“Valentina”, por Vasco Damas

Fui um daqueles que ficou maldisposto no domingo de manhã. Pela confirmação da notícia triste já esperada mas não desejada e pelos contornos desumanos e antinaturais que alegadamente estiveram na sua origem. Maldisposto como fica qualquer pai que se sente pai e que sente um filho como parte de si. Mesmo aqueles pais que por estes dias vivem à beira de um ataque de nervos e que fazem questão de partilhar esse estado de espírito.

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Depois da má disposição, comecei a sentir-me invadido por uma tristeza em forma de desilusão. Desilusão nas nossas instituições e na nossa sociedade. Desilusão na CPCJ. Aquela que, apesar dos sinais de alerta, não fez o que tinha de fazer para evitar que isto acabasse por acontecer. A mesma CPCJ, tantas vezes criticada por ir além daquilo que achamos razoável. A mesma que provavelmente seria criticada se antecipasse cenários e fizesse aquilo que tinha que fazer para evitar aquilo que inevitavelmente, sabemos agora, acabaria por acontecer.

Desilusão também na sociedade. Naquela que é constituída e construída por todos nós e que se demite da sua responsabilidade, ignorando os gritos de alerta ou fingindo que não os ouve para lá das portas que se fecham, recusando a sua ajuda e condenando prematuramente, os mais frágeis e indefesos.

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Desilusão na sociedade que julga a ação sem espiar a sua inação. Na mesma sociedade que se revela sanguinária, mostrando que é mais parecida com os que atacam do que com aqueles que precisam de se defender. Daquela que clama por justiça mas que nada faz para se antecipar à injustiça.

Começo a perder a esperança num futuro melhor e desisto de acreditar que este episódio tenha funcionado como um murro no estômago para nos deixar mais atentos e para que nos envolvamos e sintamos a obrigação de denunciar outros episódios que, como este, se replicam mais vezes do que imaginamos neste nosso pequeno retângulo à beira-mar plantado.

Sejamos realistas e deixemo-nos de hipocrisias. Passada a comoção provocada pela emoção, todos esqueceremos a Valentina e não queremos saber de “outras Valentinas” que vivem diariamente indefesas na companhia de monstros que transformam as suas vidas num inferno vivido na terra.

Continuaremos a ser críticos em relação ao que se fez ou ao que ficou por fazer. Quase sempre em reação, quase nunca em proação porque somos bons nas análises mas medíocres nos diagnósticos. Continuaremos a reagir irracionalmente porque temos dificuldade em agir racionalmente. É assim que éramos, é assim que somos e, infelizmente, é assim que continuaremos a ser.

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