Vila de Rei | Inventar uma vida verdadeira no Museu das Aldeias (c/fotogaleria)

Museu das Aldeias, Relva. Foto: mediotejo.net

Quem viaja por terras de Portugal não pode ignorar a curiosa toponímia que lhe vai passando ao lado. Relva foi a paragem do mediotejo.net. Qual a razão da aldeia ser Relva desta vez também nos passou ao lado. Tínhamos o Museu das Aldeias e o restaurante O Eléctrico em mente. Esperava-nos Aniceto da Silva Nunes, de 74 anos, e a sua família, responsáveis por um lugar único, no mínimo invulgar. E na expectativa deixámos Abrantes rumando a Norte pela Estrada Nacional 2 até Vila de Rei, depois o Centro Geodésico de Portugal e finalmente duas placas para a direita: a primeira indica Relva e outra restaurante. Dois quilómetros mais tarde chegámos ao destino que marcou para sempre o nosso entendimento sobre o que é um núcleo museológico etnográfico onde até o cheiro importa.

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Quem atravessa Vila de Rei e segue pela estrada que dá a Relva, depressa encontra este imaginário, feito aldeia, desadequado tanto quanto possível à ideia do que será neste Portugal profundo a conceção de um museu etnográfico. Longe das luzes culturais urbanas, naqueloutro País que não perdeu a simplicidade e o arrojo de tentar a arte com tudo o que encontra à mão, seja à venda numa desordenada loja de velharias seja condenado à morte num qualquer monte de lixo.

Mas nesta aldeia onde residem pouco mais de 20 pessoas formou-se ao longo de vários anos uma pérola de criatividade. Muito por causa dos objetos colecionados por Aniceto da Silva Nunes desde 1970, e da família que o acompanha no projeto do Museu das Aldeias, integrado que está numa quinta onde existe também um restaurante-bar, batizado de O Eléctrico. Na verdade são três comprados à Carris de Lisboa. Um adaptado para bar e escritório, outro exposto no jardim e um terceiro que funciona como um mini quarto de hotel apetrechado de casa de banho, aquecimento e outros equipamentos para que o conforto não falte a quem nele quiser dormir.

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“Soube que a Carris queria vender elétricos e comprei logo seis. Ficou mais caro o seu transporte até Relva do que o preço de cada um. Até tive de contratar uma grua”, recorda Aniceto da Silva Nunes.

Todo o espaço da Quinta funciona como uma espécie de parque temático, mas não é fácil determinar, com rigor, a que é que corresponde, tematicamente, o trabalho de Aniceto. A única coisa certa é tratar-se de arte inventada ou inventiva, colorida numa espécie de universo hippie.

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Museu das Aldeias, Relva. Foto: mediotejo.net

Após entrar na Quinta, de entrada livre, deparamo-nos com invulgares peças de arte nos caminhos e recantos que envolvem o restaurante e o edifício do Museu. Umas adquiridas, outras achadas e outras compostas com os materiais mais diversos desde caldeiras a berbequins.

Junto à porta de entrada do restaurante, um homem alado. “De autoria do arquiteto Siza Vieira. Em 1974 era o símbolo do aeroporto de Lisboa. Comprei-o há 20 anos a um sucateiro” conta Aniceto. Ao fundo de uma espécie de primeira avenida da Quinta encontramos uma estátua feita pelo empresário à imagem do Cristo-rei de Almada. “São 200 quilos de cimento com dois metros de altura” em cima de uma imensa coluna que lhe dá dimensão, explica.

Na outra ponta do jardim, junto ao lago que esperava ansiosamente pela chuva, um elefante construído a partir de pneus e velhos televisores, uma águia feita de grelhas de ferro e ferraduras, estátuas de homens e aranhas gigantes, motas forradas a caricas, robots, um golfinho com cauda de leque, cavalos e respetivos cavaleiros em ferro, uma árvore de velhas lâmpadas, outra de garrafas verdes, girafas e dromedários, e tudo o que o génio criativo daquela família permite.

A impressão que passa para o visitante, principalmente àquele que, de quando em vez, vai almoçar ao O Eléctrico, é que estas peças não encontram na cor, na figura ou na disposição a sua resolução final, tudo está em constante mudança. A cada visita, é ver Aniceto pelo jardim de máquina de soldar na mão e ideias a fervilhar na cabeça. Desta forma, a cada olhar, as peças vão sofrendo variações de espaço e de geometria.

Em tempos coabitaram com as esculturas animais verdadeiros como burros, vacas, cavalos e até avestruzes que terminado o seu ciclo de vida foram sendo materializados em obras de arte. A intensidade do trabalho a que obriga um complexo turístico de tal natureza aliado à lida rural dos proprietários determinou tal opção familiar.

A Quinta do Museu das Aldeias tem então gestação no passado atarefado de Aniceto que chegou a ser pedreiro, depois soldado na guerra de Angola, taxista e mais tarde empresário no ramo dos eletrodomésticos e das mobílias, dos conhecidos Darty Móveis Confiança. Tirou um curso de formação de rádio e televisão e com a idade de 50 anos iniciou a pintar e a experimentar expressões pictóricas. Em Lisboa prosperou financeiramente e quis regressar às origens, onde criou as suas próprias regras artísticas, que se refletem também no museu, aquele que foi o primeiro núcleo museológico do concelho de Vila de Rei.

Após 40 anos na capital, lá por 1994, Aniceto e a mulher, Edite, adquiriram uma propriedade à viúva de Manuel Xavier Tavares da Mata, descendente dos antigos capitães da Relva, com uma casa senhorial de três pisos toda em pedra, datada de 1630, na aldeia onde tinham nascido e pensavam enraizar morada. A Casa Grande, como era conhecida, é hoje o Museu das Aldeias. Iniciou-se então um processo “divertido e criativo” que arrastou toda a família para a construção do artístico complexo hoteleiro.

Aniceto da Silva Nunes, a mulher Edite e a filha Sónia no restaurante O Eléctrico na Quinta do Museu das Aldeias, Relva. Foto: mediotejo.net

A Casa Grande deixada às intempéries do passado estava, na zona mais antiga, em vias de ruir. Aniceto, mantendo a sua traça inicial, transformou-a para que albergasse a sua coleção etnográfica que acumulou ao longo de largos anos. Decidir mostrá-la baseou-se “na vontade de testemunhar a memória, estilos de vida e o engenho dos trabalhadores rurais” de outros tempos.

“Sempre tive atração por coisas antigas”, confessa Aniceto ao mediotejo.net. “Até no lixo encontrava peças e fui guardando”. Após o 25 de Abril “generalizou-se a ideia de que se era velho era para deitar fora e eu tudo o que encontrava apanhava”. Naquela época Aniceto não pensava em nada do que hoje tem em Relva. “Todos nos influenciamos uns aos outros” afirma a filha Sónia Nunes, responsável pelas pinturas nas paredes do restaurante e de algumas salas do Museu.

Após as obras de recuperação e conservação, a Casa Grande transformou-se num lugar de imaginação, de descoberta etnográfica e sensorial onde até o cheiro importa. Para a viagem ao passado sem máquina do tempo, o Museu das Aldeias está aberto ao público por 2 euros, das 10h00 às 18h00. Encerra à segunda-feira. “Antigamente a entrada era livre, mas os gastos de manutenção, limpeza e luz obrigaram-nos a repensar”, diz Aniceto.

No Museu, a primeira sala é a do barbeiro dentista. A segunda é do sapateiro, depois a do ferreiro, do carpinteiro e muitas outras profissionais hoje inexistentes ou em vias de extinção. Noutro piso há a sala do azeite, outra da rega, do poço e dos tanques, o curral com uma vaca empalhada. “Viveu aqui na Quinta e não quis que saísse daqui” explica Aniceto. Na sala ao lado as armas de caça, as malas porventura algumas de cartão e os utensílios usados na tradicional matança do porco.

Mais acima a sala da costura com modelos antigos pendurados, outra de música com piano e concertinas, uma biblioteca com um móvel onde estão expostas cédulas de um e dois centavos emitidas em 1921 e 1922 pela Câmara Municipal de Vila de Rei, no período que se seguiu à I Guerra Mundial. “Nessa época foram feitas cédulas (dinheiro de necessidade ou emergência) pelas câmaras municipais e casas comerciais, mas só a casa da moeda tinha autorização para emitir esse dinheiro, todas as outras foram emitidas à revelia da lei”, pode ler-se.

Nesse mesmo piso, a família Nunes tentou reproduzir, seguindo a memória de Aniceto, a decoração do solar nos tempos que era habitado pelos descendentes dos capitães da Relva. Como comprou a casa vazia, foram adquiridos móveis de época. A cozinha, a sala de jantar, uma sala de chá onde permanecem as pinturas de origem nas paredes e no teto, um quarto de dormir e uma reprodução da capela. Isto porque houve em tempos na Casa Grande uma capela ou oratório particular que era utilizada não só pela família da casa mas também pela população do casal, que ali se reunia à noite para fazer a oração.

No último andar uma sala escola, com dois pequenos quadros negros em ardósia, mapas e carteiras de madeira caraterísticas do modelo escolar dos tempos da ditadura. Ao lado, curiosamente, uma sala com brinquedos antigos, uma sala de fiação de linho, outra com rádios, gira-discos e velhos telefones. Nas paredes várias telas pintadas por Aniceto.

Independentemente de se perceber ou não a razão de cada peça exposta, o Museu das Aldeias é, acima de tudo, uma coleção de objetos que estariam perdidos para sempre, não fosse a iniciativa da família Nunes. Um espaço recriado ao sabor da imaginação e livre vontade do autor, pelo gosto de partilhar, consciente das suas raízes, com que uns se identificam e a outros suscita curiosidade.

Aniceto da Silva Nunes no bar O Eléctrico, no caso o que fazia o percurso de Xabregas para Madre Deus

Mas nem tudo é colorido no mundo da Quinta do Museu das Aldeias. Aniceto da Silva Nunes tem batalhado muito para manter aquele espaço aberto ao público. Um projeto que, passados todos estes anos, revela-se de sucesso apesar do isolamento do interior do País. “Há quem fique encantado, há quem critique”, mas a interioridade não lhes retira clientes. “É precisamente o oposto”, sublinha Sónia Nunes. “É a prova que não sendo um sítio de passagem as pessoas voltam” pela diferença e pela criatividade.

À capacidade criativa que fez nascer o projeto valeu-lhe a capacidade financeira da família Nunes, sem a qual aquele lugar simplesmente não existia. “Nunca ninguém nos ajudou ou apoiou financeiramente” garante Sónia. Foi a persistência e o caminho feito devagar que resultou naquele empreendimento.

Ter placas indicativas na estrada tem sido outra batalha (quase) perdida. Não há uma única placa a indicar o Museu das Aldeias na Estrada Nacional 2 embora Aniceto tenha mandado fazer e colocado uma, por várias vezes retirada. Cumpre agora a sua missão dentro da Quinta. “É ilegal. Uma estrada não pode ter publicidade privada” dizem-lhe primeiro na antiga Junta Autónoma de Estradas e agora no Instituto Nacional de Estradas, em Castelo Branco. “Se estivesse à beira da estrada podia anunciar o que quisesse mas não posso anunciar a quilómetro e meio”, desabafa.

Assim tem “a título provisório há cerca de 12 anos” uma placa na EN2 onde apenas se lê restaurante. E ‘O Eléctrico’, onde é cozinheira Edite Nunes, só serve almoços de terça a domingo, em serviço buffet aberto ao som de toque de corneta, com especialidades como bacalhau à lagareiro, coelho com gambas, dobrada ou cozido à Relva ou ainda leitão. Aos sábados e domingos Aniceto diverte-se a cantar no restaurante com um amigo, “tocador de concertina e chefe dos Correios” de Vila de Rei.

*Reportagem publicada em agosto de 2018, republicada em agosto de 2020

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