“Visitas de proximidade: uma importante arma terapêutica”, por Rui Calado

Foto ilustrativa: DR

É cada vez mais evidente que em Portugal não há uma distribuição homogénea da infecção pelo Coronavírus. Neste momento, os maiores problemas parecem circunscritos a zonas bem identificadas, como a área metropolitana de Lisboa ou o Algarve. No restante país, face aos resultados que a disponibilidade de testes proporcionam, podemos afirmar que os casos já são excepção e estão a ser devidamente tratados e vigiados pelas autoridades de saúde e suas equipas.

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Uma das características imutáveis desta pandemia é a predominância da morte nos idosos e em especial nos que são portadores de doenças crónicas. Por isso, continua a ser importante que nos lares e nas instituições que lhes prestam cuidados, o desconfinamento se vá fazendo de acordo com um conjunto de regras definidas por entidades competentes, que seguramente irão sendo actualizadas em função da evolução dos acontecimentos.

Em boa hora foi iniciado o processo de desconfinamento, dado que o tempo de isolamento a que os idosos estiveram sujeitos aumentou em muitos deles a sensação de abandono e de carência afectiva, resultantes do afastamento das suas referências familiares ou comunitárias. Finalmente havia condições para pôr um ponto final no sofrimento que nos vimos obrigados a infligir aos nossos idosos e essa excelente notícia foi recebida com grande agrado pelos seus amigos e familiares. No entanto, o medo associado a esta pandemia, que tem condicionado tantos dos nossos comportamentos individuais e colectivos, logo se encarregou de destruir o sonho, de castrar um processo tão ansiosamente aguardado.

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Com base na informação oficial, sabe-se hoje que há em Portugal mais de 25 mil pessoas recuperadas da infecção pelo Coronavírus, que lhes conferiu imunidade e por isso, durante algum tempo nem vão adoecer, nem vão transmitir o vírus. Após a cura, nas zonas onde a situação epidemiológica se revela favorável, não parece haver motivos que contra-indiquem a realização de visitas de proximidade aos seus familiares ou a sua colaboração em projectos que incluam essa acção junto de outros idosos institucionalizados, naturalmente carentes de uma conversa com alguém disponível para se sentar “à sua beira” e lhes prestar uma atenção personalizada que já não lhes é dispensada há demasiado tempo.

Uma segunda hipótese seria a construção de um modelo para visitas de proximidade, que inclua medidas de incontestável e objectivo reforço dos elevados níveis de segurança definidos para o desconfinamento. A sua implementação poderia ser condicionada pela capacidade de concretização de um conjunto de condições e compromissos susceptíveis de tranquilizarem a totalidade dos intervenientes, nomeadamente os responsáveis  e/ou os decisores institucionais.

a) Assim, para garantir, à partida, uma acentuada diminuição do risco de contágio, as visitas de proximidade deveriam ser realizadas apenas por 1 pessoa, sempre a mesma, desejavelmente com uma forte ligação afectiva ao idoso. Essa pessoa assumiria explicitamente o compromisso de adoptar, com o maior rigor, o conjunto de medidas preventivas definidas pela DGS para o cidadão comum, ao longo de todo o período de vigência desse processo. Seria também mandatória a resposta a um inquérito sobre os seus comportamentos e situação de saúde observada entre a última visita e o momento que antecede uma nova.

b) Para assegurar que o risco de contágio se tornaria insignificante, seria necessário garantir como essencial a utilização correta, rigorosa, de uma máscara cirúrgica, dada a sua elevada eficácia na prevenção da contaminação de terceiros. Como elementos de reforço, é recomendável o uso de uma bata e de protectores de sapatos descartáveis, assim como o controlo da temperatura corporal, imediatamente antes da visita.

c) A apresentação dos resultados de um teste PCR antecederia a primeira visita e seria renovado quinzenalmente, com a finalidade de comprovar a manutenção de uma negatividade indispensável à condição de visitante de proximidade.

A certeza que a adopção das medidas acima referidas reduzirão para valores baixíssimos o risco de contágio dos idosos durante as visitas, não nos permite aceitar por mais tempo, depois de anunciado o desconfinamento, que eles continuem a ser fustigados pelo peso da solidão, pelo “deficit” afectivo a que têm sido sujeitos, muitos sem poderem entender a razão de tais tormentos. Nesse pressuposto, as visitas de proximidade revelar-se-iam, seguramente, armas terapêuticas e de promoção da saúde de elevado valor, que urge instituir e dinamizar, sem preconceitos nem limitações exageradas quanto à sua frequência. Estas são acções de necessidade óbvia e de valor inestimável na luta pela manutenção da saúde, com a qualidade possível, “dos nossos velhinhos”.

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