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Sexta-feira, Dezembro 3, 2021
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Tribuna do leitor | “Outra vez as mesmas asneiras?”

O espaço “Tribuna do Leitor” é destinado a dar voz aos leitores que queiram apresentar as suas opiniões ou os seus comentários. Os textos são reproduzidos na íntegra e são da responsabilidade dos signatários. Escreva-nos para tribuna@mediotejo.net.

Por António Rebelo

“Em resultado de inquéritos realizados aos seus associados, a NERSANT – Associação Empresarial da região de Santarém iniciou o encontro “Viver o Tejo” desta quarta-feira, 15 de novembro, a defender a criação de uma entidade de turismo do Ribatejo. A divisão da região, que engloba sensivelmente o distrito de Santarém, entre Turismo do Centro e o Turismo do Alentejo não agrada aos empresários, que defendem outra solução para a estratégia de turismo a nível regional.”

Garanto que tive de ler duas vezes, para me certificar que não estava a ver mal. Que se tratava mesmo de uma notícia publicada aqui e não de uma visão, ou de mera brincadeira. Isto porque me recordo bem do sucedido nos idos de 80 do século passado. Em Tomar governava a AD, liderada por Amândio Murta e em Santarém o PS, com Ladislau Botas na presidência. O vereador com o pelouro do turismo nas margens do Nabão, Alberto do Rosário Pereira, veio ter comigo, nessa altura deputado municipal na bancada do PS, pedindo para o ajudar em Santarém, onde ia realizar-se uma reunião com todos os municípios do distrito, para debater a formação de uma comissão regional de turismo. Alegou que não se sentia preparado em tal matéria e por isso me solicitava assessoria técnica, uma vez que se tratava de algo em prol de Tomar.

Falei sobre o assunto com Fernando Oliveira, da APU (agora CDU), que na altura dirigia várias autarquias do distrito. Perguntou-me qual a minha posição. Simples ajuda como técnico, para defender que, a haver uma comissão regional de turismo no distrito, a sede deverá ser em Tomar e nunca com a designação “do Ribatejo”. Caso contrário, Tomar não fará parte. O representante da CDU pediu para pensar, prometendo uma resposta para o dia seguinte.

Obtido o apoio dos comunistas, “podes ir descansado que os autarcas CDU não te apoiam mas também não te atacam”, disse-me o Fernando Oliveira), lá fui com o vereador Rosário Pereira, do PSD, até aos Paços do concelho de Santarém.

Os autarcas socialistas presentes ficaram muito surpreendidos, uma vez que eu integrava na altura a Comissão política distrital do PS, mas sossegaram quando lhes disse que estava ali apenas como assessor técnico do vereador Pereira. Infelizmente este, pouco depois de começar a reunião, alegou que tinha de ir para Lisboa,  assistir a uma aula do curso de direito que então frequentava.

Fiquei portanto sozinho e numa posição ingrata, pois sendo do PS estava ali para defender a posição da AD.

Quando tive de intervir, referi em síntese, com o apoio de vária documentação nacional e estrangeira que antes reunira e tinha comigo, que só havia no distrito de Santarém dois centros turísticos dignos desse nome: Fátima, no concelho de Ourém e Tomar, por causa do Convento de Cristo. Houve naturalmente alguma contestação, à qual procurei responder fazendo ver que Santarém apenas era conhecida além fronteiras ali pelas bandas de Badajoz e da Andaluzia, devido a afinidades culturais (tauromaquia, grandes propriedades, criação de gado bravo, por exemplo), pelo que não se justificava um organismo regional de turismo sediado em Santarém e, em qualquer caso, Tomar nunca faria parte dele, por estar noutro nível.

Tempos depois, vim a saber que tinha sido decidida em Lisboa a criação de duas comissões regionais de turismo. Uma com sede em Tomar, outra em Santarém. Soube disto porque o ex-presidente e então vereador PS, Luís Bonet, veio falar comigo no café Pepe, confessando que no executivo estavam com dificuldades para encontrar um nome para a comissão regional de turismo a criar em Tomar.

Mais uma vez aceitei ajudar, em prol da minha terra. Escrevi num guardanapo de papel três hipóteses de designação para o novo organismo oficial: A – Comissão Regional de Turismo das Albufeiras; B – Comissão Regional de Turismo da Floresta Central; C – Comissão Regional de Turismo dos Templários. Para grande surpresa minha, a designação oficial definitiva veio a ser “Comissão Regional de Turismo dos Templários, Floresta Central e Albufeiras”. Olha se, em vez de três, tenho indicado meia dúzia de hipóteses!

A partir daí, quando começou a haver orçamento folgado, muitos se penduraram, alguns durante anos. Até um que mais tarde foi ministro e deu que falar. Mas nunca mais precisaram da minha ajuda. Pudera! Com tanto dinheiro público à disposição…

O resultado final é conhecido. Em simultâneo, Santarém tinha liderado a formação da Comissão Regional de Turismo do Ribatejo, naturalmente ali sediada. Havia portanto dois organismos gémeos no distrito, mas nem um nem outro conseguiram fazer obra ou sequer deixar boas recordações, excepto para aqueles que souberam aproveitar-se do excessivo liberalismo lisboeta. Até que, salvo erro, um governo liderado pelo PS, resolveu acabar com a mama, extinguindo as dez comissões regionais de turismo existentes no país, que foram reduzidas a cinco, uma por cada região-plano: Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve.

Mais uma prova de que quem defende o Ribatejo geralmente não sabe estar. A entidade regional de turismo é do Alentejo, mas Santarém já obteve o acrescento de Ribatejo. Agora imagine-se que na Entidade regional de Turismo do Centro, da qual faz parte, Tomar exigia a menção “e dos Templários”. Era um escândalo, não era? Mas tratando-se de Santarém… E mesmo assim não estão contentes. Sonham com o regresso do “brinquedo de Carlos Abreu”, entretanto falecido. Há coisas que nunca mudam.

Vem agora a NERSANT dizer que os membros daquela associação empresarial lamentam a divisão do distrito, uma vez que a Lezíria do Tejo, liderada por Santarém, aderiu ao turismo do Alentejo e o Médio Tejo, onde pontifica Tomar, ao Turismo do Centro. Pois foi. E quem terá dito aos associados da NERSANT que Tomar e  o Médio Tejo têm alguma coisa a ver com o Ribatejo em termos turísticos? Há na Entidade de Turismo do Centro, quatro conjuntos monumentais com o selo de qualidade Património Mundial ou da Humanidade (Alcobaça, Batalha, Coimbra e Tomar). Na área da agora reivindicada Entidade regional de Turismo do Ribatejo, há quantos? Nenhum.

Seria portanto totalmente ridículo se, na área da promoção turística, quatro décadas depois, tudo recomeçasse na estaca zero,  para dentro de alguns  anos  se chegar de novo à conclusão, sempre constatada nos factos, porém nunca assumida, que o problema desta e de outras regiões turísticas do País foi e é afinal o excesso de boys à procura de tacho e a evidente falta de gente preparada e competente.

A actual líder da NERSANT e a respectiva massa associativa são jovens. Quiçá não conhecessem estes detalhes pouco brilhantes da história local e regional. Por isso aqui fica a informação, subscrita por um dos protagonistas, que nada auferiu para além da satisfação de servir a sua terra. Em vão, mas a culpa não foi dele.

(Para aqueles leitores que eventualmente ignorem alguns detalhes da vida do autor, esclarece-se que António Rebelo, além de professor, foi Profissional de informação turística, com a licença n.º 159, tendo-se mais tarde doutorado em Economia do Turismo, na Universidade de Paris VIII. Foi também o principal autor do projecto de candidatura do Convento de Cristo a Património da Humanidade, aprovado em Friburgo (Suíça), em 1983).

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