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Sexta-feira, Janeiro 21, 2022
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Tribuna do leitor | Abrantes e a problemática dos incêndios florestais em 2017

O espaço “Tribuna do Leitor” é destinado a dar voz aos leitores que queiram apresentar as suas opiniões ou os seus comentários. Os textos são reproduzidos na íntegra e são da responsabilidade dos signatários. Escreva-nos para tribuna@mediotejo.net.

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Vivo em Abrantes há 41 anos e os incêndios florestais quase sempre ‘marcaram’ negativamente este concelho durante todos (ou quase todos) os verões passados. Só que apareciam… e dominavam-se em meia dúzia de horas. Porém, como é sabido, as ‘coisas’ foram mudando de ano para ano, quer nas estratégias e nos meios utilizados para o combate aos incêndios, quer na duração desses mesmos incêndios, quer numa série de aspectos que hoje não farão parte deste meu texto.

E não farão parte, única e exclusivamente por entender neste momento ser mais importante abordar outros aspectos da problemática do “porquê” de alguns motivos, ou causas, da ‘grandeza’ dos incêndios que têm ocorrido em 2017.

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Antes de os abordar, quero referir que trabalhei mais de 40 anos como técnico florestal e a problemática dos incêndios foi sempre um tema que muito me preocupou durante todo esse período da minha actividade profissional, o que, por diversas ocasiões me ‘levou’ a opinar e a propor medidas de acção, quer com colegas de profissão, quer com diversas individualidades ligadas ao sector, tanto com técnicos e responsáveis da extinta Direcção Geral de Florestas (mais tarde Instituto Florestal), quer também com ministros e secretários de Estado da Agricultura de alguns governos com quem tive oportunidade de contactar e dialogar, quase sempre na qualidade de membro directivo de uma associação ligada ao sector florestal.

Este ano – o de 2017 – e reportando-me apenas à zona e concelhos limítrofes àquele onde resido (Abrantes) e apesar de termos tido um Inverno e Primavera com pouca pluviosidade para o que é considerado normal, a verdade é que o número de incêndios florestais, a ‘grandiosidade’ dos mesmos e o tempo em que demoraram (e continuam a demorar) a ser controlados, ultrapassou em muito as piores previsões que iam sendo apontadas. Além disso, as enormes áreas ardidas e a constante ameaça à segurança de pessoas, animais e bens em aldeias (e à própria cidade)… foi ‘coisa’ nunca antes vista!

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Tenho lido e ouvido os mais ‘incriveis’ e variados argumentos que ‘alguns’ tentam justificar tudo aquilo a que temos vindo a assistir, mas, neste momento, ‘não vou por aí’. Não vou por aí, mas aproveito para aqui deixar registado um pouco daquilo que me vai na alma sobre o porquê de tanta ‘desgraça’ e tristeza que, sob este tema, nos está a acontecer:

1º Em primeiro lugar, continuo a não entender a razão pela qual os bombeiros deixaram de ter a missão de coordenar e comandar as acções de combate aos incêndios florestais, se são eles as pessoas que mais sabem do ‘assunto’… mas isso talvez me obrigasse a considerações que neste momento também não pretendo abordar. Todavia, a aparente descoordenação e insucesso que parece existir em 2017 no combate aos incêndios… pelo menos, dá que pensar, digo eu.  É, ou não é verdade?

2º Para mim, a questão principal para o que tem ocorrido, passa por referir o facto de há muito tempo que a maior parte da nossa floresta não ‘obedece’ às variadíssimas disposições que as Leis existentes sobre a floresta exigem e obrigam, nomeadamente no que concerne às limpezas do sub-bosque, de extremas, de aceiros e de estradas florestais, sendo a falta de fiscalização uma das principais razões para que isso hoje aconteça.

A constante degradação no número de técnicos e de meios do que resta da antiga Direcção-Geral de Florestas (mais tarde Instituto Florestal) e o fim dos guardas florestais (uma classe profissional que controlava e fiscalizava as acções sujeitas ao cumprimento das boas regras definidas na legislação, além de muitas outras actividades importantes) são uma das causas do não cumprimento da legislação. É que, quando ninguém fiscaliza…

3º Uma outra realidade a registar é que, não havendo fiscalização por parte de quem em nossa opinião competiria fazê-lo, também nada, ou quase nada existe – nem de fiscalização, nem de actuação dentro do que está estabelecido na legislação – por parte das autarquias locais (Juntas de Freguesia e Câmaras Municipais) naquilo que lhes compete, sobretudo na actuação prevista pela Lei em relação aos terrenos ‘infestados’ de ervas e de matos que ‘rodeiam’ os prédios existentes dentro das zonas urbanas.

E quem quiser verificar este ‘incumprimento’ autárquico, basta dar uma volta pela sua cidade, ou freguesia e, com alguma facilidade verificará a realidade do que acabei de mencionar. Tão simples como isso!

Nota: Gostaria que este meu pequeno texto chegasse ao conhecimento dos autarcas do meu concelho, ficando à inteira disposição dos mesmos para qualquer dúvida ou esclarecimento sobre este tema. Se algum amigo meu tiver essa oportunidade e quiser fazê-lo, eu, na qualidade de munícipe e cidadão atento e preocupado… agradeço!

20 de agosto de 2017
Carlos Loureiro
Abrantes

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