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Sábado, Outubro 23, 2021

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Tramagal | Fábrica da MFTE aumenta volumes de produção, contrata mais 40 colaboradores e lembra más acessibilidades – Jorge Rosa (C/VIDEO)

A fábrica da Mitsubishi Fuso (MFTE) no Tramagal vai aumentar o ritmo de produção de camiões Canter já em setembro e está a contratar mais 42 pessoas para fazer face às necessidades de produção, chegando quase aos 500 funcionários já a partir do próximo mês. A produção diária de camiões, onde mais de 90% vai para exportação, vai subir 17% (de 46 para 54 camiões/dia) e o aumento da procura e o crescimento de produção não se coaduna com a falta de acessibilidades, disse ao mediotejo.net Jorge Rosa, CEO da MFTE, tendo lembrado a necessidade uma ligação à A23 através de uma ponte sobre o Tejo, ou, no mínimo, requalificando toda a EN118 no troço Pego – Chamusca.

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Portugal vai começar a fabricar camiões elétricos no final de 2019, a partir da fábrica da MFTE do Tramagal, e sob a liderança de Jorge Rosa, 62 anos, que está na fábrica do Tramagal, no concelho de Abrantes, há 38. “Entrei com 24 anos na então Metalúrgica Duarte Ferreira, em 1980, depois de tirar o curso de Engenharia, em Lisboa, e nunca mais saí. Hoje sou o mais antigo funcionário da fábrica. E o mais velho também”, afirma, sorridente.

De um total de 450 funcionários, com idades entre os 18 e os 62 anos (média global de 40 anos), cerca de 50 são licenciados e a grande maioria tem o 12º ano de escolaridade, “condição de recrutamento”, desde os serviços administrativos aos operadores fabris nas várias categorias profissionais, tendo a MFTE ajudado a qualificar os mais antigos, através do programa Novas Oportunidades.

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Natural de Castanheira de Pera, onde nasceu a 1 de agosto de 1956, Jorge Rosa, casado, um filho, cedo veio morar para Torres Novas, onde ainda reside. “Vivo em Torres Novas desde os meus 5 anos, mas vivi ainda um período em Tramagal, entre 1983 e 1987”, recorda os “momentos muito difíceis” da fase final da Metalúrgica Duarte Ferreira, “com muitas dificuldades para toda a gente que aqui trabalhava”.

Em entrevista ao mediotejo.net, Jorge Rosa diz que prefere lembrar-se dos momentos bons e que o trouxeram, a ele e à fábrica, até aos dias de hoje, tendo sublinhado que, hoje, “ainda há muitas práticas nesta casa que, sem darmos conta, têm um pé ainda na Metalúrgica Duarte Ferreira”. Para o futuro, questionado sobre que desejo poderia formular, Jorge Rosa pediu “estabilidade”.

Aumento dos volumes de produção e de colaboradores na MFTE agudiza problema das acessibilidades – Jorge Rosa. Foto: mediotejo.net

mediotejo.net – Confirma a contratação de mais 40 funcionários e o aumento de produção de camiões na MFTE? A que se devem estas medidas?

Jorge Rosa – Confirmo que a partir de setembro vamos aumentar o nosso nível diário de produção e consequentemente vamos ter de reforçar o número de trabalhadores. Vamos admitir a partir de setembro 42 trabalhadores. E as razões são simples: nós dependemos muito das solicitações do mercado, que no ano passado era só a Europa e hoje temos outros destinos, nomeadamente Marrocos e Estados Unidos. As conjugações de solicitações em alta destes vários mercados impõem que nós tenhamos de crescer o volume diário de produção e é isso que vai acontecer a partir de setembro.

Quantos funcionários tem hoje a fábrica e que camiões vão produzir mais em setembro? Os veículos elétricos?

Neste momento somos um total de 450 trabalhadores e ficaremos muito perto das 500 pessoas a partir de setembro. Estamos a falar das viaturas convencionais, das viaturas a combustão. Os veículos elétricos são ainda produções pontuais, não é um veículo que esteja a ser produzido de forma regular. Este crescimento tem a ver com ainda a ver com um veículo convencional. Em 2019 vamos produzir ainda a geração atual, algumas dezenas de unidades. No final de 2019, início de 2020, teremos então a versão definitiva, a partir do qual teremos uma produção regular e em massa da versão final deste produto que temos já começado… produzimos já  este ano e que distribuímos por diversos países da Europa e pelos Estados Unidos também.

A fábrica da MFTE é a única na Europa a produzir os camiões elétricos?

A fábrica do Tramagal será a única… isto veio com o elétrico…. O veículo comercial elétrico é produzido no Japão e no Tramagal, alguns dos mercados serão abastecidos a partir do Tramagal e outros a partir do Japão. Portanto, a Europa naturalmente a partir do Tramagal e, em princípio, os Estados Unidos também. O desenvolvimento do produto é feito, como sabe, essencialmente no Japão. Obviamente que nós temos no lado europeu um quadro de Quadros alargado. Nós temos mais de 50 licenciados connosco em algumas áreas da empresa e alguns deles fazendo a ligação com Japão ao nível do desenvolvimento de produto. O desenvolvimento de produto é feito essencialmente no Japão.

Este aumento do nível de produção esgota a capacidade instalada da empresa?

A capacidade de produção não esgota… aliás, nós estamos ainda a trabalhar num turno e temos sempre a possibilidade de trabalhar em dois turnos e dessa forma duplicaríamos imediatamente a nossa produção. Neste momento estamos a produzir 46 unidades por dia e vamos passar para 54. Um aumento diário de 17 por cento.

Primeiro veículo comercial 100% elétrico fabricado em série. Foto: MFTE

São centenas de camiões produzidos por mês…como escoam o produto final de Tramagal para a Europa?

Nós escoamos por via marítima e terrestre. A grande maioria vai para Sines para fazer o transporte marítimo. Daqui para Sines vai de camião.

A questão da falta de acessibilidades é uma questão recorrente..continua a ser um problema?

A questão das acessibilidades é um tema recorrente e continua a ser uma preocupação. Temos vindo a manifestar às autoridades locais, à Câmara Municipal, ao Governo, a nossa preocupação. Porque à medida que a produção cresce este problema é cada vez maior. São camiões de grandes dimensões para transportar o nosso produto acabado que cada vez mais tem sair daqui do Tramagal e a EN 118 tem as limitações que todos nós conhecemos, quer para o lado de Abrantes quer para ir até Sines. Se quisermos ir pela autoestrada então é uma dificuldade.

Qual seria a solução para resolver o problema de acessibilidades?

A solução seria uma ligação à A23 através de uma travessia sobre o Tejo, mas no mínimo a melhoria da EN 118 no troço do Pego até à Chamusca teria de ser melhorado. Sobretudo toda esta zona do Tramagal… é inconcebível. É recorrente quando somos visitados por entidades que não conhecem a razão pela qual há uma fábrica neste local e interrogam-se por que viemos fazer uma fábrica num sitio onde é quase impossível entrar e sair. Isto é um problema recorrente para nós e será cada vez mais à medida que a produção vai crescendo.

A partir de 2019 haverá produção em simultâneo de camiões convencionais e elétricos com linhas de montagem diferenciadas, é isso que se perspetiva?

A partir do final de 2019 vamos ter a produção em simultâneo do veículo elétrico e do convencional em percentagens que o mercado dirá. Não temos dúvidas que o elétrico irá ao longo do tempo ganhar terreno aos modelos convencionais. Agora, quando substitui completamente ou se substitui completamente é algo a que ninguém pode responder a esta altura. Mas que vai acontecer, vai.

A grande maioria do que aqui é produzido vai ser para exportação, portanto?

E o grande volume será para exportação. Nós produzimos mais de 90 por cento para fora de Portugal, só cá fica 7 ou 8 por cento da nossa produção e essa vai continuar a ser a tendência.

E os Estados Unidos? O que produz a MFTE atualmente para aquele país? É um projeto para manter? Como surgiu esta oportunidade?

Nós temos um projeto que está a decorrer para o mercado americano em que nós produzimos o camião sem motor porque os Estados Unidos instalam um motor a gasolina. Portanto, o carro é terminado nos Estados Unidos. Para nós é um camião sem motor. Estas oportunidades aparecem dentro do grupo. Quando o mercado americano levantou esta necessidade de ter um veículo a gasolina nos EUA verificaram-se as várias possibilidades; iria do Japão ou das outras fábricas que a Mitsubishi tem. Portugal foi uma das opções e a que se verificou que tinha mais condições e que era uma solução economicamente mais viável. Representa 20 por cento da nossa atividade nesta altura. É muito importante para nós. Nós pensamos que este é um projeto que se vai manter. Vamos ver o que é que a alteração dos regimes de taxas de importação americanas se empatam este nosso negócio.

“Gostaria de ver estabilidade política, a nível nacional e internacional, e previsibilidade”. Jorge Rosa. Foto: mediotejo.net

A MFTE vai chegar quase aos 500 trabalhadores com idades muito variadas, sendo Jorge Rosa o mais antigo funcionário. Lembra-se do dia em que entrou para a então Metalúrgica Duarte Ferreira?

Temos um espetro de idades que vai, de facto, dos 18 aos 62 anos e nesta altura eu sou o colaborador mais antiga desta empresa. Para além de mais velho, o mais antigo, se quiser (ri-se). Lembro-me muito bem quando entrei para esta fábrica. Tinha 24 anos e nunca mais saí, com tudo o que isso tem de bom e de mau. Tenho acompanhado a história da empresa nos últimos 38 anos… sou um pouco também da história da vida desta empresa.

Que projetos apanhou na altura? Os míticos Berliets, que iam para o Ultramar?

Apanho um projeto que se tentou iniciar que era relançar os TT 13/150. Ainda produzimos 5 carros militares mas depois não conseguimos ganhar o concurso e o projeto morreu. Portanto essa é a minha ligação aos carros militares e depois é basicamente a ligação aos produtos da Mitsubishi que produzimos aqui desde 1980.

Que momentos destaca, destes 38 anos de vida nesta fábrica?

São muitos, muitos momentos. Momentos iniciais muito difíceis, na fase final da Metalúrgica Duarte Ferreira, com muitas dificuldades para toda a gente que aqui trabalhava… momentos maus teria havido muitos, mas eu só me lembro dos bons. Lembro-me das várias conquistas que fomos tendo ao longo dos anos, coisas que fomos sonhando e imaginando e que foram acontecendo e que me trouxeram até aqui. Das más não me lembro.

O espírito, o legado da MDF continua vivo e presente nesta casa?

Sem dúvida. Há hoje ainda muitas práticas nesta casa que, sem darmos conta, têm um pé ainda na Metalúrgica Duarte Ferreira.

Com a estabilidade e reforço de produção da MFTE, tendo em conta a volatibilidade dos mercados, que podemos perspetivar do futuro desta fábrica?

Não podemos ter nada como garantido. As variáveis que a economia e a política mundial podem desequilibrar a lógica de equilíbrio de crescimento que temos hoje. A qualquer momento, uma qualquer legislação pode alterar. É claro que não podemos viver aterrorizados por essas questões, temos que pensar positivo, mas nada é para sempre. Temos é que fazer perdurar no tempo este projeto, o mais possível, e é isso que temos feito de há 30 anos para cá. Para breve o futuro é de muito trabalho e não vale a pena pensar muito a longo prazo. O momento que estamos a viver é bom é de crescimento. Temos de trabalhar e de apostar.

Se pudesse ter um desejo que gostasse de ver concretizado, qual seria?

Gostaria de ver estabilidade política, a nível nacional e internacional, e previsibilidade.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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