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Quarta-feira, Setembro 22, 2021

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Tramagal | Presidente da Junta defende acessibilidades e habitação para fixar empresas e população

Na freguesia de Tramagal, uma das 19 do concelho de Abrantes, algumas das quais hoje agregadas em União de Freguesias, indica-se como “maiores problemas” a fixação de pessoas e as acessibilidades. Freguesia constituída basicamente por duas povoações, Tramagal e Crucifixo, conta com pouco mais de 3.500 habitantes. Com as eleições autárquicas à porta, Vitor Hugo Cardoso não se recandidata por força da lei de limitação de mandatos. O mediotejo.net falou com o presidente da Junta no sentido de ‘desenhar’ um retrato da freguesia, fundada a 24 de junho de 1754, e que foi elevada a Vila a 3 de julho de 1986, há 35 anos.

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“Tramagal é uma vila com muita história mas também uma aldeia com muita história” começa por dizer Vitor Hugo Bráz Vicente Cardoso, de 60 anos, presidente da Junta de Freguesia há quase 12, a terminar o terceiro e último mandato, sempre eleito nas listas do Partido Socialista.

Na verdade, a única vila do concelho de Abrantes possui uma vasta história ligada ao rio Tejo e também à industria, nomeadamente marcada pelo legado da Metalúrgica Duarte Ferreira.

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Vitor Hugo Cardoso, presidente da unta de Freguesia de Tramagal. Créditos: mediotejo.net

Conta a lenda que o nome terá origem nas tramagas – pequenas moitas de arbusto espontâneo, com algumas propriedades medicinais. Conta a história que a Rainha D. Leonor, esposa do rei D. João II, quando ia a caminho de uma festa, ao passar por esta localidade, terá exclamado “mas que grande tramagal“.

Tramagal é freguesia desde 24 de junho de 1754 e vila desde 03 de julho de 1986. Está situada na parte ocidental do concelho, a sul do Tejo. Tem como vizinhos o concelho de Constância a oeste e norte, tem Rio de Moinhos a norte, a sede do concelho a nordeste e São Miguel do Rio Torto e Rossio ao Sul do Tejo a sueste. É ribeirinha à margem esquerda do rio Tejo ao longo dos limites com Rio de Moinhos e Abrantes (S. Vicente e S. João) e Alferrarede e da parte norte do limite com Constância.

Embora nestes últimos dez anos tenha perdido habitantes, os últimos censos de 2011 indicam uma população de 3600 pessoas a viver num território de 40 quilómetros quadrados. Certo é que, Tramagal não foge à regra das localidades do interior com perda de população. No passado já contou mais de 5 mil habitantes.

Tramagal, no concelho de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

“Em área estamos entre as pequenas freguesias mas temos uma população centrada na vila e na aldeia de Crucifixo. Também temos pequenos lugares como Chão de Lucas. No passado haviam outros lugares à volta da sede de freguesia que se perderam. Hoje temos cerca de 2800 eleitores, seremos uma população de pouco mais de 3 mil pessoas”, indica Vitor Hugo Cardoso.

O presidente termina a sua função no outono, após as eleições autárquicas. Empresário, proprietário de um armazém de materiais de construção, afirma que a sua profissão exige cada vez mais de si. “Já sou avô e tenho de dar lugar aos mais novos, outros candidatos que virão, outras ideias, outras formas de estar. Chegou a altura de parar”, afirmou.

Natural de Crucifixo, tendo Tramagal uma longa tradição de associativismo, Vitor Hugo esteve desde jovem ligado ou apoiando as coletividades da freguesia como a TSU, Associação de Melhoramentos, Rádio Tágide, SAT mas “nunca trabalhei para ser presidente de Junta”, garante. Contudo, o convite surgiu para ser candidato, pensou “muito” e com a “força” de Isilda Jana e Manuel Jorge Valamatos acabou por abraçar o projeto e gostar da função “pela causa pública”.

Crucifixo na freguesia de Tramagal, concelho de Abrantes

Ajudou “a semente do associativismo e foi fácil! Sou um homem do terreno”, sublinha, afirmando estar “sempre acompanhado por pessoas que fizeram o trabalho administrativo”.

Agora que o tempo está a chegar ao fim, sendo que Vitor Hugo Cardoso é presidente a meio tempo, sente a falta até pela “dedicação ao trabalho com 10 ou 12 horas por dia prejudicando a família”. Contudo, diz, “temos de saber arrumar as coisas no sítio certo”.

Identifica como “o maior problema da freguesia” a dificuldade em fixar população, “falta gente”. Lembra que, aquando da laboração da Metalúrgica Duarte Ferreira, “as pessoas vinham, ficavam nos dormitórios da empresa, no edifício dos quartos onde habitavam de segunda a sexta-feira e, mais tarde ou mais cedo, traziam a família para Tramagal. Com o apoio da própria empresa fixavam-se. Hoje é diferente!”.

Por fazer aponta por isso a criação de oportunidades para os jovens, a construção de nova habitação embora reconheça o aumento da requalificação de habitações degradadas.

Fábrica da Mitsubishi no Tramagal. Foto: DR

Atualmente a vila ainda conta com várias empresas, nomeadamente a Mitsubishi Fuso, Futrimetal, Frutifer, Ilmet e segundo as contas do presidente da Junta, “somando tudo, teremos mais de mil postos de trabalho, em termos industriais e de comércio”.

Só que as empresas já não fixam os trabalhadores na freguesia. As vias rodoviárias e o transporte próprio permitem que cheguem diariamente de Tomar, do Entroncamento, de Ponte de Sor e de outras zonas da região. Uma dificuldade que está longe de ser singular, estendendo-se a outras localidades, designadamente do interior português.

“Temos muita população nossa a viver no litoral do País, Marinha Grande, Porto, Aveiro. E não conseguimos fixar os jovens. Talvez também falte uma aposta na construção civil em novas habitações…”, observa. Por outro lado, verifica-se “o regresso aos fins-de-semana das pessoas a virem às duas raízes. Até por causa da covid-19 e do confinamento vê-se a recuperação de casas”.

Tramagal, no concelho de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

O presidente considera que Tramagal “tem tudo o que as pessoas precisam”. Conta com um posto da GNR, piscinas, campos de ténis, posto de Saúde, campo de futebol, pavilhão desportivo e o “associativismo vivo em todo o lado”, incluindo na Universidade da Terceira Idade. Atualmente com 20 associações, “uma comunidade viva”, Tramagal é conhecida como “Vila Convívio” batizada assim pelo saudoso jornalista Manuel Tomás.

Possui grande e pequeno comércio, escolas “que estão a funcionar muito bem” destacando como “grande aposta” os cursos profissionais em contexto laboral. Em dois anos conseguimos ter 30 alunos em contexto industrial. Um investimento de um milhão de euros na Escola Octávio Duarte Ferreira, que no futuro será uma grande aposta no ensino profissional que Tramagal terá de saber agarrar”, defende.

A referida escola que, no passado contou com cerca de 800 alunos, tem atualmente 180, lecionando até ao 9º ano de escolaridade sendo que já lecionou até ao 12º ano. “Em 40 anos perdeu-se muitos alunos. A escola vivia muito do Campo Militar de Santa Margarida, a taxa de natalidade também baixou muito”, refere.

Edifício da Escola Básica (2º e 3º ciclo) e Secundária Octávio Duarte Ferreira, em Tramagal. Créditos: CMA

Na ótica de Vitor Hugo falta um alojamento local . “Temos de saber aproveitar o turismo”, defende, enumerando o Museu Metalúrgica Duarte Ferreira, a ribeira de Alcolobre onde “abrimos caminho e tem um potencial enorme para uma futura aposta em passadiços, pelo Município de Abrantes. Um dos sítios mais lindos da nossa freguesia com mais de 10 moinhos junto à ribeira. Temos o Tejo, teremos o albergue do Crucifixo com 24 camas”, um projeto que se candidatou ao programa Renovação das Aldeias, para minimizar “o défice” de alojamento local.

A obra esteve programada para arrancar este mês mas devido a uma reformulação da candidatura o início dos trabalhos foi adiado para 2022. O presidente nota ainda que a rota para Fátima vinda do Alentejo passa por Tramagal e pelo Crucifixo.

Falando da empregabilidade – dá conta de uma taxa de desemprego diminuta – o presidente admite que a Zona Industrial de Tramagal “não se adequa muito bem à realidade” da freguesia até por causa de outro problema; as futuras e prometidas acessibilidades que tardam em chegar.

“A ponte que liga ao IC9, a alternativa à EN 118. Se tivéssemos a ponte sobre o Tejo provavelmente teríamos mais empresas e de alargar a nossa zona industrial”.

Ribeira de Alcolobre, em Tramagal. Créditos. CMA

Mas Vitor Hugo Cardoso manifesta-se algo cético, recorda que aquando da sua primeira eleição foi-lhe dito que iria inaugurar a ponte do IC9. “Acreditei! Na altura do PEC 1 e do PEC 2 (Programa de Estabilidade e Crescimento), do Plano Rodoviário Nacional, o estudo de impacto ambiental, estava tudo delineado e acabou por não haver ponte. Espero que desta vez tenhamos ponte… não sei. Se vier dentro de 4 ou 5 anos era ideal. Irá modificar tudo e iremos ganhar muito com a ponte. Há empresas que têm transportes todos os dias”, vinca.

Nessas contas entra, obrigatoriamente, o caminho-de-ferro, “um potencial que Tramagal sempre teve. Mas há menos comboios e uma fraca utilização. A facilidade de comunicações e deslocações retirou utilização ao comboio”. No entanto, defende que “deveria ter um melhor aproveitamento a nível industrial” e acredita que o desenvolvimento da freguesia “num futuro muito próximo” também passará por aí.

Vitor Hugo Cardoso, presidente da unta de Freguesia de Tramagal. Créditos: mediotejo.net

Também na agricultura, na lezíria do Tramagal, revela-se um novo potencial. “Vê-se a aposta na utilização do solo. E estamos a receber muita mão de obra do exterior” para as vinhas, pomares de nogueiras e de macieiras.

Noutra contabilidade enumera “o importantíssimo trabalho” da Junta de Freguesia na área social e assume que gostava de fazer mais obra, designadamente vias para circular, passeios, levar as pessoas até ao rio Tejo.

“Uma aposta forte que não consegui; levar as pessoas mais à zona ribeirinha. Fazer uma ligação maior apesar de termos os Caminhos do Tejo, a Ponte da Barca”. Mas lembra que a vila tem um potencial enorme em marcas como o Casal da Coelheira, o Brejo da Gaia, a Borboleta e a própria Mitsubishi. Confessa que temeu pela deslocalização desta empresa mas hoje pensa positivo.

“Houve uma fase muito difícil. Neste momento está bem enraizada”, diz, apesar de reconhecer que nas empresas globais “é fácil” deslocalizar de um local para o outro.

O mercado Diário em Tramagal. Créditos: mediotejo.net

Quanto ao orçamento da Junta de Freguesia dá conta de um Fundo de Equilíbrio Financeiro (FEF) na ordem dos 70 mil euros. “É muito pouco!”, considera o presidente. Tramagal “tem sido muito prejudicado”, afirma, defendendo uma revisão territorial “uma vez que o FEF define a verba tendo em conta os quilómetros quadrados” das freguesias.

“Tirando as freguesias da cidade, somos a maior freguesia em termos de população e temos sido muito prejudicados ao longo dos anos. As freguesias são o parente pobre deste País”, critica.

No orçamento de 2019/2020 Tramagal contava com 266 mil euros de orçamento total, devido aos protocolos com a Câmara Municipal, “hoje duplicámos, temos um orçamento de mais de 400 mil euros para 2021”, graças aos acordo realizados com a autarquia, tendo em conta a transferência de competências.

Esse aumento permitiu a contratação de mais dois trabalhadores, passando de quatro para seis trabalhadores, tendo aberto concurso, praticamente na fase final, para assistentes operacionais. Vitor Hugo Cardoso considera que os Contratos de Emprego de Inserção (CEI) não são solução, embora a Junta recorresse com regularidade à mesma por falta de opção.

Vitor Hugo Cardoso reconhece que o Município de Abrantes “sempre apoiou e apostou em Tramagal.

Museu Metalúrgica Duarte Ferreira, no Tramagal. Foto: CMA

Destaca como obras importantes na freguesia de Tramagal o Museu Metalúrgica Duarte Ferreira, a requalificação do Mercado Diário de Tramagal, a acessibilidade ao Crucifixo, a requalificação junto ao cemitério da vila, a estrada de ligação Tramagal/Bicas, a reparação do saneamento básico em Tramagal, a pavimentação e repavimentação de ruas, a compra para requalificação do Museu da Forja, e ainda o monumento aos Combatentes do Ultramar.

Quando à rede de saneamento básico garante que Tramagal “está todo coberto” sobrando cerca de 12 casas com fossa séptica e refere que brevemente terá água da albufeira de Castelo de Bode. Uma obra que se iniciou este mês é na rua António Ferreira Bairrão, para a construção de um parque de estacionamento junto à igreja e à zona comercial da farmácia. Outra obra que não deixa de referir, embora seja da Câmara e não da Junta, é a requalificação da Penha, o espaço junto à estátua do comendador Duarte Ferreira.

Tramagal, no concelho de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Por isso, Vitor Hugo Cardoso manifesta um sentimento de “missão cumprida” para “o bem estar social da comunidade” embora reconheça que há sempre mais para fazer, designadamente dar à Junta de Freguesia “uma outra estrutura” referindo-se aos parcos recursos humanos, também em termos de executivo.

“Não somos profissionais de Junta de Freguesia e o executivo deveria ser mais profissionalizado para ter mais tempo e uma maior dedicação”, reflete.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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