29 de abril de 1826, que no seu art.º 5.º estipulava: “Continua a Dinastia Reinante da Sereníssima Casa de Bragança na pessoa da SENHORA PRINCESA DONA MARIA DA GLÓRIA, pela abdicação, e Cessão de Seu Augusto Pai e SENHOR DOM PEDRO I, IMPERADOR DO BRASIL, Legítimo Herdeiro e Sucessor do Senhor Dom João VI”.1

Contudo, chegado a Portugal, contando as espingardas, agarrado aos valores tradicionais e ao conservadorismo, faz o contrário. Está crente que conhece bem o país, a sua estrutura política e social, e num volte face, resolve implementar as suas ideias absolutistas.

Dom Pedro sente-se traído pelo irmão, reage, forma uma força armada nos Açores, com 6681 militares, alguns mercenários, e desembarca nas praias do Mindelo, no Porto, em 8 de julho de 1832.

Aguarela de Alfredo Roque Gameiro

Entra na cidade no dia 9 de julho e aqui permanece até dezembro desse ano, dando origem ao chamado “Cerco do Porto”. Durante um ano a guerra limitou-se ao cerco do Porto. A desproporção era grande: cerca de 80000 homens do lado miguelista, 7500 da ala liberal.

Convictos que representavam a causa da liberdade, os ideais da soberania do povo, como noutras monarquias europeias, os liberais, com o apoio da população portuense, com dinheiro, e contingentes de soldados, iniciam uma guerra que numa primeira fase esteve perdida. Porém, em junho de 1833 foi enviada, via marítima, para o Algarve, um corpo de tropas para obrigar os absolutistas a dispersar as suas tropas concentradas no Porto e assim foi aliviada a pressão sobre a cidade invicta. Esta pequena expedição liberal apodera-se do Algarve e marcha para Lisboa onde, inexplicavelmente, entra sem luta em 24 de julho de 1833. 2

A guerra vai durar até que os partidários de Dom Pedro derrotam o exército absolutista.

Dom Miguel é enviando para o exílio e é aclamada rainha de Portugal, D. Maria II.

O curioso da história é perceber – pelos textos dos vencedores e dos vencidos – como um grande exército absolutista, incomensuravelmente em maior número do que os liberais consegue sair derrotado da guerra civil de 1828 a 1834.

Importa, portanto, em segundo lugar, fazer uma investigação próxima dos factos.

II – FONTES

Escrevia, em 1907, F. Sá Chaves que sobre a batalha da Asseiceira nada há escrito em português e por enquanto, que se possa comparar à monografia que ele escreveu 3. “A simples relação das obras consultadas (maioria importante das que tratam do assunto com alguns detalhes) deve garantir ao leitor que conseguir juntar e ligar o que ando esparso, ignorado e quase perdido, em volumes e brochuras, curiosas a muitos respeitos, e que, como a resposta analítica… de Galvão Mexia, têm hoje o cunho de raridade. Foi esta que nos forneceu os mapas da Força do Exército Miguelista. Dada a distância a que escrevo, em relação aos factos narrados e tendo que os analisar e criticar chamei à auditoria os autores coevos ou que vieram pouco depois e cotejei-os uns com os outros. Em seguida, socorrendo-me, quer de breves conhecimentos que possuía da tática desse tempo, quer do estudo do relevo e forma do terreno – palco em que se representou a arrepiante tragédia – vi e medi, estudei e considerei, para concluir o que cabia dentro dos bastidores, e que houvesse sido a marcação da cena.

Isto fi-lo, insisto, com toda a ciência e, mais do que tudo, consciência do que sou capaz. E tanto assim, que não obstante uma preparação fornecida pela leitura apurada de mais de oito anos de história feita destas campanhas, a descontento de recordações vivíssimas, que a memória me conservava de ouvi-las contar ao meu pai – e que com prodígio poder de evocação – eu levei um mês inteiro (trabalho médio de sete horas diárias) metido na interessantíssima Secção Soriano, na Biblioteca Real da Casa Pia de Lisboa, para transformar o Esboço em Memória. Junte-se a esta investigação de gabinete a contraprova de algumas horas de passeio a cavalo e a pé pelas chapadas do Grou, Oliveirinha e Barbeiro, pelas ruas e becos tortuosos da Asseiceira e pelos caminhos e estradas dos campos adjacentes e ter-se-á avaliado de que é fruto do presente estudo.

Eu sou, porém, um simples capitão de cavalaria. É muito provável, para não dizer certo tempo, que na Memória haja pontos de vista errados, faltas, omissões, ignorância histórica, tudo isto em barda. A verdade é que fiz quando podia e sabia, e que me conste ninguém até hoje fez tanto…”.

Os esboços e quadros que fazem parte da presente crónica são deste autor que reconstitui a composição, disposição e armamento das forças bem como as coloca no teatro de operações/ combate desta batalha fundamental da história de Portugal.

O Barão de Saint Pardoux publicou, em 1835, uma obra sobre o título “Campagnes de Portugal en 1833 et 1834”. Este militar, oficial francês, esteve em Portugal até ao fim da guerra fratricida que dilacerou Portugal e combateu ao lado dos derrotados. Importa reter a sua história, ou seja, os factos narrados por quem defendeu a causa Miguelista.

A HISTÓRIA CONTADA PELOS VENCIDOS

“ … Pelo que fica dito, os brigadeiros Bernardino e Ricardo deixaram a cidade de Coimbra, e se retiraram sobre a vila de Tomar, assim como a guarnição das fortalezas da Figueira e Buarcos às ordens do seu comandante, o oronel de artilharia António Ignácio Júdice.

Quando estas tropas chegaram a Tomar ficaram debaixo das ordens do Marechal-de-Campo, António Joaquim Guedes de Oliveira, o qual tinha em Ourém um destacamento de trezentos e cinquenta soldados do regimento de infantaria n.º 7 e uma força de voluntários realistas, debaixo do comando do coronel João António da Moita.

Mapa da Força do marechal-de-campo Guedes

Nesta ocasião, o general Lemos enviou ao general Guedes um reforço, o qual, reunido às tropas juntas em Tomar, formava a totalidade de cinco mil setecentos e sessenta e sete homens, não compreendendo os fragmentos do exército de observação sobre o Porto, nem a artilharia e a cavalaria às ordens do brigadeiro Puisseux (ver mapa acima).

O general Duque da Terceira avançou com as suas tropas, apoiadas da direita pelas forças do capitão Napier e pela guarnição de Leiria, e protegidas no flanco esquerdo pelo exército do general Rodil.

O general realista, em consequência destes movimentos do inimigo, retirou-se sobre a estrada de Santarém pelas posições da Asseiceira, onde a 16 de maio de 1834 recebeu o ataque do exército inimigo, comandado pelo mencionado general.

Esta ação durou por espaço de duas horas; porém, a grande superioridade das forças contrárias e a voz que se espalhou de que o general Rodil torneava a nossa direita desanimaram uma parte das tropas realistas, e esta desanimação aumentou-se quando infelizmente o brigadeiro Puisseux foi morto à frente da cavalaria realista que carregava o inimigo. A bravura deste brigadeiro levou-o à temeridade de montar à crista de uma altura que estava em frente, o que era contra as ordens que recebera do general Guedes, que lhe determinavam se limitasse tão-somente a repelir os caçadores inimigos e não subir àquela altura, onde existia uma grande força contrária, que deu sobre a cavalaria uma descarga cerrada e decidiu a sorte das armas.

Os brigadeiros Bernardino e Ricardo retiraram-se em boa ordem, não deixando todavia de sempre operar até ao momento em que atravessaram o Tejo.

A diminuição da força comandada pelo general Guedes, entre mortos, feridos e dispersos, foi de dois mil novecentos e quinze homens, não entrando neste número alguma parte da cavalaria e artilharia. Algumas das tropas dispersas nesta ação reuniram-se à guarnição da praça de Abrantes, a qual se retirou para Estremoz com o seu governador Rochelein, e sucessivamente para a praça de Elvas. Nesta ocasião a força que estava destacada em Ourém capitulou com o capitão Napier…

Os desgraçados acontecimentos que tiveram lugar contra a causa realista nas províncias do norte e o resultado da batalha da Asseiceira exigiram que o exército de operações se retirasse da vila de Santarém, ameaçada pelo norte, a oeste.

O general Lemos então destacou o brigadeiro Urbano com a cavalaria de Chaves e de Vila Viçosa para a vila de Almeirim, na margem esquerda do Tejo, para proteger a retirada do exército. Logo que este homem passou o rio, continuou a sua marcha pela mesma margem até à vila da Chamusca, quando a ordem que recebeu do general era de não passar de Alpiarça. A maneira com que este traidor iludiu a tropa do seu comando foi dizendo-lhe que a ordem que recebera lhe determinava que repassasse o Tejo para a margem direita a fim de carregar de revés o inimigo que seguia a estrada de Santarém. Efetuada a passagem, de súbito a tropa foi surpreendida pelas forças do general Duque da Terceira. A 18 de Maio de 1834 o Sr. D. Miguel passou o Tejo dando claras provas de intrepidez, e amor pelo seu exército, com aquela presença de espírito que o caracteriza nos maiores perigos. Foi a última pessoa que se retirou do rio, que muitas vezes atravessou de um lado ao outro até pôr a salvo os indivíduos, que desejavam acompanhá-lo.” 4

A HISTÓRIA CONTADA PELOS VENCEDORES

“ … Chegámos (a Tomar) na tarde de 14 de Maio. O belo Convento estava ocupado por uma considerável força miguelista e, no prado, para lá da vila de Tomar, descobriam-se seis belos esquadrões de cavalaria, doze bocas de fogo e uma grande força de infantaria que se não podia calcular bem por causa do arvoredo que a encobria.

O Convento ficava-nos no flanco direito quando avançávamos para Tomar, e o Marechal avançou sempre sobre a vila, sem lhe importar aquela força. Com espanto nosso, o inimigo abandonava a bela posição do Convento e a força concentrou-se no prado junto à vila e nas posições sobre a estrada de Asseiceira e Barquinha.

A nossa cavalaria esteve a tiro de pistola, em linha, em frente da cavalaria inimiga, mais forte dois esquadrões do que a nossa, e a nossa infantaria, em coluna, foi colocada na retaguarda da cavalaria, e a artilharia na retaguarda da infantaria.

Ao anoitecer, o inimigo retirou sobre a estrada de Asseiceira e o Marechal mandou colocar os seus postos avançados, estabelecendo o seu Quartel-General em casa do Superior do Convento de Cristo, o cavalheiro Athayde. Pela manhã fizemos um reconhecimento em força e o Marechal coligiu que o General Guedes (defensor da causa Miguelista) ocupava as belas posições da Asseiceira para nos dar batalha.

O General Guedes tinha reunido as consideráveis forças, com que saíra de Santarém, às colunas dos Generais Cardoso e Ricardo.

O Duque deu um descanso de vinte e quatro horas às forças do seu comando e preparou-se para a grande batalha …

Mapa da Força chefiada pelo Duque da Terceira

Ao romper do dia, o Corpo de Exército do Marechal Duque da Terceira formou no belo campo junto à vila de Tomar …

Próximo à posição de Asseiceira, num bosque que corta a estrada real, encontrámos, em força, o inimigo, com uma considerável linha de atiradores. Engajou-se logo em fogo a Brigada do General Queiroz e parte da Brigada do General João Nepomuceno, ocupando a cavalaria, em coluna, a estrada, ficando em reserva parte da Brigada do General João Nepomuceno e a Brigada do Coronel Vasconcellos; a nossa artilharia fez alto na estrada, a grande distância da retaguarda da cavalaria.

A força inimiga que ocupava o bosque era uma força que o General Guedes fizera avançar das suas belas posições para nos reconhecer, a qual se retirou fazendo-nos sempre frente, e depois, protegida por uma bela bateria de seis bocas de fogo muito bem servidas, conseguiu reunir-se ao seu Corpo de Exército.

Pudemos então descobrir as posições ocupadas pelo inimigo; o seu centro cortava a estrada de Tomar para a Barquinha, a direita ocupava a pequena aldeia de Asseiceira, e a esquerda, que era o fraco da sua posição, estava protegida pela cavalaria, que era superior à nossa, e pela artilharia, que o era também; por esta forma as posições do General Guedes eram excelentes e toda a probabilidade de vantagem devia ser a favor das armas do Usurpador (epíteto que os liberais designavam o Rei D. Miguel).

O Marechal Duque da Terceira fez entrar logo as forças do seu comando em ordem de combate. O Coronel Queiroz fez um movimento sobre a direita, ficando desde logo a ala direita em ordem de batalha; o Marechal avançou pelo centro com a Brigada do General Nepomuceno, e o Coronel Vasconcellos fez um movimento sobre a nossa esquerda e direita do inimigo. O General Fonseca, com a cavalaria, ocupava a estrada real, ficando, pouco mais ou menos, no centro da nossa linha, exceto os dois esquadrões organizados no Porto pelo Coronel Luiz Filipe e Major António de Mello, os quais seguiam o movimento da Brigada do Coronel Queiroz. O Marechal tinha ordenado a dois dos seus oficiais de ordens, o capitão Casimiro e o alferes D. Manuel de Sousa que ficassem debaixo das imediatas ordens do Coronel Queiroz.

A nossa artilharia colocou-se na melhor posição que o Marechal e o seu Chefe de Estado-Maior puderam encontrar, mas que era muito inferior à bela posição que ocupavam as baterias inimigas, tornando-se portanto, muito desigual o combate para a nossa artilharia. A artilharia inimiga não perdeu tempo: abriu desde logo um fogo terrível sobre as nossas colunas, principalmente contra o centro, que foi fulminado e batido em brecha por seis bocas de fogo, incluindo um obuz, que muito estrago fizeram nas nossas fileiras.

Os nossos atiradores avançaram com coragem: no centro, onde estava o Marechal Duque da Terceira, uma formidável linha de atiradores de Voluntários de D. Maria II avançou por tal maneira, fazendo um fogo mortífero, que levou à retaguarda os atiradores inimigos e as suas reservas, tentando tomar de frente à baioneta a formidável posição; o inimigo, porém, em força, em posições muito vantajosas e protegido pela sua artilharia que estava a tiro de fusil dos nossos atiradores e que fez uso da metralha, repeliu o ataque dos nossos Voluntários, sendo necessário que o Marechal Duque da Terceira e o General Nepomuceno avançassem com o resto de Voluntários de D. Maria II e com o Regimento 18, em força de três batalhões, para sustentar a nossa linha de atiradores.

O combate, no centro, tornou-se muito sério e mortífero. Vi muitas vezes o Marechal Duque da Terceira e o General Nepomuceno envolvidos em nuvens de poeira, em consequência de ricochetearem ao lado deles as balas da artilharia; as balas davam nos valados e muros, que cortavam as terras, e derrubavam-nos, fazendo cair uma quantidade de estilhaços que nos faziam perder muita gente, ferindo-a e matando-a.

História da Asseiceira em miúdos”, iniciativa da Junta de Freguesia e da Associação de Pais e Amigos das Escolas de Linhaceira”, 2016

Por três vezes, os dois Generais, o Coronel Mesquita do 18 e o Comandante de Voluntários de D. Maria II tiveram que se colocar à frente das suas colunas, para repelir o inimigo, que queria desalojar-nos das nossas posições. Na nossa direita, o Coronel Queiroz lutava com imensas dificuldades; os dois esquadrões de cavalaria que ele tinha, apesar de serem, como já disse, muito bem comandados, não estavam no caso de repelir uma carga de cavalaria inimiga comandada, no flanco direito, pelo Brigadeiro francês, Conde de Puiseux, que cobriu a retirada da Divisão do General Cardoso e que, por diferentes vezes, ousou carregar a Brigada do Coronel Queiroz, que, ora formando quadrado, ora em linha, repeliu as cargas com firmeza e resolução.

O Coronel Queiroz a todos os momentos requisitava um reforço de cavalaria, dizendo que a sua Brigada estava comprometida completamente, se não lhe aumentassem a força.
O Coronel Vasconcellos, na esquerda, não lutava com menos dificuldades. Não carecia de cavalaria nem receava da inimiga, porque o terreno era muito montanhoso, mas as perdas que tinha tido eram imensas: os atiradores inimigos e duas peças de artilharia faziam grande desfalque nas fileiras da Brigada. O Duque, com repugnância, anuía às requisições do Coronel Queiroz, porque via na sua frente uma grande força de cavalaria inimiga e poupava o melhor da sua cavalaria, debaixo das ordens imediatas do General Fonseca, para uma ocasião decisiva.

O combate estava duvidoso em toda a linha. O Coronel Vasconcellos declarava que lhe era impossível avançar e tomar as posições, e o Coronel Queiroz continuava a reclamar reforços de cavalaria, não ocultando o receio que tinha de ser forçado a vir à retaguarda. O Duque da Terceira, com o seu Chefe de Estado-Maior, observou com os seus óculos a força do inimigo e os seus movimentos, e apearam-se, assim como nós todos, para tomar uma decisão sobre o movimento que tinham a fazer, porque não havia tempo a perder. Quando o Duque e o seu Estado-Maior formavam um grupo e o Coronel Loureiro, fazendo uso do óculo, examinava o inimigo com toda a atenção, uma bala de fusil veio feri-lo gravemente no peito, donde lhe saiu um jorro de sangue, julgando todos nós e o próprio que a ferida era mortal. Levámo-lo em braços para traz de um muro, onde o supúnhamos ao abrigo das balas, e de aí foi conduzido à ambulância, acompanhado pelo cirurgião da Divisão, Libânio.

Ruínas da Igreja da Misericórdia, na Asseiceira, que funcionou como Hospital de Sangue, durante a Batalha da Asseiceira. Fotografia de António Martins

O Duque montou logo a cavalo e dispunha-se para atacar de frente e ordenar às colunas da direita e esquerda que avançassem sobre o inimigo, quando o Coronel Queiroz, em pessoa, a grande galope, seguido do capitão Casimiro e do alferes D. Manuel de Sousa, veio dizer ao Marechal que, pela terceira vez, tinha sido carregado pela cavalaria inimiga que tinha sido reforçada por mais um esquadrão, e que, se lhe não mandasse um reforço considerável de cavalaria, lhe era impossível avançar. Nesta ocasião, o Marechal e todos nós observámos que a cavalaria inimiga, na nossa frente, fazia um movimento sobre o nosso flanco direito e que um numeroso Estado-Maior precedia a cavalaria, devendo nós presumir que era o General Guedes. O Marechal mandou-me logo levar ordem ao General Fonseca para que fizesse um movimento, a trote, sobre a direita e seguisse os movimentos da Brigada do Coronel Queiroz.

Dirigi-me a grande galope ao encontro do General, que executou logo a ordem, e o esquadrão de D. Carlos Mascarenhas fazia a frente da coluna que estava formada por divisões. Avançamos, a grande trote, sobre a direita. D. Carlos, chegando à esquerda da Brigada do Coronel Queiroz e encontrando-se com ele, recebeu ordem deste para fazer ombros esquerdos frente carregar dois esquadrões que tinha no flanco direito. O Coronel não via o General Guedes à frente de seis esquadrões e a pequena distancia dele na sua frente. D. Carlos, em lugar de dar a voz de ombros esquerdos, deu a de ombros direitos frente e meteu em linha o seu esquadrão, colocando-se à frente dele, tudo a galope, dando vivas à Rainha e gritando: abaixo o General Guedes, que via de sabre na mão, à frente dos seus seis esquadrões para o carregarem.

A carga do nosso esquadrão foi brilhante. A rapidez dos seus movimentos foi como um raio que caiu sobre o General Guedes: os seis esquadrões e as seis bocas de fogo, que tinha na sua retaguarda, tudo ficou morto, ferido ou prisioneiro, e as seis bocas de fogo ficaram, desde logo, em poder do bravo D. Carlos. O seu arrojo não parou aqui: vendo diante de si inumeráveis mortos e feridos, seis esquadrões aniquilados e um parque de artilharia fora de combate, estando mortos, ao lado das peças, quase todos os artilheiros e os machos, seguiu o General Guedes, que, acompanhado dalguns dos seus Ajudantes de campo e de algumas ordenanças, tratava de salvar a vida, seguindo o caminho da Atalaia e da Barquinha, perseguindo-o até perto desta ultima vila.

O Brigadeiro francês, Conde de Puiseux, carregou com ímpeto, pela quarta vez, a Brigada do Coronel Queiroz, mas foi repelida a carga e morto o Brigadeiro. O Duque da Terceira ignorava completamente a bela carga e o resultado dela. Atacou de frente a posição e foi levando o inimigo de posição em posição, aprisionando e pondo fora de combate muita da sua força, até que se apoderou de todas as posições, pondo o inimigo em completa derrota, a ponto de abandonar armas e bandeiras. O Coronel Vasconcellos não foi menos feliz do que o Marechal Duque da Terceira e General Nepomuceno. Apoderou-se da posição, aprisionando três batalhões ao inimigo e grande quantidade de armas, pólvora e bandeiras. As forças do General Guedes não foram só derrotadas: ficaram completamente aniquiladas na famosa batalha de Asseiceira. Poucos foram os soldados miguelistas que puderam reunir-se às bandeiras do seu Rei …

O Quartel General do Duque estabeleceu-se na Atalaia; todos os grandes lavradores da Golegã, Relvas, Honorio e outros, vieram felicitar o Duque e fazer-lhe os seus oferecimentos.” 5

Desta contenda, segundo alguns historiadores, as tropas miguelistas, entre feridos e prisioneiros, tiveram baixas de 2915 homens, sendo os prisioneiros mais de 1.400.

Por sua vez, as tropas de Dom Pedro tiveram baixas de 344 homens, 34 mortos, 288 feridos e 22 (extraviados) desaparecidos.

A vitória pelas tropas de Dom Pedro, em 16 de maio de 1834, na batalha de Asseiceira, abriu o caminho para a ocupação da cidade de Santarém, o derradeiro baluarte das tropas de Dom Miguel.

Com a vitória das tropas liberais na Asseiceira, no dia 26 de maio de 1834, na Convenção de Évora Monte, é colocado termo à guerra civil com a rendição de Dom Miguel e exílio deste Rei para a Alemanha, país onde viria a falecer.6

Curioso é saber que pela Atalaia, Vila Nova da Barquinha, na tarde de 16 de maio de 1834, passaram os derrotados da Batalha da Asseiceira, local onde se travou a batalha entre os miguelistas e os liberais. E que os combatentes vinham esfomeados, cansados e temendo represálias. A alguns deram os habitantes de comer e beber mas tanto medo traziam que recebiam as víveres e iam comendo e fugindo. 7

Por outro lado, posso assegurar que seis dias depois da Batalha da Asseiceira, em 22 de maio de 1834, no auto da Câmara da Atalaia, Vila Nova da Barquinha, consta que: “Presentes o Juiz Ordinário, vereadores e mais oficiais da Câmara e outras pessoas. Foi dito que sendo restabelecidos os direitos da Senhora Dona Maria II e o Trono da Monarquia Portuguesa era chegado o momento de se fazer nesta Câmara a devida aclamação e reconhecimento ao Governo Legítimo da mesma Augusta Senhora … o que foi unanimemente acordado … havendo por ilegítimo todo outro Governo que não seja desta Senhora estabelecido conforme a Carta Constitucional.”

Casa onde se estabeleceu o Quartel-general do Marechal Duque da Terceira . Atalaia, Vila Nova da Barquinha

III – CONCLUSÕES

Tinha de haver uma explicação para a pesada derrota dos absolutistas face à disparidade de forças que possuíam perante o exército constitucional e ela certamente não andará muito longe destas premissas:

– “Sendo a todos tão útil o conhecimento da verdade, bem poucos são aqueles que a gozam: uns não se querem dar ao trabalho de a investigar, outros carecem dos dados necessários para a alcançarem. Desde que a luta principiou até que a convenção a finalizou, o partido vencedor tem procurado constantemente fazer atribuir à sua energia, valor e sapiência militar os sucessos das suas armas, ocultando ou invertendo os do contrário. Ninguém ousava patentear as coisas, posto que muitos as soubessem, tais quais tinham sucedido. O Barão de St. Pardoux, oficial adido ao exército de Dom Miguel, foi quem primeiro mostrou que a ignorância, traição e faltas de alguns dos chefes do partido realista (absolutista) foram as principais causas da vitória do partido constitucional (liberal).” 4

– A população estava cansada de quatro anos de guerra civil. A exaustão das marchas, contramarchas, combates, desmoralização, insucessos, a fome, a peste, a ação corrosiva, a intriga de muitos, a já mencionada traição, bem como o liberalismo triunfante – por convicção ou à força de baioneta e bala – na Inglaterra, na França, na Espanha, foram fatores catalisadores para a vitória da causa liberal em Portugal.

 

BIBLIOGRAFIA:

1 Miranda, Jorge. As constituições portuguesas de 1822 ao texto actual da constituição. Livraria Petrony, 1984

2 Saraiva, José Hermano. História Concisa de Portugal, Publicações Europa-América, 2003

3 Chaves, F. Sá, A Batalha da Asseiceira. Memória Histórico-Descriptiva, 3.ª Edição, Typografia Belenense, Lisboa, 1907

4 Barão de Saint Pardoux. A Guerra Civil em Portugal 1833-1834, introdução de Prof. António Ventura, Caleidoscópio, 2007

5 Memórias do Marquês de Fronteira e d’Alorna D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto ditadas por ele próprio em 1861 / rev. e coord. por Ernesto de Campos de Andrada. Coimbra Impr. da Universidade, Biblioteca Nacional, 1928-1932.

6 A designada Quádrupla Aliança, tratado assinado em Londres a 22 de Abril de 1834 entre os governos de Guilherme IV do Reino Unido, Luís Filipe de França, D. Pedro IV de Portugal , regente em nome de sua filha D. Maria II, e a regente de Espanha D. Maria Cristina de Bourbon, tinha para as partes contratantes um objetivo essencial o da imposição de regimes liberais nas monarquias ibéricas.

7 Boletim da Junta de Província do Ribatejo / dir. ed. Abel da Silva. – Santarém : J.R.R., 1940

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