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Vila de Rei | Presidente da Câmara aponta falhas graves no combate ao fogo e diz-se “de consciência tranquila”

Na fase de rescaldo de mais um incêndio em Vila de Rei, depois de em 2017 ter ardido a parte sul do concelho, as chamas reduziram agora a cinza a parte norte. “Só falta arder o centro do concelho!”, lamenta Ricardo Aires, presidente da Câmara Municipal, em entrevista ao mediotejo.net. “Por estes dias arderam cerca de 6 mil hectares. Todo o norte ficou em cinzas, desde Vilar do Ruivo à Portela dos Colos”, explica.

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Ricardo Aires diz que houve “falta de meios” no teatro de operações e defende uma intervenção mais rápida e eficaz, para que seja possível dominar este tipo de fogos. “Quando o incêndio começa e ganha alguma dimensão, ou é atacado no início ou destrói tudo como destruiu, até que os meios climatéricos permitam!”

O autarca considera que a Proteção Civil não teve em conta as condições climatéricas existentes, sendo que “hoje está tudo acautelado, todas as autoridades sabem as condições do vento e as temperaturas”.

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Num incêndio em zona florestal, com temperaturas altíssimas e vento forte, “a ação tem de ser com meios redobrados”. O que havia para arder no concelho de Vila de Rei, diz, “ardeu nas primeiras cinco horas do incêndio”. E só “ao final do dia de sábado” houve reforços significativos, denuncia.

O que havia para arder no concelho de Vila de Rei ardeu nas primeiras cinco horas do incêndio. só ao final do dia de sábado houve reforços significativos, denuncia

O presidente da Câmara Municipal de Vila de Rei, Ricardo Aires, fotografado esta segunda-feira no seu gabinete. Foto: mediotejo.net

“Foi um incêndio igual ao de 2003. No mesmo local, com o mesmo trajeto”, explica Ricardo Aires. Em poucas horas, o fogo entrou nos quintais de casas de habitação em Monte Novo, Relva do Boi, Cabeça do Poço, nas Várzeas, em Vale da Urra, Cimo do Valongo, na Portela dos Colos.

“É verdade! O fogo foi ao encostar das casas… mas se o município, as juntas de freguesia e as pessoas não tivessem feito o trabalho de limpeza, nomeadamente à volta das aldeias, tinha sido muito pior”, garante.

Em Vila de Rei “poderá ter ardido uma ou duas casas de primeira habitação parcialmente”, em Vale da Hurra, diz, sem certezas, uma vez que o levantamento dos danos ainda está em curso. “Os proprietários fizeram um ótimo trabalho nestas freguesias, mas mesmo assim, mesmo fazendo esse trabalho e gasto esse dinheiro, agora está tudo negro. A prevenção é boa mas não chega. O incêndio precisa de ser combatido com mais meios, os meios têm de ser adequados ao fogo que existe”, insiste o autarca.

“Os proprietários fizeram um ótimo trabalho nestas freguesias, mas mesmo assim, mesmo fazendo esse trabalho e gasto esse dinheiro, agora está tudo negro. A prevenção é boa mas não chega”

Ricardo Aires lembra que Vila de Rei ainda não tem sequer cadastro para ordenar as parcelas. “Isto demora décadas, mas quanto mais tarde pior!”, sublinha. Há anos que o autarca afirma que o seu concelho é um barril de pólvora. “Quando o projeto piloto do cadastro simplificado que o Governo implementou não integrou Vila de Rei, foi um erro”, considera.

Incêndio em Vila de Rei, julho de 2019. Foto: mediotejo.net

Neste âmbito, Vila de Rei “está cada vez mais atrasado em relação aos outros concelhos, para ter uma floresta mais ordenada”. No distrito de Santarém todos têm cadastro. “No projeto piloto foi considerado também Sertã e Proença-a-Nova e nós ficámos no meio. Somos uma ilha, onde não há cadastro simplificado”, critica.

O presidente apela, por isso, a ferramentas de trabalho que permitam ordenar o seu território. “Se não nos derem o cadastro simplificado o mais depressa possível, será difícil. Como há um PDM para as habitações podemos fazer uma espécie de PDM para as zonas florestais. Mas se não sabemos os nomes dos proprietários, como vamos entrar no terreno? É impossível! Não sou contra o eucalipto, que bem ordenado é bem-vindo, mas também sou a favor da plantação de outras espécies, como o medronheiro ou o olival, ou da pastorícia. Mas como o rendimento é inferior, o Estado tem de se responsabilizar pelas compensações aos proprietários. Isto está mais que estudado”, diz, imputando esta questão a qualquer governo, e não apenas ao atual.

“Com o dinheiro que os governos de Portugal já gastaram no combate aos incêndios, se calhar se tivessem dado dinheiro às pessoas para fazer a sua desmatação e ordenamento florestal, indicando as espécies ou culturas que cada propriedade pode ter, se calhar os fogos eram muito menos. E isso não acontece, porventura, devido a uma economia paralela mais forte.”

“Com o dinheiro que os governos de Portugal já gastaram no combate aos incêndios, se calhar se tivessem dado dinheiro às pessoas para fazerem a sua desmatação e ordenamento florestal, indicando as espécies ou culturas que cada propriedade pode ter, se calhar os fogos eram muito menos. E isso não acontece, porventura, devido a uma economia paralela mais forte”

A paisagem “lunar” de Vila de Rei, depois de mais um incêndio devastador. Foto: mediotejo.net

Elogiando o trabalho dos bombeiros, que “querem sempre salvar tudo” e “dão o melhor de si”, diz que “se não conseguem vencer a luta contra o fogo é por que lhes faltam os meios”.

Vila de Rei, lamenta, ficou mais pobre. “Mas Portugal também ficou mais pobre, e o País tem de ter meios para que isto não aconteça.”

Questionado sobre o número de efetivos enviados para o teatro de operações comenta:
– “Estiveram mil homens no terreno? É capaz, a contar com a população!”

Questionado sobre o número de efetivos enviados para o teatro de operações comenta:
– “Estiveram mil homens no terreno? É capaz, a contar com a população!”

Os aviões não páram de sobrevoar a Câmara Municipal de Vila de Rei durante a entrevista ao mediotejo.net. Segundo a Proteção Civil, hoje estiveram 15 meios aéreos empenhados no combate ao fogo que teimava em ameaçar as aldeias do concelho vizinho de Mação.

– “Está a ver o número de aviões?… E sabe quantos vi no sábado? Dois!”

Ricardo Aires reconhece que para quem está no meio da aflição os meios são sempre poucos, “mas no primeiro dia não eram suficientes”, insiste. Só no segundo dia os meios de combate às chamas foram redobrados, garante. “Em vez de bombeiros do Porto ou de Lisboa, que aqui chegaram passadas 10 horas do início do incêndio, terão de vir outros, antes. Tem de haver um política diferente.”

A legislação para a coordenação, diz, não necessita de alterações. Defende, no entanto, uma prevenção anterior. Ou seja, tendo em conta a época do ano e as condições atmosféricas, “os meios devem ser colocados mais próximos dos locais propensos a tragédias, como o Centro de Portugal”.

“Em vez de bombeiros do Porto ou de Lisboa, que aqui chegaram passadas 10 horas do início do incêndio, terão de vir outros, antes.”

Incêndio em Vila de Rei, julho de 2019. Foto: mediotejo.net

Tal como o povo de Vila de Rei, Ricardo Aires manifesta-se “cansado” e “impotente” perante o flagelo dos incêndios, embora “de consciência tranquila”. Reconhecendo que o trabalho pode ser sempre melhor, assegura que “a Câmara Municipal fez o que tinha de ser feito” no que diz respeito ao cumprimento da legislação em vigor, designadamente quanto à limpeza dos terrenos.

Sem provas que o comprovem para já, Ricardo Aires acredita “em mão criminosa” nestes incêndios, mas quanto aos artefactos incendiários encontrados pela Polícia Judiciária em vários pontos de Vila Rei, o presidente diz não ter “qualquer confirmação oficial”, não sabendo sequer onde terão sido encontrados.

O primeiro levantamento dos danos está em curso, e nesta segunda-feira Ricardo Aires já reuniu com diretor da Direção Regional de Agricultura e Pescas, que recebeu dados preliminares. “Vamos ver o que o governo consegue fazer. Estamos numa zona de minifúndio, não temos agricultores registados, somos só proprietários. Vamos ver se conseguimos alguma ajuda do Ministério da Agricultura.”

Agora em Vila de Rei é tempo de “erguer a cabeça” outra vez. “O povo vilarregense é forte e tenho a certeza que vamos vencer. Mas com esta área que ardeu, está na altura das pessoas perceberem que cometeram alguns erros tendo a floresta desordenada. Temos de começar a pensar em outras plantações para lá do pinheiro e do eucalipto.”

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Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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