Vila de Rei | O desafio de ser fazedor da mudança a cuidar da Casa Comum

Foto: mediotejo.net

Vêm de outros pontos do país, e já começaram a assentar raízes junto com as pessoas da terra e zona envolvente. É na aldeia de Água Formosa que têm desenvolvido projetos que visam revitalizar os usos e costumes, os saberes e sabores, na sustentável missão de cuidar da Casa Comum: o planeta Terra. O contributo da Associação Fazedores da Mudança terá o seu ponto alto em 2019, ano em que se pretende mobilizar os portugueses para a importância de cuidar e preservar os recursos naturais, as terras e as gentes do Interior.

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Encontramo-nos com o grupo de Fazedores, na aldeia, junto do forno comunitário, a 22 de abril, dia que marcou a abertura oficial desta missão global. Explica-nos Paula Alves, porta-voz da associação, que a ideia “é ajudar a aldeia num outro modelo de repovoamento e de revitalização económica, não aquela que assenta no crescimento económico e que destrói todos os recursos do planeta, mais assente em valores e respeitadora do ambiente, das pessoas e das comunidades”.

Por outro lado, também querem recuperar o conceito de ciclo da dádiva, “dar sem nada esperar, promovendo a ligação à Terra, a nossa casa e que é partilhada entre todos, que acolheu a humanidade, e que em nenhum momento pôs uma placa a dizer «Vende-se» ou «Custa x»”.

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A passagem da associação não é alheia aos moradores da aldeia, caso de Lúcia, nos seus setentas, que são envolvidos na associação e nas suas atividades, havendo uma partilha de saberes e um convívio intergeracional importante, restabelecendo aquela que era a transmissão de conhecimento e, acima de tudo, sabedoria, de pessoa para pessoa, e que, segundo Paula, “se perdeu”.

Este ano as coisas ganharam novos contornos, e assume-se um grande desafio. “No ano passado tivemos uma iniciativa que durou um mês, de 22 de abril até 22 de maio, que foi o dia da biodiversidade, integrado no Fórum Terra. Este ano começámos no início a pensar como seria o Fórum, e vimos que poderíamos conseguir ir mais longe, mesmo assumindo toda a vontade das pessoas que nos acompanham”, referiu, dando conta de que o próximo desafio será a implementação de uma campanha nacional de mobilização para um Portugal a Cuidar da Casa Comum.

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Até 2019, a associação e todos os voluntários vão “preparar terreno. E Paula faz uso de uma analogia para explicar o processo. “Vais conhecer a terra, volvê-la, vais cuidar das sementes que já estão a eclodir, vais criar condições para que faças outras sementeiras e para que elas nasçam, e vamos todos, em conjunto, cuidar”.

Paula Alves (ao centro) junto de Bruno Fernandes, vereador da CM Vila de Rei e também colaborador neste projeto enquanto dirigente associativo da ADRC de Borda da Ribeira, Louriceira e Marmoural. Foto: mediotejo.net

Mas e esta ideia de “cuidar da Casa Comum”, em que consiste? Segundo a porta-voz deste movimento, “começa por cuidar dentro de nós, a cuidar da qualidade e da natureza das relações que estabelecemos uns com os outros, cuidar das nossas comunidades, das nossas aldeias, e a cuidar da natureza. Assim cuidamos do planeta”. E esse cuidar significa dar algo de si, do seu dia-a-dia, dos seus dons, para colaborar na preservação dos recursos naturais e endógenos do território. Por isso, o lema dos Fazedores da Mudança é “Faz simples, pequeno, com quem estás, onde estás, no fluir da vida”.

A pensar na grande mobilização nacional em do próximo ano, os Fazedores da Mudança pretendem “começar a reunir com gente em todo o país, identificar pessoas que estão a cuidar da Casa Comum, gestos simples. Pode ser limpar uma praia, fazer uma horta, deixar de utilizar herbicidas, pode ser cuidar da água e dos oceanos, identificar causas que ajudam a cuidar (…) que ajudam a chamar a atenção para problemas, caso da campanha nacional “Autarquias Sem Glifosato””, mencionou Paula.

«Queremos unir, criar pontes de diálogo e identificar o que em Portugal precisa ser cuidado»

Fazendo um mapeamento por todo o país, a associação quer levar por diante este “Portugal a Cuidar da Casa Comum” entre abril e maio de 2019, “com toda a gente mobilizada com forte impacto chamando a atenção para este desafio”.

E isto, não parece de todo impossível para Paula, uma vez que este ano, promovendo um evento de cariz nacional, chamado “Meditação Nacional com a Terra”, conseguiu aderentes em todo o país, num total de 47 locais identificados, de todos os distritos, Açores e Madeira. E isto em tempo recorde, e num registo de passa-a-palavra, de contactos, em prol da celebração e gratidão para com o planeta.

Momento integrado na Meditação Nacional com a Terra. Foto: Fazedores da Mudança

A aldeia de Água Formosa foi escolhida como sede desta associação, que junta já mais de 30 pessoas, e é também uma preocupação de todos pelo facto de, independentemente de integrar a rede de Aldeias de Xisto e estar potenciada em termos turísticos, sofre do flagelo do interior do país: é uma aldeia esvaziada de gente na maior parte de ano.

“Temos casas adquiridas por pessoas que vêm passar férias, mas o resto do ano… estão fechadas. E depois há pessoas que vivem cá, como a Dona Lúcia [que vive com o marido numa casinha no centro da aldeia] que vivem cá sempre, e que vão cuidando da aldeia o melhor que conseguem e das nossas terras também”, afirmou Paula, assumindo que é em honra do passado que se pretende fazer renascer e revitalizar a envolvente da aldeia, criando ali um projeto-piloto que mostre o ciclo da dádiva, na sua essência, num modelo de economia circular sustentável.

Projeto pretende construir Casa-sede da associação
Foto: mediotejo.net

Paula explicou ainda que os “Fazedores” Ivan e Teresa têm estado a trabalhar o projeto de reconstrução da casa, situada na Rua Manuel Antunes, adjacente ao forno comunitário restaurado e inaugurado numa parceria com a Junta de freguesia de Vila de Rei em junho de 2014, para que a associação possa ganhar “tecto”. O investimento previsto é de 100 mil euros, e aguarda benfeitorias e doações, quer de forma monetária, quer em materiais, prestação de serviços relacionados com a construção ou áreas similares. O que na associação se chama “partilha de dons”.

A ideia é reconstruir a casa “sem utilizar cimento, com as técnicas tradicionais”, e terá dois andares e um sótão. Será colocado isolamento de cortiça no interior, para melhorar a sua utilização no inverno, e a ideia é utilizar-se banhos secos, com o gasto mínimo de água, cujo aquecimento será feito através de uma caldeira ligada ao próprio forno comunitário”, explicou Ivan.

Há vontade para colocação de painéis solares na colina, também na senda da eficiência energética. A casa será constituída de uma sala para meditar e estar em silêncio, no piso de baixo é provável que surja a cozinha e a área de estar, para se poder comunicar com o espaço cá fora, e em cima existirão dormitórios, podendo receber 12 pessoas.

A associação procura benfeitores que possam colaborar na reconstrução deste espaço, que será sede e ponto de partida para desenvolvimento dos projetos. Foto: Fazedores da Mudança

A construção desta sede quer assentar na autossuficiência energética e dentro de uma economia circular, sendo que 900 metros quadrados de terreno vão ser cedidos à Fazedores da Mudança, para que possam iniciar os seus projetos de agricultura biológica, ajudando na manutenção das hortas antigas, que com a passagem dos incêndios, ficaram a descoberto e que demonstram potencial de cultivo.

“Temos casa para reconstruir, temos hortas para cuidar, e temos Portugal a Cuidar da Casa Comum para preparar toda a campanha de mobilização para o próximo ano”, terminou Paula Alves, porta-voz da associação.

A associação pondera que, após o evento de 2019, se possa chegar a um documento final, para a entregar à Assembleia a República, Presidente da República e todos os partidos políticos, e “convidá-los a olhar para os programas das próximas legislativas, com uma check list do programa Portugal a Cuidar da Casa Comum, e ver em que é que as suas ações cuidam da Casa Comum”, referiu.

Foto: mediotejo.net

Para além disso existe já uma Carta de Compromisso, que pretende alcançar as 10 mil assinaturas, e que consiste num texto em forma poética, e a ideia é que as pessoas subscrevam a carta assumindo um compromisso de algo que possam fazer dentro da missão de cuidar da Casa Comum. O documento foi entregue ao Papa Francisco na sua vinda a Portugal em 2017, mas vai ser ainda entregue a todos os líderes religiosos e políticos.

Saiba mais sobre esta associação e acompanhe a sua atividade quer através das redes sociais, quer do site.

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