“Vandalização de estátuas e a revisão da História”, António Matias Coelho

Nos últimos tempos assistimos ao alastrar de uma estranha moda de vandalizar estátuas de figuras históricas em locais públicos de diferentes partes do mundo. Para além do atentado contra o património coletivo que constituem, esses atos são absolutamente inaceitáveis porque trazem em si a ideia da revisão da História. Ora a História não se revê: faz-se. Podemos (e devemos) refletir sobre a História e aprender com ela para fazermos melhor, mas não temos o direito de tentar apagar o que aconteceu. E, muito menos, de julgar, com os olhos e os valores de hoje, atos, povos ou personagens de tempos e contextos completamente diferentes dos nossos. Se a moda pega, apaga-se a memória. Toda a memória, incluindo, qualquer dia, a do próprio tempo em que vivemos.

PUB

Esta estranha onda de vandalização de estátuas de figuras históricas foi desencadeada na sequência da morte do negro Georges Floyd, vítima dos abusos de um polícia branco, ocorrida nos Estados Unidos da América em finais de maio. Começou por ser associada à luta contra o racismo, mas depressa evoluiu para a contestação a outras formas de segregacionismo e depois contra a escravatura e o colonialismo em geral. Em dias seguidos fomos sabendo de mais uma estátua que tinha sido pintada ou decapitada ou deitada ao rio. Figuras tão diversas e de tão diferentes épocas históricas, como o navegador Cristóvão Colombo (séc. XV-XVI), o comerciante de escravos e filantropo inglês Edward Colson (séc. XVII-XVIII), o rei Leopoldo II da Bélgica, o fundador do movimento escotista Robert Baden-Powell e o primeiro-ministro britânico Winston Churchill (estes três dos séc. XIX-XX), foram alvo da sanha purificadora dos revisores da História à qual não escapou, sequer, o nosso padre António Vieira (séc. XVII), cuja estátua, num largo de Lisboa, foi também vandalizada.

Não há qualquer justificação para atos como estes. Não só não resolvem problema nenhum – porque o que aconteceu não pode nunca ser mudado – como, em geral, revelam uma imensa ignorância e uma não menor injustiça. Se Cristóvão Colombo não tivesse feito a viagem para a América, nem nenhum outro depois dele, é verdade que não se teriam cometido muitos atos aos nossos olhos reprováveis, mas o que seria o mundo hoje? Alguém pode negar a importância universal dessa primeira viagem a ligar o Velho Mundo ao Novo, iniciando, juntamente com as que fizeram os portugueses na mesma época, um sistema de relações e de trocas comerciais e culturais – com muitos aspetos hoje dignos de reflexão, é certo – que viriam a criar, num processo dinâmico e ainda em curso, o mundo global em que vivemos? E que dizer do padre António Vieira, jesuíta, um dos homens mais cultos do seu tempo, mestre da língua portuguesa e verdadeiro humanista, no pleno sentido da palavra? Se houve alguém que lutou pelos direitos dos índios do Brasil foi ele, como foi ele que teve a coragem de propor ao rei que fizesse uma lei a proibir a Inquisição de se apoderar dos bens dos judeus que a própria Inquisição perseguia – e, por esse atrevimento, perseguido acabaria também ele…

PUB
PUB

O que é que o vandalismo de estátuas revela? Basicamente duas coisas: uma grande ignorância da própria História que se pretende corrigir, como se isso fosse possível; e a ideia peregrina de que, vandalizando uma estátua se apaga a História, como se ela nunca tivesse acontecido. Ora o Passado – que, com o que gostamos e o que não, com o que nos agrada e o que nos incomoda, com aquilo com que nos identificamos e com que não –, o Passado já foi. E, seja qual for o nosso posicionamento ou a nossa perspetiva, é património coletivo, e por isso merecedor de respeito. Dele podem fazer-se diferentes análises, podem usar-se diferentes abordagens, podem tirar-se diferentes leituras – mas apagar não.

O vandalismo de estátuas revela, ainda, uma outra coisa: um certo sentido justiceiro de quem entende ser detentor da verdade, da única e incontestável verdade, e se sente no direito de, unilateralmente, a impor a todos os outros. E isso é, a meu ver, muito preocupante. Até porque essa presunção, que parece vir ganhando força em muitos lados e também entre nós, não diz respeito apenas à revisão da História: aplica-se em muitos outros domínios da vida, coletiva ou individual, cada vez que alguém se arroga o direito de decidir, por si, o que é bem e o que é mal e se entende legitimado para impor o que lhe parece bem e varrer da face da Terra o que lhe parece mal. Era mais ou menos com princípios assim que funcionava a Inquisição…

PUB

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here