Vindimas: Míldio atacou videiras e está a marcar a colheita de 2016 (c/vídeo)

As vindimas arrancaram nos inícios de setembro e devem continuar até final do mês. A chuva obrigou a alguns dias de paragem, mas, afirmam os produtores, não está em causa a qualidade da uva, que este ano produzirá vinhos de maior complexidade. O problema foi mesmo o míldio, uma doença em forma de fungo que ataca as folhas da videira, típica de primaveras chuvosas, que não beneficiou deste estar a ser o ano mais quente de que há registo. Há casos de vinhas que perderam 90% da produção.

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O mediotejo.net visitou duas quintas que produzem exclusivamente vinhos biológicos, mais sensíveis aos efeitos do míldio por não se poderem usar químicos para combater a doença (o adequado é o sulfato de cobre). De salientar que este problema não é exclusivamente local, mas nacional. Em julho, refere uma notícia da Lusa, os viticultores do Douro já alertavam para um ano “muito difícil”, afetado pelo míldio, o oídio e o granizo, e pediam “apoios excecionais” para minimizar os prejuízos. Este foi, no geral, um ano de grandes despesas em torno da produção de uva, conforme também relataram os produtores ao mediotejo.net.

Na Quinta do Alveirão, em Torres Novas, a prevenção foi fundamental para diminuir os prejuízos do míldio. A produção caiu apenas 10%. FOTO: mediotejo.net
Na Quinta do Alveirão, em Torres Novas, a prevenção foi fundamental para diminuir os prejuízos do míldio. A produção caiu apenas 10%. FOTO: mediotejo.net

Estes dados são corroborados pelo Instituto da Vinha e do Vinho. A última nota informativa, datada de 1 de agosto, refere que “estima-se que a produção de vinho na campanha 2016/2017 atinja um volume de 5,6 milhões de hectolitros, o que se traduz numa diminuição de 20% relativamente à campanha 2015/2016. O decréscimo global de produção, em relação à campanha anterior, é sustentado por todas as regiões vitivinícolas, à exceção da região do Algarve onde não se prevê variação”.

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“É nas regiões de Lisboa, de Trás-os-Montes, do Douro e dos Açores, onde se antecipam as maiores quebras de produção, superiores a 25%, face à campanha anterior”, continua. Na região que toca o Médio Tejo, nomeadamente Lisboa (Ourém) e o Tejo (Abrantes, Torres Novas, Tomar, Sardoal, Barquinha, Constância) os grandes problemas foram o míldio e as temperaturas amenas.

“Na região do TEJO prevê-se um ano de menor produção (-15%). As chuvas na primavera aliadas às temperaturas amenas potenciaram o aparecimento de míldio. Na floração, o tempo chuvoso, levou a algum desavinho. A expetativa de uvas de boa qualidade é suportada pelas temperaturas altas que se têm registado, contribuindo para a redução da traça e da podridão”, refere o Instituto do Vinha e do Vinho.

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Na Quinta do Montalto, em Olival, Ourém, fez-se a vindima do vinho Medieval a 17 de setembro. Míldio afetou bastante a propriedade, cuja produção de vinho será menos que noutros anos. FOTO: mediotejo.net
Na Quinta do Montalto, em Olival, Ourém, fez-se a vindima do vinho Medieval a 17 de setembro. Míldio afetou bastante a propriedade, cuja produção de vinho será menor que noutros anos. FOTO: mediotejo.net

Já “na região de LISBOA a floração e o vingamento foram afetados por fortes ataques de míldio e a ocorrência de desavinho, pelo que, relativamente ao ano anterior (ano de produção excecional), perspetiva-se uma acentuada quebra de produção (-40%). Na maior parte da região estima-se um atraso no ciclo vegetativo de cerca de 3 semanas. A qualidade promete ser boa”.

Menos produção, boa qualidade, produtores a pensar nos clientes

Na Quinta do Montalto, em Ourém, com perto de uma centenas de prémios e produtora do famoso Medieval, tradicionalmente chamado de vinho palhete, o responsável, André Gomes Pereira, reconheceu que o ano não está fácil, tendo numa das suas vinhas perdido 90% da produção. As perdas terão que ser suportadas pela empresa, uma linhagem familiar do século XIX dedicada ao vinho e que foi das grandes defensoras da denominação de origem controlada (D.O.C.) do vinho palhete em Ourém.

“Este ano vou ter menos vinho para vender”, confessou, refletindo o grande impacto que o míldio teve na produção e a preocupação com os seus clientes. “Foi a chuva e o calor ao mesmo tempo”, explicou, constatando que “não posso fazer nada” e resta esperar que o próximo ano tenha melhores resultados. “Nestas condições, em agricultura biológica, pouco ou nada podemos fazer. Temos que assumir as perdas”. Mas a qualidade do vinho, garante, “será bastante boa. As uvas estão sãs. Têm umas boas maturações, estão equilibradas no PH”.

Cerca de uma dezena de pessoas são chamadas às quintas para ajudar na época de vindima. FOTO: mediotejo.net
Cerca de uma dezena de pessoas são chamadas às quintas para ajudar na época de vindima. FOTO: mediotejo.net

Com menos impacto na produção que as quintas vizinhas, na ordem dos 10%, a Quinta do Alveirão, em Torres Novas, também se encontra no seu pico de colheita. “Este foi um ano excepcionalmente quente”, explicou um dos sócios, Luís Faria Vieira, “e prejudicou a maturação. Há muito tempo que não tínhamos temperaturas tão altas”.

Dedicados também ao vinho biológico, com um grande prémio alcançado num vinho de 2009, a propriedade em Chícharo, na freguesia de Olaia, conseguiu ir dando a volta ao míldio. “Conseguimos salvar 90% de produção”, garantiu Luís Faria Vieira, adiantando que o vinho que sairá desta colheita será “mais complexo”. “Por causa da onda de calor houve desencontros entre o amadurecimento dos açúcares, grainhas, etc”, procurou explicar, o que já por si vai influir a qualidade do vinho.

“Foi dos anos mais caros” em termos de cuidados com a vinha, constatou o engenheiro agrónomo e também sócio, João Nunes. “Muita chuva, que dificultou o trabalho, mais recursos humanos”, um maior trabalho na prevenção. A vegetação cresceu muito devido à chuva, pelo que se teve que tratar também do mato. Tudo sem o uso de químicos.

Vinho biológico começa a vingar no mercado

A certificação biológica tem as suas exigências e há muito que as quintas de Montalto (1997) e do Alveirão (2002) investem neste produção. Queremos saber se é uma questão de moda.

“Somos dos primeiros a nível nacional a produzir a agricultura biológica. Ainda ninguém sabia o que era”, comenta André Gomes Pereira. “Tenho a felicidade de viajar com frequência pelo mundo e já vejo os vinhos biológicos num patamar muito alto” há vários anos, a nível internacional. Em Portugal este desenvolvimento da produção biológica tem sido mais lento e só agora vai ganhando algum reconhecimento, sendo que muita da produção da Quinta do Montalto é vendida lá fora.

Vinhos biológicos procuram respeitar o processo natural de crescimento da uva e produção do vinho, o que resulta no produto que não prejudica o ecossistema. FOTO: mediotejo.net
Vinhos biológicos procuram respeitar o processo natural de crescimento da uva e produção do vinho, o que resulta num produto que não prejudica o ecossistema. FOTO: mediotejo.net

“É possível alimentar o mundo com agricultura biológica”, defende André Gomes Pereira, constatando que há maus hábitos e as pessoas terão que aperceber-se dos prejuízos ambientais da produção massificada. No dia em que houver essa consciência, as pessoas “não se vão importar de pagar um pouco mais”, ou nem isso, uma vez que o produto vai para o mercado unicamente na sua época.

Assistimos à vindima do vinho palhete, feito com 80% de uvas brancas Fernão Pires e 20% de uvas tintas Trincadeira. O processo é praticamente todo artesanal, com exceção da parte do lagar, onde o processo é facilitado por uma máquina elétrica. Ainda assim, uma funcionária vai colhendo os restos da uva.

Também para a Quinta do Alveirão a certificação biológica é importante e distingue-os dos seus congéneres. “Temos uma equipa de enologia das mais prestigiadas do país, do Engenheiro João Melícias”, salienta Luís Faria Vieira. “É tão nobre (a agricultura biológica) que vale a pena que as pessoas se desloquem a qualquer parte de Portugal e do mundo para participar, para que as pessoas não digam que é trafulhice”, defende outro sócio, Rogério Vieira, por ter presente a fazer a vindima consigo um amigo francês, que veio do Algarve de propósito para esta colheita.

Ambas as quintas que o mediotejo.net visitou empregam nesta altura do ano cerca de uma dezenas de pessoas para ajudar na colheita, que pára em dias de chuva. Devido à marca biológica, têm que ser respeitados determinados processos de colheita, recolha em caixas específicas e tratamento. A Quinta do Alveirão possui quatro marcas de vinho, entre tintos e brancos; a Quinta do Montalto possui 10 qualidades diferentes, de espumantes a rosés, além dos mais tradicionais e o Medieval.

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