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Sábado, Setembro 25, 2021

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Vila de Rei | André Farinha e a paixão pela natureza em bruto premiada na fotografia

Distinguido com prémios por fotografias que podem demorar oito horas a fotografar, André Farinha, um amante da natureza de Vila de Rei, foi mais além e transformou-se num fotógrafo do mundo. Descobriu essa faceta numa viagem que fez sozinho por 22 países. Depois foi a National Geographic que o descobriu e André nunca mais parou de fotografar.

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Há seis anos, a paixão de André Farinha levou-o a iniciar uma viagem numa “modesta carrinha” por esse mundo fora. Ficou por lá mais de um ano, sozinho, o homem e a natureza que quis registar. A National Geographic descobriu-lhe o talento e de quando em vez André vê o seu trabalho publicado na revista. Entretanto voltou para Portugal com uma ideia de negócio ligado às viagens e às fotos. Uma espécie de dois em um: Destinos que foi descobrindo, uns mais remotos que outros e onde sonhou levar pessoas para fotografarem locais já por si captados, agora com diferentes olhares.

O seu trabalho foca-se no meio ambiente e no compromisso ou ligação que diz ter com a natureza. “Muitas das minhas fotografias são isso mesmo; é uma paisagem. Mas no meio está um elemento humano para dar o contexto de harmonia” querendo passar a mensagem da necessidade de “cuidar” do planeta.

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A sua fotografia mais difícil foi, no entanto, à porta de casa, visualizada na sua cabeça durante cinco anos para conseguir captar tudo no sitio certo, em vários momentos certos, um deles perfeito, na Albufeira de Castelo de Bode. Essa imagem panorâmica do rio Zêzere é a junção de 152 fotografias. O resultado são 10GB de uma só fotografia.

Centro Geodésico de Portugal, em Vila de Rei. Créditos: André Farinha

Já a sua primeira foto publicada na revista National Geographic levou-o literalmente aos céus, no caso, dos Açores. Uma fotografia premiada, entre as melhores fotos do ano de 2015. André nessa altura era um militar da Força Aérea Portuguesa, ou melhor um meteorologista colocado no Arquipélago que aproveitou o local e o momento para captar a natureza em bruto. O resultado saiu-lhe bem.

André justifica a sua vocação por ter uma família ligada às artes. O jovem, que completou 29 anos precisamente no dia em conversou com o mediotejo.net, também tentou uma profissão artística, mas aos 18 anos, ávido de independência, decidiu tirar um curso de meteorologia esperançado que as constantes alterações meteorológicas o privassem da rotina, seguindo depois para trabalhar nos Açores.

Nas ilhas deparou-se “com aquela magia paisagística. Queria de alguma maneira registar aquilo e mostrar às pessoas. Afinal querem tanto viajar e conhecer sítios giros e a pouco mais de uma hora de viagem de avião temos um bocadinho de Portugal desconhecido para a maior parte dos portugueses”, conta ao mediotejo.net.

Nos Açores conheceu fotógrafos, mergulhou na paixão da imagem, tirou cursos e fotografou temas que lhe despertaram interesse. Em 2015, uma das suas fotografias foi nomeada como a quinta melhor fotografia do ano pelo Huffington Post e pela Sony World Photography Awards. A primeira a ser publicada na revista National Geographic Mundial.

“Uma fotografia noturna nos Açores, de longa exposição, uma star trail. Para a captação do cenário foram necessários cerca de 45 minutos”, detalha. Chamou-lhe ‘Searching Life’. A vida que procurou num clique, e que faltava para abrir a esperança de estar na câmara, na vocação e na paixão o seu futuro profissional.

Searching Life: Fotografia nomeada como a 5ª melhor fotografia do ano de 2015, a primeira a ser publicada na revista National Geographic Mundial. Créditos: André Farinha

Ver a sua fotografia na quinta posição “rodeada de tão boas fotografias foi um sentido de orgulho e de grande concretização” para “continuar a fazer cada vez melhor”, declara.

A despedida dos Açores não podia ser de outra forma senão de câmara na mão. “Essa foto demorou oito horas. Igualmente uma star trail em que regista o arrasto das estrelas no céu e cria um efeito circular porque estava a apontar para a estrela do Norte e todas se movem à volta da estrela do Norte à exceção da própria. A mais longa que alguma vez tirei”.

Mas foi em Sintra, dois anos mais tarde, onde percebeu que a meteorologia ficaria para trás. “Comprei uma carrinha modesta e comecei a criar, na parte de trás da carrinha, uma espécie de quarto” com os olhos postos no futuro e no mundo.

Algo receoso “peguei na minha carrinha parti sem destino. Sabia que queria ir ao Norte da Europa”. Sem rumo certo desenhou itinerários fotográficos para mais tarde “levar pessoas que tenham o mesmo interesse que eu” – no caso a fotografia e o vídeo – e mostrar os locais descobertos. No fundo uma viagem fotográfica com direito a workshop de fotografia onde André ensina “as melhores técnicas para fotografar aquele sítio”.

Durante um ano, André percorreu 22 países na sua carrinha, com muitas peripécias pelo meio, fez cerca de 50 mil quilómetros tendo passado mais tempo na Escandinávia do que em qualquer outro local onde esteve. Sendo certo que equipou a carrinha “com um pequeno quarto nunca pensei que fosse para viajar para tão longe nem com temperaturas tão baixas. Confesso que um dia acordei e estavam 27 graus negativos. Também foi uma aventura nesses aspeto: viver e sobreviver”, conta.

Incidentes guarda-os, então, aos magotes na gaveta das memórias desde deslizar no gelo a perder o controlo da viatura que conduzia, histórias ocultas para obter um resultado final. Quanto mais quilómetros palmilhava e se afastava de casa, mais temia que a velha carrinha se recusasse a prosseguir deixando a opção de “voltar a pé para casa”, temia. Tal não aconteceu.

Regressou a Portugal ao volante da carrinha e com a ideia das viagens fotográficas na cabeça. No inicio de 2020 iria começar a trabalha com uma empresa do Porto, mas entretanto chegou a pandemia e a proposta de emprego ficou suspensa. Recentemente foi contratado pela Papa-léguas para iniciar as viagens pelo mundo fora. “Estão planeadas viagens à Noruega num dos itinerários que desenhei, também viagens aos Açores e outras se a pandemia deixar”, refere.

Na sua viagem deixou-se prender pela consciência ambiental dos países nórdicos. “Identifiquei-me de imediato com a sua cultura e a parte ambientalista que transportam com eles. Fascinou-me! No caso da Suécia falamos de 10 milhões de pessoas num país talvez cinco vezes maior que Portugal onde a natureza é intocada, é tudo muito cru. É magnifica!”, recorda.

Após a ‘Searching Life’ outros contactos surgiram da revista National Geographic Portugal para outras fotografias. ”Foi nascendo um contributo. Talvez pelo lado ambiental das fotos, ainda que a revista não publique apenas fotografias ligadas ao ambiente. Acho que a National Geographic rege-se muito pela parte boa da fotografia, a técnica fotográfica, pela dificuldade, alguns momentos difíceis de captar”.

Para André Farinha essa “dificuldade” fotográfica pende-se com “os limites impostos a nós próprios. Se vejo um sítio que acho espetacular. Na minha cabeça começo de imediato a ver um cenário que seja idílico para captar. Às vezes ter esses elementos todos naquele momento certo da fotografia é complicado”, admite.

Razão que justificam os cinco anos que André demorou a fotografar o rio Zêzere a circundar as povoações na zona de Vila de Rei, na fronteira com o concelho de Ferreira do Zêzere. “Já tinha idealizado o sol naquele ponto, uma fotografia panorâmica aérea” à qual intitulou de Peaceful Discharge.

“A primeira vez que tentei não correu bem, depois já não estava o tempo que queria, tive de esperar mais um ano porque o sol só se põe naquele ponto naquela altura do ano. É tudo uma junção de elementos, num esboço criado mentalmente. É estar em harmonia com a natureza. Depois existem técnicas fotográficas mais complexas que vão muito além de fazer um clique” refere. No caso André levantou o drone e no total conseguiu juntar 152 fotografias. Uma delas captou com um raio que “fez o meu dia”, garante.

Foto de. André Farinha

O fotógrafo André Farinha, até pela sua juventude, cresceu na fase de transição da película (do analógico), para o digital que considera ter revolucionado a fotografia. “Tiro uma fotografia e em minutos uma pessoa do outro lado do mundo está a vê-la, logo vai dar-me exposição. Por isso aparecem muitos mais fotógrafos publicados. Antigamente eram sempre os mesmos nomes a aparecer nas revistas. O digital trouxe a possibilidade de nos expressarmos muito mais de forma global e não só local. Acho que é bom! E temos de saber aproveitar”, considera.

No entanto reconhece que “a democratização da fotografia” torna-a “mais instantânea e muito mais acessível a qualquer pessoa. Hoje em dia basta um telemóvel para registar o momento, fazer uma boa fotografia. Pode acontecer. É um mundo em que se torna mais desafiante e gosto de desafios” afirma, até porque “a fotografia não é feita de um clique é essencialmente feita de luz. A imagem até pode ser bonita, ter qualidade, mas a luz não ser perfeita. Hoje as pessoas têm de se tornar mais vigorosas na avaliação da fotografia”.

E se o motor dessa paixão arrancou na vontade de conhecer o mundo e na necessidade de transmiti-lo aos outros, a verdade é que André leva preocupações na mochila. A maior passa por “tentar tirar as melhores fotografias possíveis” independentemente das condições atmosféricas, faça chuva ou caia neve “tento sempre dar a volta. Trazer algum registo bom daquele sítio” da história que vive no momento. Para André essa é “a história mais importante: invisível aos olhos dos outros mas que conta o meu percurso, o trilho onde me perdi, as dificuldades para conseguir”.

No ranking dos locais “mais bonitos” que visitou elege Portugal para a terceira posição, muito por causa dos Açores, designadamente da ilha das Flores “o parque jurássico do planeta Terra porque é tudo gigante e intocado pelo Homem”. Em primeiro está o Norte da Noruega, as ilhas de Lofonten, e em segundo a região Norte de Itália, zona dos Dolomitas.

O trabalho de André Farinha foca-se no meio ambiente e no comprometimento ou ligação que diz ter com a natureza. Créditos: André Farinha

É por causa da preservação destas maravilhas naturais que André gostaria que “todas as pessoas ganhassem consciência sobre o mal que fazemos ao planeta Terra. Se pudermos evitar o lixo era um passo significativo no que toca ao meio ambiente”, opina.

André Farinha nasceu em Lisboa a 18 de fevereiro de 1992. Com 11 anos mudou-se para Vila de Rei e desde então considera aquele concelho do Médio Tejo como a sua primeira casa. Enaltece os pais como responsáveis “pelo melhor caminho” que tomou seguindo as suas linhas condutoras.

Em Vila de Rei afirma ter “mais coisas para descobrir” do que na “selva de betão” que encontra em Lisboa. Na realidade, a mudança teve como causa a sua saúde. “Tinha uns problemas de asma e o médico aconselhou, na altura, viver num ambiente mais puro”.

Escolheram Vila de Rei porque ambos os pais tinham ligações familiares no concelho. “Estamos no Centro do País, perto de tudo mas ao mesmo tempo longe de tudo. Numa hora e meia estamos em Lisboa em duas horas estamos no Porto, as vias rodoviárias facilitam e aqui estamos bem, no nosso cantinho”.

André Farinha que vive no concelho de Vila de Rei. Créditos: André Farinha

Para além da fotografia, que para André também é uma diversão, dedica-se cada vez mais ao vídeo. Mas contrariamente à primeira, a filmagem não é de câmara na mão, mas de câmara no drone. “São perspetivas diferentes. Construo o meus próprios drones e faço umas filmagens diferentes das habituais” que num futuro próximo serão reveladas, avança.

Apesar da pandemia gosta de estar com os amigos, que agora vê e conversa através das plataformas digitais ou à distância cumprindo as regras de segurança no caso de encontros casuais na rua. Admite que a pandemia lhe tem fechado algumas portas no mundo da fotografia mas por outro lado tem aberto portas no vídeo.

Com a covid-19 “algumas empresas tiraram proveito da pandemia para crescer e apostam na divulgação em vídeo. Tenho tido algum trabalho”, conta.

Na sua modéstia, André afirma não ser bom em nada mas confessa gostar de fazer de tudo um pouco por isso, se não fosse fotógrafo faria outra coisa qualquer ainda que ligada às artes. Justifica a “veia artística” com a sua vivência entre portas. “Sou um bocadinho como o meu pai que sempre demonstrou interesse em descobrir mais. Já a minha mãe fez escultura e pintura quando era jovem”, refere.

Autorretrato do fotógrafo André Farinha que vive no concelho de Vila de Rei. Créditos: André Farinha

Independentemente da velocidade a que corre o aparecimento de novas tecnologias, o futuro continua a passar pela fotografia, pelas viagens e também pela realização de vídeos promocionais, um lado profissional que descobriu recentemente e que manifesta “gostar bastante”.

Para já, idealiza um objetivo que passa por ser “um dos maiores nomes da fotografia em Portugal”.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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