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Vitor Terramoto, um tramagalense em África entre 196 reféns da UNITA

Esta é uma história de incerteza, de diplomacia, de diamantes e de um tramagalense no meio de algumas mulheres e muitos homens, uns guerrilheiros, outros a trabalhar, capturados numa guerra que não era a deles. A história dos reféns da UNITA em 1986 fez correr muita tinta pelos jornais. Em Portugal, foram 21 dias de famílias desesperadas. Em Angola, os mesmo dias e noites de marchas pela mata africana. Terminou no aeroporto de Lisboa com a alegria do reencontro, um momento marcante que Vítor Terramoto Vilar contou ao mediotejo.net.

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Escreveu-se e falou-se muito nos meios de comunicação social, portugueses, angolanos, em todo o mundo, da libertação de quase duas centenas de reféns da UNITA. Eram 196 (ou 173, dependendo do jornal da época) os raptados pelos rebeldes em Angola depois libertados no Zaire em março de 1986, entre os quais 77 portugueses. Uma lista onde constava Vítor Vilar, de Tramagal, que nas notícias aparecia com o apelido Terramoto.

Nome sugestivo para uma situação de instabilidade ou mesmo pavor. Não foi o caso, até porque os relatos registam “bom tratamento, dentro das limitações”. Uma lata de atum e um pacote de bolachas era a ração rudimentar diária que não comovia ou demovia os guerrilheiros cujos objetivos era vencer a guerra. Água só a do rio o que contribuiu, conjuntamente com o exercício da caminhada noturna, para a perda de peso dos cativos e para uma cedência aos ataques de malária.

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“Estávamos preparados para que, de um momento para o outro, atacassem aquilo”, conta Vítor Vilar ao mediotejo.net. “Aquilo” era a central de escolha da Diamang situada na localidade diamantífera de Andrada, em Angola, onde trabalhava a maioria dos reféns e onde foram capturados pelas forças de Jonas Savimbi (que acabou por morrer em combate décadas depois), após uma batalha com soldados governamentais. Em Andrada não havia cubanos, só FAPLAS (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola) que apenas resistiram uns minutos ao ataque, segundo contam os jornais da época, alguns entretanto desaparecidos como ‘A Capital’ ou o ‘Diário Popular’.

Estavam preparados “para dar à sola” não fora o petisco da noite anterior ao ataque que impediu o alerta ao mínimo sinal de perigo. O fogo de morteiro e metralhadora acordou a vila e os trabalhadores da Diamang, atacados por quatro batalhões da UNITA, nas contas da imprensa, entre 800 e 1200 homens.

Viítor Vilar (em destaque) na fotografia na notícia do jornal Correio da Manhã

Antes das 08h00 “as granadas começaram a cair e já não houve hipótese de fuga. Caíram ao pé da igreja, junto de uma casa de habitação…” explica, recordando tempos onde a segurança e a alimentação era os únicos “senão” numa empresa onde se ganhava bem e oferecia boas instalações.

Com os locais “trocávamos roupa por comida, umas calças por um cabrito ou um leitão. Quando saía de Portugal levava duas malas de roupa e quando regressava uma mala vinha dentro da outra porque a roupa ficava lá”, revela.

Vítor lembra que os trabalhadores da Diamang ficaram “dois dias retidos pela UNITA em Andrada” e depois seguiram para a mata. Os prisioneiros iniciaram uma marcha a pé de 1300 quilómetros até ao quartel-general dos guerrilheiros na Jamba, mas acabaram por retroceder temendo que as forças do MPLA se aproximassem dos reféns do movimento rebelde. Rumaram então para Leste chegando à província zairense do Sahba, após a travessia do rio Kassai em pirogas.

Três dias depois, a notícia chegava a Lisboa, através de um comunicado da UNITA. Anunciava a intenção de entregar os prisioneiros à Cruz Vermelha Internacional, a quem o Governo português havia solicitado que interviesse.

“Foi uma ação com bastante impacto internacional, ao levarem os funcionários de uma empresa de diamantes, e acho que esse era o objetivo da UNITA”, opina Vítor. Recorda um episódio em que “um colega do Pego ficou para trás debilitado pela malária. Fiquei com ele, juntamente com um capitão e um tenente. Era gente muito disciplinada porque quando ofereci uma cigarro ao tenente não aceitou sem ordem do capitão”. Esse trato, de alguma forma, tranquilizava-o.

Vítor Vilar em Tramagal, em Abrantes

Em Portugal, as famílias, desconheciam a localização dos prisioneiros, embora soubessem se o nome do seu familiar constava na lista dos reféns. “Uns dias depois a empresa fez um comunicado” informando quem eram os funcionários raptados, recorda.

No Zaire, ficaram pela cidade de Kapanga aguardando o repatriamento. “Com estatuto de refugiados. Até que chegou a Cruz Vermelha com a primeira refeição, uma carcaça e um ovo cozido… os maxilares nem queriam trabalhar”, graceja Vítor Vilar. Viveram aqueles dias “numa espécie de armazém, uma construção em tijolo, e nunca nos apercebemos se estávamos a ser ou não vigiados. Quando a Cruz Vermelha chegou foi um alívio!”, confessa.

Vítor caracteriza a experiência como “marcante, embora não dolorosa” no que diz respeito a dor física. O homem, que agora tem 76 anos, e bebeu água do mesmo rio onde no fim do cativeiro todos fizeram a higiene, manifesta-se convencido que apenas aguentou a situação sem problemas de saúde, devido a um tratamento “naturista” que realizou antes de embarcar para África, onde chegara há pouco mais de um mês após um período de férias em Portugal.

No meio da selva africana sujeitos a caminhadas longas sempre durante a noite para que os soldados do MPLA não dessem por eles e “o calor de África ficasse suportável”, diz Vilar. Duras condições e pouca comida, e onde pode parecer impossível mas bichos e feras nunca foram problema, a não ser um único ataque de formigas kissonde, que acabou por ser ultrapassado.

Na sequência das negociações diplomáticas viajaram num avião C-130 das forças armadas belgas até Kinshasa onde entraram no avião da TAP que os trouxe até Lisboa. Chegaram ao aeroporto da Portela, atualmente General Humberto Delgado, a bordo do avião da TAP ‘Santo António’, batismo profético pelo milagre de tudo não ter passado de um susto após 21 dias de cativeiro.

Os momentos que se seguiram à chegada do avião foram de grande tensão e emotividade por parte das centenas de pessoas que aguardavam no aeroporto. Os jornais dão conta de casos de agressão entre familiares e amigos dos reféns e agentes da PSP, que tiveram grande dificuldade em conter a multidão que chorava, gritava e aplaudia numa mistura de abraços.

Primeira página do jornal A Capital com a notícia da chegada dos reféns da UNITA ao aeroporto de Lisboa

O primeiro a sair é Vítor Manuel Terramoto Vilar logo abraçado pelas três filhas e imediatamente cercado pelos jornalistas para lhes dizer nunca ter sido maltratado, apesar da débil nutrição por que todos passaram.

Além dos portugueses, a Lisboa chegaram 92 filipinos, 14 caboverdianos, cinco santomenses, quatro ingleses, dois alemães (na época federais), duas romenas, um canadiano e um cidadão angolano.

Vítor nunca teve medo. Alguns meses depois voltou a Angola onde ficou mais um ano, para regressar definitivamente em 1987. A sua mulher e as suas filhas mais uma vez não foram para Angola, contrariamente às esposas e filhos de outros funcionários da Diamang.

“Pela insegurança, pela alimentação”, embora Vítor não contabilizasse problemas uma vez que integrava o grupo de manutenção do aeroporto e “as nossas caixas térmicas iam vazias e vinham cheias, era assim que nos safávamos”, nota.

Nascido no Entroncamento, mas por adoção e coração natural de Tramagal, Abrantes, para onde foi viver aos quatro anos. “O meu pai era músico e integrou o teatro da terra ao mesmo tempo que entrou para trabalhar na Metalúrgica Duarte Ferreira”, conta.

Vítor aprendeu o ofício de mecânico chama-lhe de manutenção porque “mexia em tudo! era a polivalência daquela época” na mesma casa para onde entrou em 1954. Parte para Angola em 1979. No ano da Revolução dos Cravos tentou entrar para a Diamang através de um exame realizado em Lisboa. “Dá-se o 25 de Abril e já não fui”, justifica. Quatro anos depois volta a tentar, inscrevendo-se numa empresa inglesa, na Rua dos Bacalhoeiros, que contratava trabalhadores para os diamantes de Angola.

Quando regressou definitivamente a Portugal, depois do rapto, decidiu trabalhar por conta própria na reparação de máquinas, de ceifeiras a debulhadoras, mas “como o objetivo era juntar dinheiro, comecei a trabalhar nas centrais de energia, primeiro no Carregado e depois na Central Termoelétrica do Pego”, onde ficou até à reforma, sempre na função de mecânico de manutenção.

A mesma que teve na Guerra do Ultramar, precisamente em Angola, anos antes do episódio que marcou a sua vida, “de 26 de agosto de 1963 a 2 de novembro de 1965”, precisa Vítor.

Durante a Guerra esteve dois anos sem vir a casa. “Para regressar nas férias teria de ser a expensas próprias. Não dava!” afirma, apesar do salário de 700 escudos, superior em 300 escudos aos restantes militares, em jeito de prémio de especialidade.

Não gosta de falar da Guerra Colonial, emociona-se. “Ainda hoje dói”, confessa. Apesar disso, quis o destino que a conversa com o mediotejo.net fosse no Largo dos Combatentes.

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Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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