Tramagal | Luís Pombinho: da imaginação à narrativa transformada em livros

Luís Mendes Pombinho, 74 anos, natural de Tramagal, trabalhou na Metalúrgica Duarte Ferreira entre os 12 e os 29 anos, idade com a qual saiu do concelho de Abrantes. Após ter passado quase três décadas entre Leiria e Marinha Grande, regressou à sua terra natal onde vive atualmente e onde encontra a tranquilidade para escrever os livros sobre histórias de vida, poesia e ficção. Já publicou 14 livros e está a escrever uma nova história, “que começa na passagem de nível da Bemposta”. O lançamento público desta obra está pensado para o início do próximo ano.

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É nas personagens que preenchem as histórias que Luís Pombinho desenha, primeiro na sua cabeça, e depois ao teclado do computador, que percebemos falar (quase) sempre de amor, mesmo quando não recompensado, apesar das difíceis memórias da Guerra do Ultramar ou das vidas miseráveis dos fandingos, trabalhadores maltrapilhos, maioritariamente chegados das Beiras para a labuta sazonal e dura nas herdades tramagalenses.

A publicação… melhor, a edição dos 14 livros que escreveu desde 1965 até hoje, servem de resto para mostrar que há narrativa e imaginação que sobra para colocar em papel, muito além das memórias, embora na maioria das vezes inspiradas em factos e pessoas reais.

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Nas palavras do próprio Luís Pombinho, que diz ter “muitas histórias na gaveta”, o regresso a Tramagal permitiu escrever mais e recordar “a infância difícil” de um quarto filho de uma prole de cinco, no pós Segunda Guerra Mundial. Recorda, contudo, que esses árduos tempos despertaram-lhe a vontade de “ler muito” e predisposição para ouvir “as histórias dos mais velhos”, ao passar muitos dias da meninice com os avós maternos em Amoreira, onde tem as raízes.

O tramagalense Luís Pombinho na leitura de um dos seus poemas. Créditos: mediotejo.net

Aos 75 anos (que completa no dia 27 de novembro) é autor mas não é escritor. Prefere a designação de autodidata para justificar a ação, as emoções, os poemas, os contos e tudo aquilo que Luís Pombinho procura preservar em obra “com centenas de horas de trabalho” e deixar de herança aos quatro netos.

Por isso, os seus livros não se encontram à venda, são impressos numa gráfica de amigos em número de poucos exemplares, para comporem as estantes do autor e pouco mais. Recentemente, por se considerar um homem do concelho de Abrantes, embora tenha vivido três décadas entre Leiria e Marinha Grande, entregou ao presidente da Câmara um conjunto de 12 livros de sua autoria, escritos nos últimos 10 anos, que irão integrar o espólio da Biblioteca Municipal António Botto.

O que lhe interessa verdadeiramente é registar as histórias, vividas ou ficcionadas, pelo prazer da escrita como no livro “A Quinta dos Fandingos” editado em 2020, sobre a vinda de gente pobre, contratada sazonalmente para trabalhar nos campos do Ribatejo, onde se inclui Tramagal, essencialmente na época da vindima e da apanha da azeitona. Alguns não regressaram às Beiras, assentaram arraiais, criaram famílias naquela freguesia do concelho de Abrantes e singraram na vida, deixando no passado as misérias do Estado Novo.

Na Metalúrgica Duarte Ferreira começou como paquete, foi mecânico e por fim “trabalhava no gabinete técnico de conservação” até que recebeu um convite para trabalhar na Portucel em Leiria, onde ficou 23 anos. Acabou por estudar à noite, fez vários cursos, entre eles o de Tecnologia de Manutenção Industrial.

Os diversos livros de Luís Mendes Pombinho. Créditos: mediotejo.net

A “veia literária” despertou-a o avô materno, um pequeno empreiteiro responsável por algumas obras do Santuário de Fátima realizadas anos de 1930, “um homem com uma cultura acima da média”, militar na Primeira Guerra Mundial como segundo sargento enfermeiro na zona de Versalhes, perto de Paris, portanto com muito para contar, explica. “Comprava o jornal todos os dias, tinha muitos livros em casa, um homem que lia muito”.

Também o pai de Luís Pombinho apresentava alma de artista. “Não escrevia, desenhava. As suas letras eram desenhadas”. E a mãe, apesar de ter nascido em 1915, cinco anos após a implantação da República, era uma fervorosa monárquica e “sabia tudo sobre História” de Portugal, recorda.

O autor, também ele soldado na Guerra Colonial durante dois anos e dois meses em Angola, não gosta de percorrer essa história de fio a pavio, mas detém-se em certas recordações como no livro “Um dente por paixão” escrito em 2009, que assume um ângulo pessoal, por ser uma história verídica que o autor vivenciou, embora acrescentando alguma ficção.

Os soldados “sem castigos tinham direito a um mês de férias. Alguns rapazes vinham, a meio da comissão, passar férias à metrópole. Mas notava que quando regressavam ficavam piores da cabeça. Então decidi ir de férias a Luanda e conheci uma rapariga” e a história começa aí.

Luís regressou ao mato mas, passados três meses, a paixão por Isabel obrigou-o a inventar uma dor de dentes “para ser levado para o hospital de Luanda. Não tinha quaisquer dores. Estive lá mais de duas semanas. Fui ver dela à praia da ilha – o irmão tinha o conjunto de música Black Ties onde Isabel era vocalista -,  e vi que tinha outro namorado”. Voltou para o hospital e depois para o cenário de guerra mas sem o dente são, que o médico decidiu arrancar não fosse doer-lhe a meio de algum combate.

Até ao seu apelido Pombinho está ligado a uma história de amor. “O meu bisavô paterno era proprietário de três barcos fragatas que transportavam mercadorias para Lisboa, parando em vários portos onde tinha amantes. Na época, ao homem que tinha muitas amantes chamavam-no de pombinho” e neste caso a alcunha derivou em apelido.

Na sua obra, diz que “Factos de vida” é o único livro que editou através de uma editora, com prefácio dos dois filhos, “muito íntimo, uma espécie de diário, escrito para a família”, explica. Contudo, o livro que mais gosta intitula-se “Até o sol me abandona” sobre as famílias e a dissipação das grandes fortunas nas terceiras gerações, focado no início do século XX e para o qual teve obrigatoriamente de fazer alguma investigação.

Sobre as contendas locais, o autor escreveu “Maestro do Coreto”, uma critica inspirada na má sorte do coreto de Tramagal, “uma terra muito dividida. Haviam duas coletividades, que ainda existem, uma foi sempre a coletividade do povo; a Sociedade Artística Tramagalense, e o Teatro Tramagalense que tinha donos, só lá entrava quem eles queriam. Contava-se que um dos presidentes da Junta da altura decidiu mandar retirar o coreto que era da Sociedade Artística”, explica.

O tramagalense Luís Pombinho já editou 14 livros e escreve outro para ser lançado no início de 2021. Créditos. mediotejo.net

Apesar dos contos, da poesia, da prosa, das memórias, por vezes o romancista surge à tona da escrita, juntando pedaços de rabiscos a lápis no papel que Luís carrega sempre consigo até quando vai à pesca não vá surgir alguma ideia. Tem noites que se levanta com elas, as ideias, e rapidamente substitui a cama pela secretária, escrevendo tudo no computador, evitando que o sono apague a criação.

Atualmente escreve uma nova história, ainda sem título, “que começa na passagem de nível da Bemposta” sobre a problemática do alcoolismo envolvendo um crime, que espera lançar publicamente em janeiro de 2021. Um livro que será maior em páginas que os anteriores, quase todos com cerca de 200. O próximo contará com cerca de 300 páginas.

Para além dos livros, Luís Pombinho escreveu o musical “E foi assim” para a Sociedade Artística Tramagalense. Ainda tentou escrever uma peça de teatro mas “é complicado, tem muitas deixas”, afirma.

Durante 26 anos esteve ligado ao associativismo, desde logo na SAT, foi fundador do clube desportivo da empresa onde trabalhava em Leiria, e também dirigente de dois clubes desportivos, do Hoquei Clube de Leiria e do Sport Clube de Leiria e Marrazes, sendo ainda vice-presidente da Associação de Patinagem de Leiria.

Atualmente, no regresso às origens em Tramagal dedica-se ao que mais gosta. “Escrever! Ponho os auscultadores só com música, clássica por exemplo ou com guitarra, e vou escrevendo. Muitas vezes faço um reset e vai tudo para o lixo”.

E neste fervilhar de histórias, umas mais romanceadas que outras, Luís ambiciona desvendar os textos, que mostram detalhes da vida, a um público mais alargado. Numa exposição, após a pandemia, talvez.

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Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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