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Domingo, Julho 25, 2021

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“Trutas”, por Armando Fernandes

Rápida incursão à Puebla de Sanábria a fim de verificar o estado actual do land-art lá existente, ainda de voltar a contemplar o Lago incrustado na montanha cujo pico exibia grossos retalhos de neve. As tranquilas águas, a floresta e a montanha só por si merecem visita.

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Aquele território é uma zona de trutas, no entanto, manda a prudência demandar o restaurante certo se queremos apreciar trutas «das de certo» caçadas após luta porfiada e não as primas, trutas alimentadas à ração, mais adiposas, menos saborosas. E, por isso, fomos ao restaurante O Geadas sito em Bragança, na Rua Damasceno Campos.

Neste restaurante a amesendação é praticada de modo a o cliente dar por bem empregue a deslocação propositada para o efeito, desde a correcta e qualificada apresentação das mesas, até à composição da carta de comeres onde não faltam as especialidades locais, até à garrafeira dotada de vinhos provindos de várias regiões e reconhecida qualidade.

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Pois, mal chegados indaguei se as afamadas trutas de pinta vermelha constavam da ementa, disseram-me que sim, estão depositadas num pote embebidas em auspicioso molho de escabeche. Relativamente às trutas os pescadores de fazer malha reconhecem as dificuldades em as enganar, literatura de várias proveniências insere técnicas capazes de contrariarem a sua reconhecida astúcia, tanta, que escritores de primeira apanha as consagraram nos seus livros, Roger Vailland escreveu A Truta, rapazes de olho vivo ao verem mulheres bonitas elogiam-nas chamando-lhe…trutas.

Voltando à refeição a mesma iniciou-se com a apreciação de suculentas alcaparras (azeitonas sem caroço, levemente esmagadas e acolitas por filamentos de cebola crua), presunto finamente fatiado, rodelas de salpicão e centeio frito em bom azeite. Um fartote de sapidez!

Antes da lindas meninas sarapintadas obriguei-me a degustar três (apenas três) postas de sável conservado em escabeche como a antecipar a chegada das ditas cujas trutas que surgiram sobre a mesa numa travessa sem a companhia das batatas cozidas que vieram noutra.

Uma truta no prato, alguma cebola rijada, molho espesso, uma batata cozida cortada ao meio, depois lento aglutinar dos conteúdos comestíveis, sem pressas, de vez em quando, vinho tinto oriundo das vinhas de Valpaços a acompanhar. E, mais uma truta…

Se o queijo curado é referência obrigatória o mesmo tenho de escrever relativamente ao pudim de castanhas e leite-creme bem passado a ferro.

No pós prandial, a beber glamoroso single malt de idade a permitir-lhe fazer o serviço militar, voltei a elogiar as trutas lembrando pintores e escultores que lhe consagraram obras, os circunstantes replicaram salientando a alta qualidade da vitela, o puré de maça e as carnes de porco bísaro.

Não lhes posso levar a mal, gostam de carniça. Se eles soubessem quão fino e delicado é o sabor de uma truta habituada a nadar nas águas límpidas e frias, habituada a ingerir abelhas e vespas repletas de pólen, insectos de dieta e moscões distraídos, também carregariam nos ditirambos em sua honra.

Armando Fernandes

O restaurante está aberto todos os dias. Aceita cartões de crédito.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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