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Quarta-feira, Julho 28, 2021

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“Turquemenistão e o Presidente que queria ser Khan”, por Tiago Ferreira Lopes

Do Leste para o Este

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O Presidente do Turquemenistão assinou ontem um decreto presidencial no qual se lê que no dia 8 de Março, Dia da Mulher, as mulheres Turquemenas receberão um cheque-presente no valor de 40 manat (cerca de 10€). Um acto de generosidade pela parte de um Presidente cujo nome consegue ser mais difícil de pronunciar do que o do país a que preside: Gurbanguly Berdimuhamedow.

Ora o generoso Presidente Berdimuhamedow é Chefe de Estado desde 2006, tendo sucedido ao Presidente para a Vida, que chefiou o Turquemenistão entre 1985 e 2006 e, também ele, dono de um nome pouco atreito ao linguajar português: Saparmurat Atayevich Niyazov. Berdimuhamedow é não só Presidente mas também, desde o ano passado, “Arkadağ” (Protector da Nação).

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O Presidente-Protector, que venceu as eleições presidenciais de 2007 com quase 90% dos votos e as de 2012 com mais de 97%, encabeça um dos regimes mais repressivos da Ásia Central, onde escasseiam regimes brandos. A liberdade de imprensa é ilusória, os mais básicos direitos sociais e políticos uma utopia e os direitos humanos são feitos de cristal. Ao mínimo achaque presidencial estilhaçam-se em mil pedaços…

TurquemA falta de interesse do regime comandado pelo Arkadağ em garantir padrões mínimos de segurança humana, ou em reduzir as gritantes desigualdades sociais, é compensada pelo zelo extremoso, de todo o aparelho do Estado, no culto da personalidade do Sr. Presidente. O Arkadağ acha-se tanto Khan, quanto Sisi se acha Faraó e Erdoğan Sultão.

Justiça seja feita a Berdimuhamedow, o culto da personalidade da sua Presidência é menos excêntrico do que o do  seu antecessor. Niyazov, por exemplo, mudou em Agosto de 2002, por decreto presidencial, os nomes dos meses e dos dias da semana. Janeiro passou a ser Türkmenbaşy (título honorífico que Niyazov conferiu a si mesmo) e Abril passou a ser Gurbansoltan, em homenagem à sua mãe.

E se é verdade que em 2008, o Arkadağ reverteu os meses e dias da semana à nomenclatura original, também é verdade que o ano passado Berdimuhamedow presenteou Asgabat (capital do Turquemenistão) com uma estátua feita de bronze e revestida a ouro de 24 quilates, figurando ele mesmo (Berdimuhamedow) montado num cavalo, no topo de uma montanha feita de mármore. Um pequeno espectáculo visual de 20 metros!

People gather for the monument unveiling ceremony in Ashgabat, Turkmenistan Monday, May 25, 2015. The isolated energy-rich Central Asian nation of Turkmenistan has unveiled a gold-leafed statue of the president in a gesture intended to burnish the leader's burgeoning cult of personality. The 21-meter monument presented to the public Monday consists of a statue of President Gurbanguly Berdymukhamedov atop a horse mounted on a towering pile of marble. (AP Photo/Alexander Vershinin)
People gather for the monument unveiling ceremony in Ashgabat, Turkmenistan Monday, May 25, 2015. The isolated energy-rich Central Asian nation of Turkmenistan has unveiled a gold-leafed statue of the president in a gesture intended to burnish the leader’s burgeoning cult of personality. The 21-meter monument presented to the public Monday consists of a statue of President Gurbanguly Berdymukhamedov atop a horse mounted on a towering pile of marble. (AP Photo/Alexander Vershinin)

O Turquemenistão faz parte daquele grupo de países perante os quais o olho crítico da União Europeia, tão afoita em apontar o dedo a Atenas ou a Sófia, se torna turvo. Isto porque os tão propalados planos da União Europeia de garantir independência energética da Rússia “má” liderada por Putin, dependem em larga escala da vontade e dos recursos energéticos, do Turquemenistão (bom?) do Arkadağ.

O Turquemenistão possui a quarta maior reserva de gás natural de todo o mundo, o que permite por exemplo que os Turquemenos não paguem por gás ou electricidade desde 1993. Nada como uma boa reserva de gás natural para baixar o volume da voz da tecnocracia de Bruxelas, ou mesmo para serenar o dedo acusatório de Washington. É aliás interessante como os EUA acham conveniente ter em  Asgabat uma unidade do “Corpo da Paz” e do USAID…

Não me entenda mal o leitor, acho fantástico que a União faça um esforço para desenvolver parcerias com países como o Turquemenistão, o Azerbaijão e o Cazaquistão. Não acho é lá muito consistente e coerente que se ignorem os traços e trejeitos destes regimes sultanistas e que ao mesmo tempo se tenha sempre a voz pronta e o dedo em riste apontado à Rússia, a cada passo dado por Putin. Ou bem que somos coerentes, ou bem que não somos nada…

 

Professor Auxiliar no IBA (Paquistão), licenciou-se em Comunicação Social na Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA-IPT), cidade onde cresceu e viveu até aos 22 anos. Doutorado em Relações Internacionais (ISCSP-UL), colabora com vários centros de investigação internacionais. É autor da coluna “Cadernos do Tiaguistão” publicada na revista PACTA (ISCSP-UL, Lisboa), autor-residente da revista MindThis (Canadá), editor de opinião para a revista think.act.lead (Eslováquia) e editor-chefe do SOJRS (Turquia).
Escreve no mediotejo.net ao domingo, quinzenalmente.

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