Tramagal | Na Quinta dos Morgados plantam-se sonhos com sabor a maracujá

Na Quinta dos Morgados, em Tramagal, plantam-se sonhos com sabor a maracujá. Foto: mediotejo.net

Haverá quem por ali passa todos os dias, e provavelmente nunca reparou que ali se produz algo diferente do habitual. Por ser similar com outro tipo de produção mais tradicional, como a amora ou framboesa, há quem não estranhe. Mas se reparar nos muros da entrada na propriedade e no azulejo com a denominação, ficará intrigado com os frutos que decoram o da Quinta dos Morgados. Perto do cruzamento do Crucifixo, à saída da vila de Tramagal, nascem frutos arroxeados, com travo exótico, origem tropical e muito, muito, sumarentos. Uma produção que é inédita na região do Médio Tejo e que é já referência na região Centro, assente na concretização do sonho do proprietário, Isidoro Morgado, e que já voa além fronteiras nos caminhos da exportação.

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São 7km e 200 metros de linhas, 24 linhas com 300 metros, mais de 50 km de cabos e fios passados a compor a estrutura que segura as plantas. A propriedade foi um investimento propositado para o projeto, tudo idealizado pelo proprietário, com pesquisas e adaptando à propriedade e ao que pretendia.

Isidoro Morgado, 66 anos, trouxe o maracujá, algo novo, para as terras de Tramagal. Lembra que no Ribatejo não havia muito mais produtores que o pudessem apoiar, havendo apenas um pomar que ainda existe em Almeirim.

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“Estava sozinho, a minha mulher ainda trabalhar e estava em Lisboa. Eu vim e ela ficou, só me vinha visitar ao fim-de-semana”, reformou-se por volta de 2011 e não esperou mais tempo. Regressou à terra.

“As minhas noites eram passadas no computador, a calcular e pesquisar. Foi estimulante, porque era o que eu queria. O meu grande desejo era desenvolver um projeto que me motivasse e do qual me viesse a orgulhar”, recorda.

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Mas nem tudo foi cor-de-rosa… “Houve dias difíceis. Só eu é que estava muito otimista, havia pessoas muito perto de mim que não me apoiavam. Tive momentos difíceis. Mas eu com a minha força, dizia ‘Caraças! Eu hei-de lá chegar!’. E hoje tenho essas pessoas a meu lado. O investimento foi muito grande e foi difícil até chegar a este ponto”, começa por deslindar sobre a compra da propriedade, em 2017.

Quinta dos Morgados, em Tramagal. Foto: mediotejo.net

Isidoro Morgado é natural do concelho de Constância, mais propriamente da freguesia de Santa Margarida, e diz que gostava de ter implantado o projeto no seu concelho, mas não foi possível. “Não consegui encontrar nenhum terreno com as condições que eu precisava. Apareceram estes. Numa das minhas passagens, achei interessante pois estes lotes estavam à venda”, explica.

Estavam abandonados há muitos anos, sendo que das últimas culturas agrícolas ali existentes foram de milho. Depois houve intenção de alguém ali colocar um olival, mas nunca avançou.

A paixão pela agricultura, essa, é antiga. “Passei a vida profissional no escritório, fui empregado da CP. Trabalhava na área de Gestão de stocks e compra de materiais. Totalmente secretária e computadores. Foi assim durante mais de 30 anos. Vivíamos em Massamá. Os meus pais tinham casa em Santa Margarida, e depois de reformado em 2011, já tínhamos ficado com ela, e remodelámos”, contextualiza o também ex-presidente da Federação Portuguesa de Natação.

“Três dias depois de me reformar, vim para cá”, ri-se, como quem cometeu uma loucura sem pensar duas vezes, fazendo a mala e fazendo o que lhe dá na real gana, dando ênfase àquela que foi sempre a sua vontade, a de regressar “à origem”.

Mas neste forte interesse pela agricultura surge algo maior, que são os frutos tropicais, por uma questão “de gosto pessoal pelo tipo de fruto em si”.

E apareceu o maracujá-roxo. E porquê o maracujá? “Por exclusão de partes. Fiz vários testes em casa: temos desde Physalis, framboesas, mirtilos, goji, amoras… tudo foi testado. Maracujás tinha desde o tempo dos meus pais. Eles tinham dois pés que ocupavam uma área enorme no quintal e que nos davam quilos e quilos de maracujás, por ano”.

A certa altura, Isidoro participou num workshop sobre maracujá, e começou a analisar cada fruto em si, nas várias componentes, de exploração, de rentabilidade, para decifrar qual dos frutos se iria adequar numa exploração nesta zona.

“Os goji estavam a aparecer. Os mirtilos já estavam na moda. Mas qualquer um destes acarretava vários custos muito elevados de mão-de-obra e de apanha. Foi um fator que pesou logo na escolha, apesar de terem menos custos em termos de instalação”, reconhece.

Ganhou o maracujá. Por ser “mais fácil de apanhar, com rentabilidade boa, e começava a produzir ao fim de um ano de plantação”. Foram os três fatores que levaram Isidoro Morgado a pôr mãos à terra e investir ali centenas de milhares de euros, um investimento próprio para concretizar um projeto há muito ambicionado e querido.

Depois de comprado o terreno, logo se começou “a mexer na terra”. Em 2018 avança-se para a instalação, e é nesse ano, em setembro, que se faz a plantação de 4 mil plantas.

Porém, apesar de os astros se alinharem e tudo estar a correr dentro dos conformes e nos timings de Isidoro, contratempos acontecem.

“De setembro ao inverno, foi um período muito curto. As plantas estavam a crescer, mas não estavam suficientemente preparadas para receber o inverno. Nem eu tinha conhecimentos, nem toda a estrutura estava preparada para receber, por exemplo, os -4 graus que estavam a sentir-se debaixo da cobertura da plantação a 4 de janeiro de 2019. As plantas sentiram-se… e morreram praticamente todas. Um terço ficou queimado”, lembra, com semblando carregado, pois ali percebeu a dureza e a complexidade que resultaram numa coisa séria.

Terá isto sido suficiente para demover ou entristecer a ideia do projeto e o avançar da concretização de um sonho? De forma alguma. “Chocou-me, mas não me deitou abaixo. Comecei a pensar imediatamente em que como iria recuperar isto”, afirma, certeiro.

Foto: mediotejo.net

Isidoro lançou mãos ao trabalho, e começou a preparar as plantas, para as recuperar. Entretanto, com aquele azar na plantação de estreia, foi procurando fornecedores a custos mais baixos. “Os custos iniciais foram muito elevados. Mas lá encontrei e replantei. Em janeiro de 2019 não havia nada no chão. Mas cerca de 8 meses depois, em setembro, já começámos a apanhar os primeiros frutos”, diz.

O inverno de 2019/2020 já teve muita fruta, que custou a amadurecer. Após isso, veio a primeira produção, aquela que já contou oficialmente. “Agora [final de agosto] estamos na fase final da primeira produção”, explica, dando conta que é habitual o fruto dar duas produções por ano.

O maracujá é um fruto com calendário próprio, como qualquer outro. Mas com as suas especificidades e num território onde nunca os houve, pelo menos sem sem no quintal de quem tenha aquela árvore.

Foto: mediotejo.net

Em abril começa a aparecer a flor, e de dois a três meses, o fruto está cá fora. “Em julho começámos a apanhar a muito bom ritmo, tanto que nessa altura não estávamos ainda preparados para fazer o escoamento à velocidade em que o fruto aparecia”, assume.

Isidoro é muito meticuloso, passando horas a fio dedicado ao estudo e reflexão sobre a plantação, os cuidados e manutenção, o amadurecimento do fruto e as condições das plantas. Movimenta-se pelas filas de maracujazeiros ou maracujaleiro, nomes que se atribuem à planta trepadeira que através das guias vai criando rebentos que seguram, pendurados, os frutos roxos e de aroma adocicado, deixando um perfume exótico no ar. Assim que se entra na propriedade a brisa e o vento roçam-nos na face, trazendo ares que nos fazem imaginar o sabor daquele sumo ou gelado que provámos algures.

Passa vistoria por todas as filas, e leva consigo o bloco de anotações. Lá escreveu, dez dias depois do início da apanha, “em dez dias apanhámos os primeiros frutos, e eu já escrevia que estávamos a ter muitos frutos no chão. Porque amadurecia e caía”.

No inverno, em contrapartida, o processo de amadurecimento é mais lento. A produção de verão é considerada a “época normal”, onde todas produções de maracujazeiros a inundar o mercado. “Inunda o mercado, faz baixar os preços. Sendo que a finais de agosto começa a quebrar, mas as plantas estão a rejuvenescer e a criar ramos novos e estão a aparecer já flores e botões novos, o que vai levar a que no final de dezembro já haja novamente fruto para a época de inverno”, indica.

De inverno, assegura o proprietário, produz-se bem na mesma, mas de forma mais lenta. Já quanto à quantidade, ainda não tem respostas em termos comparativos entre as duas produções sazonais. E está por isso “na expectativa de ver o que vai aparecer na altura do próximo inverno. A minha primeira grande produção foi agora, este verão”.

As expectativas para a primeira produção (à séria) de inverno prendem-se com a quantidade e qualidade do fruto, como na valorização no mercado. “Quando não há, é quando é mais caro”, refere.

O fruto em si, não é barato. É um fruto exótico, que exige perícia na forma como é dirigida a produção e que acarreta custos. O preço de mercado ronda os 8 euros/kg.

“É tropical, e temos que atenuar esta agressividade do excesso de calor e do excesso de frio das geadas. Em 2019, foi a 4 de janeiro que registei -4 graus centígrados debaixo da proteção superior da produção [a tal que abalou a plantação]. Este ano registei a mesma temperatura a 8 de janeiro, mas as plantas conseguiram suportar. Por cima a rede estava totalmente branca. Só as primeiras duas folhas da planta é que estavam murchas. A planta aguentou”, explica

Os ventos, num terreno plano e descampado, entram furiosamente vindos de norte, muito frios, entravam de rompante e “castigavam as plantas”. “Tivemos que colocar portões nos intervalos entre os corredores da produção, e colocámos cedros estrategicamente, para servirem de barreira/cortinas para que corte o impacto. Do lado oposto, há uma rede que também segura o impacto dos ventos que vêm dos espanhóis, que não trazem boa coisa”, vai contando, calculando as vicissitudes da localização da propriedade.

Ainda assim, e sendo uma produção especializada e inédita na região do Médio Tejo, já conquistou até a população local, em Tramagal e arredores.

Foto: mediotejo.net

“Aquelas dez caixas que ali estamos a preparar, vou ainda hoje entregar ao supermercado da vila. Sinto que criei uma expectativa tão grande nas pessoas da zona… porque toda a gente matutava no facto de haver maracujá em Tramagal. Muitas pessoas não sabem sequer o que é o maracujá”, admite.

O maracujá não é um fruto dito “normal”, e tem um valor superior à fruta de produção corrente e endógena. “Nem toda a gente terá posses para comprar e comer normalmente o maracujá, mas é um fruto que, quem optar por adquirir e consumir, vai aprendendo a gostar”.

Acontece que, sendo um fruto de desenvolvimento e amadurecimento tão rápido, e tendo em conta os exigentes critérios dos compradores que o escoam em frutarias, cadeias de hipermercados e mercearias, acaba por gerar o fruto de primeira e o de segunda escolha.

“O de segunda escolha segue muito para compradores que o transformam. Desde gelatarias, confeção de doçaria e compotas artesanais, e produção de ponchas e licores”, enumera. Aqui, Isidoro começa por lamentar a instalação da pandemia de covid-19 que veio colocar à prova este primeiro ano de produção à séria.

“Graças à pandemia, não mandei muitos, muitos quilos para a Madeira. Porque pararam o turismo, parou a venda e produção de poncha… não deu. Mas temos estes contactos já estabelecidos. Esperemos que as coisas se alterem. Tivemos muito azar com esta questão, porque se não as coisas estariam a funcionar de forma bem diferente”

A covid-19, reitera Isidoro Morgado, afetou o negócio, porque não proporcionou consumos tão grandes quanto os que se previa. “Inclusive esta questão da Madeira, com crise no turismo, sendo que era através do setor que se escoavam muitos quilos de maracujá, incluídos na confeção da poncha. As pessoas não saem, têm medo, e então tudo o que fosse produto usado em sumos, gelados e outras iguarias preparadas com maracujá… não têm condições propícias para vender. Vamos ter que tentar dar a volta e esperar que isto passe”, afirma, com um encolher de ombros de quem nada mais pode fazer contra um novo vírus que veio baralhar tudo e virar o mundo do avesso.

Outro dos desafios, logo após a apanha do fruto, prende-se com a poda e o trabalho contínuo para assegurar a qualidade na próxima produção. Outro fator importante, que é também chave para o sucesso e para que as plantas vinguem com bons frutos, trata-se da polinização. Algo que Isidoro descurou ligeiramente no ano passado, mas que já tratou de resolver comprando enxames de abelhões que se juntam às abelhas-melíferas no fundo da propriedade, mais próxima da margem do rio.

“No primeiro ano tínhamos frutos muito bonitos, mas como não apostámos na polinização, abríamos e o fruto estava oco”, justifica.

A manutenção está a progredir em termos de intensidade, e Isidoro com o seu único colaborador, que ali está desde a fase inicial do projeto, já não têm mãos a medir. “Fomos nós os dois que tratámos todo o terreno, preparámos para a plantação. E temos tratado da manutenção e da apanha”.

Apoios aos agricultores e às produções estão muito aquém das necessidades e deixam “amargo de boca” de ano para ano

O projeto submetido a financiamento comunitário do Portugal2020 inclui os 4 hectares da propriedade. Mas foi feito de reviravoltas.

“Numa primeira fase veio aprovado mas não apoiado financeiramente, por falta de verba. Voltámos a submeter. Numa segunda fase veio apoiado, igualmente não financiado por falta de verba. E foi submetido outra vez. Não tenho grande expectativa… nem mostrando, e vários responsáveis do Ministério da Agricultura já aqui estiveram, já viram esta realidade. E nem vendo a realidade se consegue desbloquear um apoio financeiro para projetos como estes. E às vezes ouvimos falar de outros, muito idêntico, que conseguiram…”, lamenta, encolhendo os ombros, e descendo os braços que batem nos lados, como quem nem não percebe esta dualidade de critérios e a ausência de apoios a produtores que continuam a lutar pela valorização dos territórios e a acrescer valor à produção nacional e exportação.

Isidoro Morgado mostra descontentamento, pois nem depois de ter começado a exportar o os frutos para França, nem a dimensão do projeto e produção têm sido critérios suficientes para chamar a atenção dos governantes e despoletar os tão ansiados e merecidos apoios.

Apesar de tudo, Isidoro não desiste. Tem tirado do próprio bolso e joga com a boa gestão e rentabilidade do projeto. Mas o objetivo, esse, está na mira: aumentar a plantação.

“Tem muito a ver com a produção em escala. Com 3 a 4 mil plantas, já se conseguem boas toneladas. Este ano alcançámos, na primeira produção, cerca de 5 toneladas, e tenho a produzir bem só 3 mil. Falta agora apurar os números da produção de inverno”, contabiliza.

Neste momento há disparidade, porque há diversidade de plantas: com a replantação, nem todas as plantas estão no mesmo nível de desenvolvimento, encontrando-se algumas a crescer ainda. Como tal, uma dos grandes esforços é “tentar nivelar as plantas todas com a mesma estrutura de ramagem”.

O certo é que, não restam dúvidas, as 4 mil plantas a produzir anualmente ao mesmo ritmo ultrapassarão as 20 toneladas. A totalidade do projeto, se estivesse completa, bastava multiplicar este valor por três.

O projeto precisa acompanhar a capacidade da produção, e enquanto “experiência nova” está agora a revelar-se um grande desafio e a impor ritmos para os quais o proprietário e o colaborador não estavam preparados.

Foto: mediotejo.net

“Não estávamos preparados para começar a apanhar toda a quantidade de fruto do ar. Como não apanhávamos do ar, começou a cair para o chão, e depois não conseguimos escoar de imediato. E já não sabíamos se devíamos apanhar ou não, e ainda comprámos um contentor que ficou cheio. Felizmente comecei a contar com a ajuda preciosa da minha mulher e da minha família”, desabafou.

O apoio incondicional da família é indispensável para levar as coisas para a frente, e diz que a esposa, Maria do Carmo, é a grande responsável por motivá-lo e incentivá-lo a seguir no dia-a-dia, mesmo nos momentos mais difíceis e menos bons da produção e comercialização.

Tesoureira no Hospital da Cruz Vermelha em Lisboa, ao fim de 46 anos de serviço, passa agora os dias ao lado do marido, ajudando a concretizar e consolidar o sonho.

Chega hoje ao ponto de já não ter fruto e ter clientes a pedirem, e é aqui que enche o peito de orgulho pela sua intuição e decisão. “Afinal eu tinha razão! Mas até chegar a isto… não foi fácil”

Isidoro já tem conhecimentos em termos de fornecedores, e como tal crê que para o ano as coisas já tenham de funcionar a outro ritmo, exigindo uma maior preparação da época. Já pensa em contratar mais colaboradores, nomeadamente para a apanha e preparação do fruto para escoar. “O fruto surge verde, com raios roxos, mas quando está roxo aguenta-se uns dias na planta. Mas é nessa altura que deve ser apanhado, quando tem mais sumo, pesa mais e tem maior rentabilidade. E já para não falar que é mais fácil apanhar o fruto no ar do que no chão”, explica.

A área, sendo tão grande, provoca uma corrida contra o tempo. “Andamos a apanhar, e atrás de nós já se ouvem frutos a cair. Apanho, dou dois passos, e cai atrás de nós. É este ritmo que temos de vencer: tem de haver mais pessoas para apanhar mais e ao mesmo tempo para fazer sair a fruta”.

Apesar de as regas serem feitas de forma programada e automática, o que facilita muito e dispensa a presença na propriedade, permitindo monitorização à distância, Isidoro passa ali os seus dias, e muitas vezes ali passou semanas inteiras, de domingo a domingo.

Agora, há necessidade de parar e descansar. Aliás, se há algo que não dispensa são as sestas de duas horas a seguir ao almoço, para se restabelecer. “É sagrado, para repor energia. Depois sou capaz de sair daqui às 20h00 ou até mais”, assume.

A empresa é familiar, está em nome do filho, ex-nadador olímpico Simão Morgado, mas que está em Lisboa, tem empresa própria noutro ramo e nem sempre tem tanto tempo quanto gostaria para apoiar o pai.

Foto: mediotejo.net

Isidoro lembra que o filho lhe disse há dias que tinham de aumentar e acrescentar plantas.

“Ok. É isso mesmo, e para já quero repor as 4 mil plantas iniciais, mas depois temos de, a pouco e pouco, aumentar. Quanto mais maracujás tiver, mais produzem, estando garantido o escoamento. E este ano falhou também um pouco o calibre do fruto. O mercado é exigente, e tivemos dias de muito calor que as levou as plantas a inibirem-se e a não receber os produtos e a rega, e o fruto não engrossou. Ficou pequeno. Assim, o mercado não quer e não gosta. Tem de ser maior, independentemente da qualidade do que tem dentro. Tem o mesmo doce e polpa, mas não dá nas vistas e por isso não se vende”, contextualizou, lamentando não ter conseguido alcançar uma proposta de vendedor que iria levar os maracujás até França e Itália, precisamente por esta razão. O tamanho não correspondia aos parâmetros standard do mercado.

Mas nada de desânimo, até porque só no Tramagal consegue escoar uma grande quantidade, algo que diz ser curioso e do qual não estava à espera. “As dez caixas que levo para o supermercado na vila, representam 20 kg, mas todas as semanas me pede reposição. É giro”, dá-nos nota, feliz com esta situação.

O futuro vai sendo pensado dia-a-dia, sempre com estudo e tentativas no terreno. Isidoro, que já se percebeu ser adepto de grandes desafios, e não é fácil demover-se deles por qualquer adversidade. E é por isso que não se fia no que se diz por aí, caso da durabilidade das plantas, que lhe dizem só serem sustentáveis e rentáveis até 4 ou 5 anos, no máximo seis anos. Depois deveriam ser substituídas. Isidoro não vai na conversa para já. E quer ver o que o destino lhe reserva.

“Os dois maracujazeiros na casa do meus pais duraram anos, com chuva, sol, geada, gelo, e nada os queimou. Vamos ver… vou-me preocupar em criar condições para as minhas plantas e quando eu começar a sentir que determinadas plantas começam a baixar a sua produção, em vez de substituir todas, porque não ir substituindo? Replantando?”, sugere, determinado, pronto para tirar apontamentos e ir aprendendo por tentativa-erro.

Foto: mediotejo.net

Isidoro Morgado não tem estudos nesta área, e é muito autodidata. Lamenta que em Portugal ainda não haja muita informação sobre a produção, e diz que gostaria que houvesse uma associação de produtores com consultoria de engenheiros ou técnicos especializados, que permitam consultar e debater assuntos ou dúvidas.

Lembra-se de, no início, quanto à poda, ter de puxar pela cabeça e imaginar como se fazia na vinha. Aí se inspirou para ir fazendo.

“No Norte estão mais desenvolvidos, têm mais plantações, mas é cada um por si. Mas sinto necessidade de aprender mais. Acho que era de nos organizarmos e ir desenvolvendo formações, reuniões de produtores…”, menciona.

Foto: mediotejo.net

A tripla Rosarinho, Simão e Isidoro

O projeto tem como denominação “Rosis”, e tem forte presença na internet e nas redes sociais. Numa passagem pelas páginas não é difícil perceber a envolvência familiar que tem, e as emoções genuínas que também são segredo para o sucesso da plantação.

Isidoro conta com o filho Simão, mas também já tem uma presença alegre, vivaça, a espalhar boa energia e risos entre as filas de maracujazeiros, que contempla a terceira geração, o sinal de futuro da Quinta dos Morgados.

Daí o nome “Rosis”, que conjuga Rosarinho, a neta, Simão, o filho, e por fim, Isodoro, o patriarca. Um projeto ganhador e que representa a dedicação, o valor e o reconhecimento da família.

Já a Quinta dos Morgados, vai mais além, enquanto homenagem aos Morgados que já cá não estão, mas também sempre se dedicaram muito à terra.

“Sabe… fui pensando, pedindo dicas. Mas a verdade é que não precisei pensar muito. A família é muito importante. E assim fica aqui a minha homenagem aos Morgados”, remete, falando com voz doce e embargada pela emoção que, provavelmente, as recordações que assaltam a mente no momento fazem sobressair.

Isidoro diz que hoje só tem um arrependimento: não ter iniciado o projeto 10 anos mais cedo. “Se tivesse feito isso, a propriedade já estava cheia, eu já tinha uma casinha ali em baixo, até eventualmente de madeira – porque há lindas! – e, no mínimo, dois cavalinhos. Era o meu sonho. E receber e puxá-los, o filho e a neta, para aqui”, sonha, de olhos abertos, sonhador-nato que é e com a determinação no rosto, como quem ainda vai, mais dia, menos dia, cumprir.

Na Estrada Nacional 118, quem passe de Tramagal, perto do cruzamento do Crucifixo, fica sempre intrigado sobre o que está ali plantado. Que fruto será? Amora? Framboesa? São os mais típicos e que mais se veem por aqui, é certo. Mas não, não é aquela estrutura da planta. E o verde enérgico, vivo. O que será?

Há quem já entre portão adentro para desvendar o mistério, perguntar sobre o projeto, provar o maracujá e pedir para comprar. E até já houve quem lá ficasse fechado dentro, porque entrou por iniciativa própria, e talvez tenha chegado para o susto.

Graças a isso, está instalada uma campainha, que soa bem alto, para pedir permissão para entrar. Dita o bom senso que assim seja. E, se se concentrar, inspirar bem fundo, logo no portão sentirá o aroma adocicado, meio ácido, ímpar, que se imagina daquele sumarento fruto, roxo por fora, mas alaranjado e polposo por dentro.

Uma coisa é certa: a partir do momento em que se sabe que ali consta uma produção de maracujá, não há viagem, passando naquele troço, que não traga a memória ao paladar e consigo… muita água na boca.

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