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Sábado, Outubro 16, 2021

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Vila de Rei | Ephemera, o maior arquivo privado mais público de Portugal

Começou a quarta edição da iniciativa Encontros Documentais, em Vila de Rei, que trouxe na manhã desta quarta-feira o historiador e docente José Pacheco Pereira para apresentar o seu arquivo privado Ephemera. No primeiro dia da iniciativa, que acontece na Biblioteca municipal José Cardoso Pires, e que aborda o tema Património e Identidade Cultural em várias sessões, Pacheco Pereira frisou o “espanto que só existe nos objetos físicos”, ao passo que relembrou a importância da recolha das “coisas físicas” para a conservação da memória, pois “um povo e um país sem memória, morre”.

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Pacheco Pereira revelou a fórmula para o sucesso do seu arquivo, o maior arquivo privado e o mais público de Portugal, como o próprio carateriza. O segredo – que é também um dos slogans do movimento Ephemera – é “não deitem nada fora”. A este junta-se a imagem de uma pilha de livros, que em jeito de provocação, nota a complexidade da prática arquivística lendo-se “Se acha que o trabalho inteletual é leve, venha trabalhar connosco”, recordou.

O historiador reconheceu ainda que “os arquivistas às vezes torcem um bocado o nariz a esta história do ‘Não deite nada fora’, porque eles próprios têm que fazer a triagem. E de alguma maneira nós [movimento Ephemera] também fazemos a triagem”. Mas Pacheco Pereira insiste na pertinência deste slogan.

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“A experiência que temos, é que se as pessoas partirem do princípio que não deitam nada fora, se salvam coisas mais importantes”, assumiu, fazendo notar que “mesmo coisas que às vezes não parecem ter interesse imediato, acabam por ter com o tempo”.

Exemplos concretos desta premissa são algumas recolhas já feitas pelo responsável de Ephemera. “Contabilidade pessoal, correspondência amorosa, anotações… Existem coisas no arquivo que provavelmente ninguém guardaria: um diário de um rapariga mórmon em Portugal, que é uma coisa que não é comum, a correspondência amorosa que publicámos n’ O Amorzinho, que é talvez o maior sucesso editorial que temos, entre uma costureira e um empregado de escritório. Toda uma vida que está ali, e que foi encontrada literalmente no lixo!”, revelou Pacheco Pereira.

Foto: mediotejo.net

Quanto ao acesso ao arquivo com 5 km de prateleiras de Pacheco Pereira “está garantido” a investigadores, visto que se encontra numa casa particular, que já foi escola primária e antigo posto da GNR na Vila da Marmeleira, em Rio Maior. “Quando as pessoas precisam de alguma coisa, nós digitalizamos e enviamos, e há muita coisa que já está publicada”, informa.

O historiador de 68 anos acredita que a conservação da memória e identidade do país para que esta perdure no futuro e possa ser conhecida pelas gerações vindouras, depende muito deste tipo de iniciativa, uma vez que sem memória tudo se torna mais “pobre”.

“É muito importante porque a memória tem que ser acompanhada por coisas físicas. A memória dos homens morre com eles, a memória de certos eventos morre com as gerações que os viveram mas os papéis, os documentos, as fotografias e os objetos conservam essa memória para as gerações seguintes. E um povo e um país sem memória, é pobre”, afirmou José Pacheco Pereira.

No futuro, o historiador e também docente, refere que a intenção é fazer culminar este projeto “numa fundação que receba o património”, mas entretanto “estamos a criar uma associação cultural para gerir protocolos com universidades, que já temos”.

Enquanto isso não acontece, o Ephemera continua a ter o estatuto de arquivo privado, construído aos poucos por Pacheco Pereira, que tantas vezes teve de investir quantias consideráveis para que determinado espólio nacional não se perdesse pelo mundo. Mas a recolha continua, agora com centena e meia de voluntários envolvidos no projeto e com a criação de um site oficial.

Já existia um blogue para divulgação do trabalho desenvolvido e das coleções disponíveis e que iam sendo acrescentadas à biblioteca-arquivo, pelo que o mediotejo.net confrontou Pacheco Pereira sobre o conciliar das ferramentas desta era digital perante uma ação que é essencialmente física e material.

Em resposta, o próprio esclareceu que “eu chego a uma campanha autárquica e as pessoas dizem ‘Eu tenho tudo na Internet, eu mando-lhe’, e eu digo ‘Não, não, não! Eu quero a parte da Internet mas quero fisicamente os papéis’. Por uma razão: quando nós fazemos ou cedemos materiais para uma exposição, as pessoas ficam espantadas. E esse espanto só existe com os objetos físicos.”, justificou.

“A digitalização é um elemento muito importante, mas a conservação patrimonial  dos documentos é do nosso ponto de vista mais”, concluiu.

Foto: mediotejo.net

O projeto pessoal, que vem já de herança familiar do historiador, está cada vez mais próximo de todos quantos se interessem nele, não fosse Ephemera, segundo Pacheco Pereira, “o arquivo privado mais público de Portugal”.

Quanto aos Encontros Documentais, continuarão a decorrer, desta feita com os painéis dedicados aos “Museus”, dia 22 de fevereiro, e a 22 de março será realizada a sessão sobre o tema “Bibliotecas”.

O presidente da CM Vila de Rei disse ao mediotejo.net estar orgulhoso com a continuidade da iniciativa. “Este encontro já é o quarto, para mim e para Vila de Rei é um orgulho imenso, visto que está a ser um sucesso. Estão a vir técnicos profissionais da área das bibliotecas, dos museus e dos arquivos de todo o país, e enquanto presidente de câmara é um orgulho ver este encontro a crescer cada vez mais e espero que continue”.

Pode acompanhar toda a informação respeitante a esta ação organizada pela Rede de Bibliotecas de Vila de Rei e com dinamização da Biblioteca Municipal José Cardoso Pires, Arquivo Municipal e Museus de Vila de Rei, no blog oficial http://encontrosdocumentais.blogs.sapo.pt/.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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