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Quinta-feira, Outubro 28, 2021

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Tramagal | Casal da Coelheira otimista em relação à qualidade dos vinhos para este ano

Até ao lavar dos cestos é vindima. E foi isso que aconteceu entre o dia 12 de agosto e 28 de setembro, na Quinta do Casal da Coelheira, em Tramagal. Foram um pouco mais de 200 as toneladas de uva apanhadas ao longo dos 45 hectares de vinha que parecem augurar bons vinhos. O mediotejo.net esteve à conversa com Nuno Falcão Rodrigues, enólogo e proprietário da quinta, para perceber um pouco melhor do que se pode esperar dos vinhos que entretanto vão chegar às mesas dos portugueses e de outros países por esse mundo fora. 

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As condições climatéricas podem ditar o destino das produções agrícolas, é certo e sabido. Foi precisamente a ação do clima, mais concretamente uma geada tardia, que resultou numa queda na ordem dos 25% na produção a nível de brancos. Os tintos, pela localização das vinhas, acabaram por ser menos atingidos pela geada, não havendo portanto uma quebra  significativa, estando a produção em linha com a do ano passado.

Embora começando com uma notícia menos boa, o futuro parece auspicioso, assim o diz Nuno Falcão Rodrigues, numa conversa na adega desta quinta, onde estão expostos prémios e reconhecimentos que creditam a qualidade do vinho ao longo de vários anos.

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Embora inicialmente apreensivo devido a “algumas instabilidades nas retas finais de maturação”, o enólogo diz que essas preocupações não se verificaram, e que este ano as condições do clima na sua generalidade foram mais favoráveis para a maturação da uva, uma vez que não existiram picos de calor acentuados como aconteceu noutros anos. Este verão foi mais amenos e mais suave para a própria cultura, referindo o enólogo que “tudo indica que as condições de maturação este ano estarão próximas daquilo que é o ideal”.

Embora contra algumas adversidades, esperam-se bons vinhos no Casal da Coelheira, da vindima deste ano. Foto: mediotejo.net

Por esta altura, os vinhos brancos já estão todos fermentados, tal como a generalidade dos vinhos tintos, embora estes ainda tenham uma segunda fermentação (menos conhecida do público em geral) e que podem ainda mexer um pouco com a qualidade do vinho. Nuno Falcão Rodrigues garante que neste momento se encontra muito mais otimista em relação à qualidade do vinho do que estava no arranque da vindima, acrescentando que, em relação aos brancos, estes “estão muito frescos, muito elegantes” enquanto os tintos têm “boa estrutura, bom corpo, muita cor”.

ÁUDIO | Nuno Falcão Rodrigues faz um breve resumo do processo de produção no Casal da Coelheira, fazendo a distinção entre vinhos brancos, tintos e rosé

No que a castas diz respeito, o foco recai essencialmente sobre as portuguesas: Fernão-Pires, Arinto e Castelão são algumas das castas tradicionais da região que foram preservadas na quinta, mas outras foram introduzidas como a Touriga Nacional, Touriga Franca ou a Alicante Bouschet, casta que embora não seja originalmente portuguesa, hoje em dia já é considerada portuguesa por praticamente só ser plantada em Portugal.

Estão ainda presentes outras castas, francesas, como a Chardonnay, Cabernet Sauvignon ou Syrah, que foram introduzidas no início da história desta família na quinta do Casal da Coelheira, a qual adquiriram em 1986.

Quinta do Casal da Coelheira, Tramagal. Casta Fernão-Pires. Créditos. mediotejo.net

Conforme explicou Nuno Falcão Rodrigues, estas castas de origem francesa foram introduzidas de modo a dar alguma segurança na reconversão que as vinhas exigiam na altura, dado que nesse período ainda havia pouco conhecimento sobre as castas portuguesas. Não era que elas não existissem, mas tradicionalmente a plantação das vinhas portuguesas era feita com mistura de castas.

“Ainda hoje se visitarmos algumas vinhas velhas por aí vamos encontrar numa mesma parcela várias castas diferentes”, notou o enólogo.

Uma vez que nessa altura não se produziam vinhos com uma única casta e se conhecia muito pouco sobre o potencial individual de cada uma das castas, foi importante a introdução de castas francesas, as quais continuam a existir nas vinhas do Casal da Coelheira, embora atualmente com uma importância menor em relação à que tinham, uma vez que o foco hoje vai para as castas portuguesas.

“Penso que é isso que faz sentido não só a nível do mercado nacional mas essencialmente a nível dos mercados internacionais. Apresentarmo-nos com algo diferenciador e diferente daquilo que os outros produtores possam ter e com qualidade, obviamente, pois não vale a pena estar a produzir diferente só para ser diferente. Mas efetivamente as castas portuguesas dão-nos uma grande garantia dessa qualidade que é necessária ter hoje em dia para se entrar nestes mercados bastante competitivos”, explicou Nuno Falcão Rodrigues.

Laboratório do Casal da Coelheira. Foto: mediotejo.net

Responsável pela distinção dos vinhos do Casal da Coelheira estão algumas características peculiares, começando pela presença do rio Tejo. Conforme explicou Nuno Rodrigues ao nosso jornal, este elemento não é importante apenas para dar o nome à região, mas também porque cria condições edafoclimáticas (relativas ao solo e ao clima) muito peculiares, permitindo, por exemplo, que as manhãs de verão sejam um pouco mais frescas e que as amplitudes térmicas diárias sejam um pouco mais altas, algo que é vantajoso para a maturação das uvas.

O facto de os terrenos onde se encontra a quinta e as vinhas serem arenosos, bastante pobres, profundos e bem drenados é também um grande auxílio na produção de vinho de um qualidade. Ou seja, de acordo com o enólogo, o facto terrenos apresentarem uma fertilidade bastante baixa acaba por torná-los adequados à produção de uvas de maior qualidade, uma vez que a falta de nutrientes no terreno acaba por limitar de uma forma natural o desenvolvimento e o vigor da planta, existindo assim uma produção controlada de forma natural.

Este é, na verdade, tanto um dos problemas como uma das vantagens do Casal da Coelheira, dependendo do ponto de vista. Tal como explica o enólogo da quinta: “temos essa vantagem porque é mais um garante da qualidade, mas por outro lado, as baixas produções também acabam por fazer com que os nossos custos de produção sejam mais elevados do que em outros sítios onde há maiores produções”.

Casal da Coelheira, Tramagal. Créditos: Vinhos Casal da Coelheira

Mas é esta garantia de qualidade e de relativa pequena produção que permite ao Casal da Coelheira pulverizar-se por cerca de 20 países ao redor do globo. Embora atinja vários tipos de mercado, há uma questão em comum que une esses mercados: são mercados que valorizam a qualidade e a diferenciação, não sendo, portanto mercados de massificação e de grandes volumes.

“E essa é obviamente também a única forma de o Casal da Coelheira, como pequeno produtor que é, conseguir ter os seus vinhos difundidos por um leque tão grande de mercados e países. Provavelmente se tivéssemos um mercado mais massificado, um único país iria absorver toda a nossa produção, mas realmente o que temos são clientes de uma dimensão mais pequena, mais dedicados às áreas da restauração, hotelaria ou lojas especializadas”, detalhou Nuno Falcão Rodrigues.

Embora o mercado português continue a ser “uma peça muito importante no puzzle”, é através da exportação que o Casal da Coelheira vende entre 65% a 70% da sua produção. Percorrendo um pouco o mundo todo, ou não fossem eles portugueses, os vinhos do Casal da Coelheira marcam presença em países como a Bélgica, a Coreia do Sul, a Suíça, a China ou o Brasil, país este onde os vinhos do Casal da Coelheira estiveram um pouco parados nos últimos anos, mas que em 2020, e agora também com o reforço de novos parceiros já em 2021, os vinhos desta quinta tramagalense estão a a conseguir consolidar, crescer e voltar novamente ao mercado do Brasil com uma presença mais visível.

Aliás, no ano transato – embora tivesse sido um ano atípico e difícil para apostas – surgiram outras oportunidades a que esta marca da região conseguiu dar resposta e que contribuiu para um crescimento na ordem dos 20% das suas vendas nesse ano, o qual está “felizmente a ser consolidado com um novo crescimento em 2021, sobre aquilo que tivemos em 2020”, referiu Nuno Falcão Rodrigues. 

Os vinhos do Casal da Coelheira tem amealhado distinções ao longo dos anos.

Também a nível de prémios, Nuno Falcão Rodrigues, também ele nomeado para enólogo do ano 2018 na 11ª edição dos Prémios W, diz que a marca felizmente tem sido contemplada, fazendo referência uma “pontinha de sorte que se tem de procurar e para a qual trabalhar”.

Não descurando que muitos bons vinhos acabam por escapar, pelas mais diversas contingências, ao crivo de qualidade de quem faz as avaliações, Falcão Rodrigues não tem falsas modéstias: “naturalmente, só ganham os bons vinhos”.

Este ano e a este nível, o enólogo diz que também tem corrido bem, fazendo referência a várias medalhas de ouro a nível nacional e internacional: a nível nacional foram precisamente duas medalhas de ouro e duas de prata e a nível internacional, três medalhas de ouro e duas de prata no Mundus Vini. O grande destaque do ano, também a nível internacional, vai para a conquista de uma das 10 grandes medalhas de ouro que foram atribuídas a Portugal no concurso mundial de Bruxelas, sendo neste caso premiado o “ex-libris” do Casal da Coelheira, o vinho Mythos de 2019.

Nuno Falcão Rodrigues, que também já foi distinguido como enólogo do ano em 2011 pela Comissão Vitivinícola Regional do Tejo, diz que estas distinções são motivo de grande orgulho, que ajudam à visibilidade e que são também “o reconhecimento do trabalho de toda uma equipa ao longo do ano”.

Relativamente às iniciativas da Rota dos Vinhos e da Tejo Wine Route 118, Nuno Falcão Rodrigues diz que estas são de louvar e que muitas vezes são de facto o motor para quebrar um pouco alguma inércia que às vezes possa existir: “O Casal da Coelheira tem talvez sofrido um pouco com essa inércia, também fruto da estrutura familiar que nos caracteriza, uma estrutura relativamente pequena que nem sempre nos permite responder a tudo aquilo que gostaríamos. Efetivamente o Casal da Coelheira não está ainda hoje dotado das competências necessárias para todos esses desafios que se levantam”, notou.

O ponto mais a norte da Tejo Wine Route 118 é o Casal da Coelheira.

Embora preferindo um termo português, Falcão Rodrigues considera a conceção da Tejo Wine Route 118 muito interessante, naquele que é mais um desafio a ser aproveitado de modo a cativar público para a região, tendo o Casal da Coelheira de também “tomar as suas próprias decisões e iniciativas para conseguir acompanhar esta iniciativa e poder aproveitar esta oportunidade que naturalmente trará para a nossa região e também para os nossos vinhos”, disse o enólogo.

“Felizmente hoje em dia temos grandes vinhos de norte a sul de Portugal, mas a minha sugestão é efetivamente procurar descobrir aquilo que está por descobrir”, propõe Nuno Falcão Rodrigues, fazendo menção ao lançamento que está a ser preparado de um vinho monovarietal da casta portuguesa Fernão Pires, “a casta rainha da nossa região, que tem um potencial fantástico para fazer vinhos de qualidade e que esteve muitos anos na sombra”, deu conta o enólogo.

“Portanto, há sempre coisas a descobrir no Casal da Coelheira. Embora pequeno produtor acho que temos um portefólio relativamente vasto que permite chegar a vários gostos e paladares. Seja para um momento mais descontraído ou mais formal, uma refeição mais pesada, mais leve ou mesmo um simples aperitivo, haverá sempre aqui uma solução adequada”, garante Nuno Falcão Rodrigues, num brinde à qualidade de vida e dos vinhos da região.

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Licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade da Beira Interior. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo. Ávido leitor, não dispensa no entanto um bom filme e um bom serão na companhia dos amigos.

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