Segunda-feira, Dezembro 6, 2021

“Tropel de sabores”, por Armando Fernandes

Goste-se ou não, a cozinha portuguesa apostada na criatividade e inovação anda nas bocas do Mundo porque os seus chefes e cozinheiros têm sabido trabalhar de modo a as bocas dos apreciadores de comida bem-feita e apresentada em consonância fiquem deliciadas, a lamberem os beiços, desculpem, queria escrever lábios.

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Se no Festival de Gastronomia houve ensejo para tal, há duas semanas realizou-se em São José da Califórnia novo acontecimento gastronómico de grande efeito gustativo e feérico provocados pelo talento por um restrito número de «artistas» dos fogões, dos tachos e panelas, dos produtos da sazão, genuínos, frescos e sem sombra de defeito.

Apesar de ainda não estar completamente refeito do tropeção que a minha saúde sofreu, vou acompanhando e participando dentro do possível as manifestações gastronómicas em curso. A próxima prende-se com o projecto Cozinhas do Tejo, em toda a sua extensão e elemento civilizacional ao longo dos séculos.

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A grande corda de água, autoestrada aquática até ao florescimento do caminho-de-ferro e rodovias, só por si merece um livro assim o disse o notável humanista do Renascimento, André de Resende, autor de As Antiguidades da Lusitânia. Será o elemento principal de uma receita que terá como ingredientes as sápidas riquezas vegetais e animais que no seu leito e nas margens ainda conseguem sobreviver à poluição e outras maldades e como condimentos as especificidades colhidas a trazidas para o acontecimento pelos chefes e cozinheiros do território envolvente.

As cozinhas do Tejo detêm particularidades imanentes à sua própria descida à procura do mar, antes da História os povos de então deixaram arte rupestre e os concheiros (comida) de Muge a assinalarem a sua presença, da História escorrem guerras, devastações, catástrofes, cheias, secas, naufrágios e demais registos a atestarem a formidável herança que o rio nos legou e continua a legar. Pois a ideia é recuperar receitas e pedir aos cozinheiros de agora o favor de lhe concederem o seu cunho pessoal. Da valorização à internacionalização passando pelo constante enaltecimento da marca TEJO.

Neste tropel de bons episódios culinários os pontos de referência referentes à saliência dos restaurantes e casas de comeres é outra constante das Edições do Gosto, no tocante a bom gosto façam o favor de ler a revista INTER, dessas mesmas edições.

E, porque não há duas sem três, o projecto da Carta Gastronómica do Ribatejo prossegue, nesta fase dedicado às terras da Lezíria, onze concelhos, na segunda serão os concelhos da Comunidade Intermunicipal a serem objecto de estudo e levantamento do seu património imaterial e material relativo a: porque comemos, o que comemos, onde comemos, com quem comemos, quem fez e faz a comida? Interrogações pertinentes a obrigarem a consequente investigação e estudo.

O tropel não faz ruído, faz a obrigação!

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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