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Segunda-feira, Setembro 27, 2021

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Villa Cardílio: As ruínas esquecidas de Torres Novas

Descobertas nos anos 30, investigadas enquanto núcleo arqueológico a partir de 1963, as ruínas romanas da Villa Cardílio, em Torres Novas, permanecem estagnadas no tempo, à espera que a vontade governamental permita novo avanço na prospeção, parada há mais de 30 anos. Da parte do município há vontade em potencializar o espaço, mas tem faltado alguma organização nas instituições que tutelam este património nacional, em sucessivas reestruturações e mudanças administrativas. Ainda assim, as Ruínas são visitadas anualmente por uma média de 2 mil pessoas, sobretudo turistas e interessados por arqueologia.

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Um pouco antes de chegarmos à Villa, embocamos por uma estrada degradada de calçada antiga, sob um teto de vegetação em arco, tal qual o corredor podado de um jardim coberto por trepadeira. Realizamos uma passagem como que para outra dimensão. Para trás ficou o bulício agitado dos acessos à autoestrada, que ainda há pouco contornámos, próprios de uma urbe em crescimento, e redescobrimo-nos de regresso às matizes do campo, num universo rústico que parece retirado de um frame nostálgico de cinema europeu, captado pela lente de Hollywood. Como em tudo, esta viagem depende da perspetiva. Outros defendem que a estrada precisa de ser alcatroada…

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O edifício do centro de interpretação da Villa Cardílio está rodeado de oliveiras e ciprestes. É um espaço amplo e de linhas modernas, bem cuidado, no qual encontramos quase sempre o funcionário que, além de funções de guia, faz a manutenção geral. No dia da visita o senhor, porém, está de férias, e o mediotejo.net é recebido por Catarina Nascimento, técnica superior de conservação e restauro da Câmara de Torres Novas, e pela vereadora Elvira Sequeira, que detém o pelouro do património cultural.

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Queremos saber porque continua Villa Cardílio como que suspensa no tempo, sem que sejam feitas alterações ao circuito de visita e novas escavações para trazer à luz do dia as restantes ruínas que permanecem soterradas. É Elvira Sequeira quem toma a palavra, salientando os múltiplos esforços que tem desenvolvido nos últimos anos com a Direção Geral de Património Cultural (DGPC) para que as escavações avancem para sul, onde se supõe existirem as instalações dos escravos e os estábulos. Falta sobretudo, salienta, uma investigação científica mais aprofundada do que existe efetivamente em Villa Cardílio, para que se possam definir circuitos de visitação, melhorar o centro de interpretação e criar um espaço museológico mais rico e estruturado e “mais claro” para quem o visita.

O centro de interpretação tem cerca de 20 anos. O município tem a Villa Cardílio no mapeamento de fundos comunitários e em breve deverá ser possível investir numa atualização de toda a informação patente, adianta a vereadora. O acervo, constituído por milhares de fragmentos, “está a ser tratado, fomos busca-lo o ano passado” junto do investigador da Universidade de Coimbra que o estudou nos últimos anos. Mas a prospeção está parada desde os anos 80…

Questionada se sente que as ruínas estão um tanto esquecidas a nível nacional, a vereadora responde de forma afirmativa, “até pela própria tutela”. “Por isso temos insistido para que se olhe e pense alguma coisa”, sublinha, referindo que a DGPC tem visitado por diversas vezes o espaço, mas que continua a não haver avanços. Para a autarca o mais importante seria avançar de novo com a prospeção do terreno, de forma a delimitar o espaço de visitação e criar um circuito. Mas as constantes reorganizações das instituições que tutelam o património cultural não têm ajudado, aparecendo sempre caras novas ou novos organismos, num emaranhado que dificulta o avanço de um projeto de menor escala, como é o da Villa Cardílio.

Segundo Catarina Nascimento, existem 30 locais registados no concelho com achados arqueológicos romanos. A zona, destinada sobretudo à agricultura, era um ponto de passagem entre Lisboa e Coimbra, sendo a Villa Cardílio não mais que a moradia principal de uma grande propriedade rural. Mas muita da informação ainda está enterrada, assim como muitos mosaicos e cerâmicas, cuja preservação não permite que sejam expostos à luz do sol e à visitação sem espaços mais definidos e protegidos. Há todo um trabalho científico ainda por fazer, à espera que haja meios e interesse para que este seja desenvolvido.

Inclusive para com as escolas. Apesar dos 2 mil visitantes por ano, boa parte dessa fatia são sobretudo turistas. Uma maior investigação permitiria potenciar o espaço enquanto núcleo didático. “É outra coisa que devíamos trabalhar, mas é preciso a área científica”, torna a sublinhar Elvira Sequeira.

A Villa, com 1200m2, não traz grandes encargos ao município, referindo a autarca que o único funcionário cuida ele próprio da manutenção do espaço. A autarquia já comprou vários terrenos na envolvência para permitir que se continue, um dia, a prospeção, mas a maioria está ainda na mão de privados. Catarina Nascimento faz a visita guiada, mostrando muros e estruturas ainda semi soterradas que são facilmente identificáveis, mas que permanecem no domínio particular.

Trabalho há muito, vontade também. O percurso ainda assim vale a pena, sobretudo para os que são interessados por aquela parte de História que permanece por descobrir. Na envolvência veem-se as planícies e os campos, o silêncio é cortado pela passagem de um ou outro carro, chegando-se a duvidar se, ali tão perto, estará a cidade de Torres Novas.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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2 COMENTÁRIOS

  1. Cara Cláudia, interessante artigo sobre a lamentável paralisia a que está votado este monumento. Fui, porém, impedido de desfrutar da sua leitura por causa de dois erros crassos, especialmente para quem “se desenrasca melhor na escrita”. Permita-me pedir que se corrijam as frases “Por parte do município HÁ vontade…” e “… por uma estrada degradada de calçada antiga, SOB um teto de vegetação…” Lapsos, por certo, mas demasiado atrozes para com a nossa língua e que não podem ser tolerados, em particular em órgãos de comunicação social… Com votos de continuação de bom trabalho

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