“Um guarda-chuva para o coração”, por Berta Silva Lopes

Créditos: Unsplash

Chovia assim-assim quando saímos de casa, já ligeiramente atrasadas, no primeiro dia de aulas. Ainda não era bem um temporal, apenas uma chuva miudinha, daquelas que tanto pode transformar-se num bonito arco-íris como num imenso aguaceiro, mas choveu muito durante todo o caminho até à escola e ainda mais enquanto me preparava para as deixar. Oxalá já tivessem inventado um guarda-chuva para abrigar o coração.

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Desconfio que até os pais mais otimistas, aqueles cujos dias têm sempre um raiozinho de sol, mesmo que seja inverno, troveje, faça vento e chuva, mesmo esses, este ano, terão seguido para casa, ou para os respetivos trabalhos, com o peito encharcado. Não há abrigo que nos proteja desta chuvada, desta ansiedade feita cacimba, granizo, ciclone. 

Que bom seria se pudéssemos mandar no tempo, todos os tempos, nas suas variáveis meteorológicas, temporais, cronológicas, ou então esquecer todas as angústias, deixá-las por aí encostadas a uma qualquer parede anónima, tão naturalmente como quando se perde um guarda-chuva, esquecido algures num táxi, num cabide, numa pastelaria; só porque voltou o sol. E ainda assim, que bom seria isso nunca acontecer, já que mais tarde ou mais cedo hão sempre voltar os dias nebulosos. Às vezes só por fora, outras por dentro, e outras ainda por fora e por dentro. Este ano o Outono chegou mais cedo e o mundo encolhe-se perante o Inverno que aí vem. Será longo e difícil, alertam os especialistas. A ver se somos capazes de nos proteger.

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Li há dias que numa vila no distrito de Alappuzha, em Kerala, na Índia, fora distribuídos cerca de 10.000 guarda-chuvas com o objetivo de ajudar os moradores locais a manterem o distanciamento social. “Esperamos que as nuvens da covid-19 possam desaparecer em breve, mas durante o verão e nos próximos dias de chuva vamos manter o distanciamento social ao abrir um guarda-chuva”, disse Jyothi, presidente da vila de Thannermukkom. A tempestade é mundial. 

Gosto muito de guarda-chuvas, na verdade, e especialmente de guarda-chuvas com bolinhas, não importa a cor. É uma paixão antiga, quase tão antiga quanto a história das sombrinhas. Bom, pensando bem, talvez esteja a exagerar, até porque as sombrinhas já levam vários milénios de avanço.

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Abro, sobre isto, um parêntesis: Segundo a escritora e historiadora Marion Rankine, autora do livro Brolliology: A History of the Umbrella in Life and Literature, já no segundo milénio a.C. a sombrinha fazia parte da vida de egípcios e assírios, entre outros. Há quem defenda que a mesma foi inventada na China há quase 4.000 anos, feita de madeira, bambu e tecido, sendo um objeto usado exclusivamente por gente nobre e abastada para se proteger da luz solar. Já o guarda-chuva é bem mais recente. Embora sem certezas, Rankine defende que foi no final do século XVI, quando a sombrinha se tornou conhecida na Europa, que o guarda-chuva surgiu no Ocidente. Porém, só dois séculos mais tarde, quando o escritor britânico Jonas Hanway começou a usar o acessório constantemente, é que o guarda-chuva se popularizou. E hoje, ao que parece, só nos Estados Unidos são vendidos mais de 33 milhões de unidades por ano. Fecho parêntesis. 

O fascínio começou quando andava na Escola Primária, e muito por causa do Espanhol, o pastor da aldeia que vivia a pouco metros dos muros que limitavam o recreio. Mas essa é outra história, fica para a próxima crónica. 

Entretanto fui ver as previsões do tempo para os próximos dias. O sol está de regresso em breve, felizmente. Pode ser que até lá ainda descubra um guarda-chuva para abrigar o coração. Manual, automático, dobrável; tanto me faz. 

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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