Vila de Rei | José Cardoso Pires, homem de palavra(s) até ao fim

José Cardoso Pires. Foto: DR

O ano de 2018 está associado a diversas efemérides e, em Vila de Rei, uma é a dos 20 anos da morte de José Cardoso Pires. O patrono da Biblioteca Municipal nasceu em S. João do Peso em 1925 e, apesar de se ter mudado cedo com a família para a capital, o seu nome ficou para sempre associado ao concelho. Homem de palavra e de palavras, com vida marcada pelos livros e a intervenção política que o levaram além-fronteiras e, por cá, aos calabouços da PIDE.

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A 26 de outubro de 2008 era inaugurada a Biblioteca Municipal de Vila de Rei, precisamente uma década depois do seu patrono, o José Cardoso Pires, ter falecido. A falta de saúde falou mais alto que o homem das palavras e o corpo cedeu a um ano de comemorar os 50 anos da primeira obra publicada, “Os Caminheiros e Outros Contos”. A esta juntaram-se quase duas dezenas até 1997, ano em que são editados “De Profundis, Valsa Lenta” e “Lisboa, Livro de Bordo”.

Em cima da mesa poderá ter estado a hipótese da inauguração ser marcada para o segundo dia do mesmo mês, como forma de assinalar os 83 anos do nascimento do escritor em S. João do Peso. Segundo os dados do INE – Instituto Nacional de Estatística, a localidade que os historiadores apontam ter surgido início do século XVII era habitada por cerca de 600 vilarregenses quando o este nasceu, número reduzido para um terço nos censos populacionais de 2011.

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Na freguesia que partilha fronteiras com os concelhos de Mação e Sertã haverá quem se lembre de José António Neves e Maria Sofia Cardoso Pires. O casal trocou a margem esquerda da Ribeira de Isna, afluente do rio Zêzere, pela proximidade do mar pouco depois de José Cardoso Pires ter vindo ao mundo. A casa, cujo chefe de família era oficial da Marinha, tinha outra morada associada a S. João. Não o do Peso, mas o bairro de S. João de Arroios.

Biblioteca Municipal José Cardoso Pires, em Vila de Rei. Foto: mediotejo.net

Os estudos fizeram-se na capital, juntando a formação primária da Escola Primária N.º 14, no Largo do Leão, à do Liceu Camões, onde as suas palavras começam a ser partilhadas com os leitores no jornal escolar “O Pinguim” através do artigo “As Aventuras do Mosquito Zigue-Zague”. Continuaram a ganhar forma durante o curso de Matemática na Faculdade de Ciências de Lisboa, que não concluiu, até ao primeiro conto, “Salão de Vintém”, publicado na antologia “Bloco”.

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Foi então que as palavras relegaram os números para segundo plano e as dos contos passaram a ser acompanhadas pelas ligadas à intervenção política. A mesma postura crítica que, mais tarde, o levaria a deixar a Marinha Mercante por suspeita de indisciplina, depois de ter navegado pelo mundo. A água também deixou as suas marcas onde nasceu e oito povoações de Vila de Rei desapareceram com a construção da Barragem de Castelo de Bode, entre 1946 e 1951.

Nesse período, José Cardoso Pires estreava-se como redator da revista “Eva” e fundava com Victor Palla a coleção de bolso “Os Livros das Três Abelhas”. A faceta de tradutor também surgiu, aproximando os leitores portugueses da “Morte de um Caixeiro-Viajante”, de Arthur Miller, e “O Pão da Mentira”, de Horace McCoy. Em 1949, uma nova estreia, a dos livros de contos em nome próprio com a publicação d’“Os Caminheiros e Outros Contos”.

Em 1966 estava longe das raízes beirãs e perto da inauguração da ponte Salazar, a ansiada ligação entre as cidades de Lisboa e Almada que começou associada ao Estado Novo e conquistou a liberdade do nome com o 25 de Abril. Uma mudança que José Cardoso Pires também celebrou depois de ter sofrido a repressão do regime na pele. Primeiro de forma ligeira com a censura e mais marcante no início dos anos 50, quando esteve detido três dias pela PIDE.

José Cardoso Pires em 1983. Foto: Carlos Gil

Tinha acabado de lançar o livro de contos “Histórias de Amor”, editado pela primeira vez em 1952, e a experiência não lhe prendeu as palavras. Dois anos depois tornava-se diretor das Edições Fólio e lançava a coleção “Teatro de Vanguarda” que incluía autores como William Faulkner e Samuel Beckett. Entre as que disse nesse ano estiveram o “sim, aceito” durante o casamento com Edite, do qual nasceram as filhas Ana e Rita.

Já em 1958, partilhava as do seu primeiro romance “O Anjo Ancorado” com o público e as da realidade social e política com os participantes do Congresso Mundial da Paz, em Estocolmo. Muitas outras surgiriam entre 1959 e 1961, enquanto esteve na direção da revista “Almanaque” e na qual se cruzou com Sttau Monteiro, Alexandre O’Neill, Vasco Pulido Valente, Augusto Abelaira e José Cutileiro. Função interrompida durante os meses passados no Brasil, afastado da repressão política de que ele e outros militantes do Partido Comunista eram alvo.

Até à data em que a ponte Salazar passou a fazer oficialmente parte da paisagem lisboeta, frequentou as redações do “Diário Popular”, do “Jornal do Fundão” e do “Diário de Lisboa”. Além da escrita de crónicas, suplementos e coordenação jornalísticas surgiam o ensaio “Cartilha de Marialva” e a peça de teatro “O Render dos Heróis”, ambos em 1960. No ano seguinte, participava no encontro clandestino de Escritores Peninsulares e passava a integrar a direção da Sociedade Portuguesa de Escritores.

As palavras com que foi conquistando os leitores continuaram a cruzar-se com as defendidas politicamente e juntaram-se às da área da publicidade, em 1962. Se, no primeiro caso, nunca se afirmou integrado num grupo literário. No segundo, sabia-se quem eram os seus parceiros. A censura continuava atenta, mas afastada dos livros, que regressaram com a publicação dos contos “Jogos de Azar”, em 1963, e da obra “Hóspede de Job”, com que conquistou o Prémio Camilo Castelo Branco em 1964.

O escritor na entrega do Prémio Camilo Castelo Branco. Foto: Hemeroteca Digital de Lisboa

Ainda a ponte Salazar não tinha completado um ano quando criou o núcleo português da Association Internationale pour la Liberté de la Culture, em 1966. Dois anos mais tarde, o irmão mais novo dos três que partilhavam família paterna de S. João João do Peso e materna de Cardigos (concelho de Mação), deixava a sua marca com “O Delfim”. Nos anos seguintes, o “Picoto” localizado na Serra da Melriça, deixou de assinalar apenas o Centro Geodésico de Portugal, mas o ponto de partida de José Cardoso Pires para o reconhecimento internacional.

Aos livros e à intervenção política juntou a docência no King’s College da Universidade de Londres, regressando para abalar Portugal com a sátira de “Dinossauro Excelentíssimo”. É por terras de Sua Majestade, em 1972, que surge “Técnica do Golpe de Censura”, o ensaio que cinco anos depois passava das palavras publicadas em inglês na revista inglesa “Index” para as em português com o título “E Agora, José?”.

Estava de regresso ao país e por cá ficaria. A repressão, pelo contrário, partia em 1974 e José Cardoso Pires assumia as funções de diretor-adjunto do “Diário de Lisboa” e de vereador da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, às quais juntou a de Presidente da Comissão Cultural em 1975. Em dezembro do ano seguinte, realizavam-se as primeiras eleições autárquicas depois da revolução e a sua terra natal passava a ter Hermínio Santos como presidente de câmara, eleito pelo Partido Social Democrata.

Chegavam os anos 80, consagrada com a publicação dos livros “A Balada da Praia dos Cães”, em 1982, e “Alexandra Alpha”, em 1987. Com eles vieram o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores e o Prémio Especial da Associação de Críticos de São Paulo (Brasil), que reconheceram o primeiro em 1983 e o segundo em 1989. Entre galardões, a “A Balada da Praia dos Cães” inspirava o filme com o mesmo nome realizado por José Fonseca e Costa, em 1987, e as palavras regressavam impressas com “A República dos Corvos”, em 1988.

Capa do livro “O Delfim”. Foto: DR

A última década do século XX trazia escondida a notícia de que seria, igualmente, a derradeira de José Cardoso Pires. Começou com o Prémio Internacional da União Latina, em 1991, e o Astrolábio de Ouro do Prémio Internacional Último Novecento da Comuna de Pisa, em 1992. Nesse ano troca as crónicas d’“O Jornal” pelas do “Público”, algumas das últimas compiladas na obra “A Cavalo no Diabo”, publicada em 1994.

Primeira metade da década de 90 pontuada por momentos altos. Descida abrupta na segunda em que o escritor sofreu um acidente vascular cerebral. No entanto, a persistência manteve-se até às últimas palavras publicadas em “De Profundis, Valsa Lenta” e “Lisboa, Livro de Bordo”. Estávamos em 1997 e a crítica continuou a reconhecê-las com o Prémio D. Dinis, Prémio da Crítica da Associação Internacional de Críticos Literários e o Prémio Pessoa.

Aquele com que a Associação Portuguesa de Escritores distinguiu a Vida Literária de José Cardoso Pires, em 1998, ficou marcado pelo fim dos romances, contos, crónicas, artigos, ensaios, peças de teatro, anúncios publicitários e intervenções políticas. Ficaram as palavras escritas para perpetuar a memória do escritor que nasceu em S. João do Peso 640 anos depois de D. Dinis criar o concelho de “Villa d’El Rey”.

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