Quinta-feira, Março 4, 2021
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Tramagal | 30 Anos: “O foguete”, por Bruno Neto

Amálgama de estórias de uma terra que poderão ter ou não acontecido

“Fazes a festa, mandas os foguetes e ainda vais apanhar as canas”, vai repetindo o meu pai, há trinta e tal anos, de cada vez que estamos juntos, nos momentos em que eu estou na minha parvoíce de cachopo eterno.

A elevação de Tramagal a vila começou com um foguete. O som estridente de um foguete num dia a meio da manhã. Tinha 7 anos e lembro-me de ir a correr à rua para ver se via alguma coisa. E consegui ver ainda, uma atrás de outra, pequenas explosões recheadas de uma pequena e simbólica nuvem de fumo e um som de estremecer.

Sempre gostei muito dos foguetes. Enquanto o sino que o meu avô Eduardo badalava chamava para o “sagrado”, os foguetes eram o símbolo da festa, do profano, do momento em que se podiam ultrapassar as regras do dia-a-dia, onde nos libertávamos da cruz do trabalho duro ou simplesmente das longas jornas existenciais.

Os foguetes em Tramagal eram o chamamento especial para a celebração. Normalmente eram lançados quando abria o recinto das festas.
E que mais sagrado sinal havia e haverá que esta mágica explosão?

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Os foguetes eram os sinais bons, mas ao mesmo tempo, sempre uma imagem de medo, porque a meio das festas também se lançavam foguetes e lembro-me que era o momento “Guerra dos Tronos” Tramagalense, porque este lançamento de foguetes trazia uma competição em flashes da ‘non ou a vã glória de mandar’ para ver quem apanhava mais canas, ou ao mesmo tempo para quem ficava agarrado pela trela da voz dos pais (como eu) que fazia ranger a vontade de correr e competir pela apanha das canas: “Oh Bruno, nem penses ir apanhar canas, o foguete pode ter rebentado mal e ainda ficas sem dedos na mão”, ouvia eu em ressonância na minha cabeça.

Mas com ou sem trelas, todos seguíamos os passos do Senhor dos Foguetes que sempre tinha um SG Gigante no canto da boca e um olho mais fechado porque o fumo lhe incomodava a vista. Ele pegava na cana com a gentileza de um oleiro, acendia com o cigarro o rastilho do foguete e permitia que o foguete chiasse ceús adentro até à explosão que nos colocava em polvorosa. Depois desse momento mágico todos seguíamos – sem facilitar – o percurso da cana já rebentada e (os que não tinham essa trela) lá corriam para alcançar a glória da apanha das canas. Nunca apanhei nenhuma, mas também nunca nenhum dos meus amigos ficou sem dedos na mão. Tive de ultrapassar essas tristezas, tive se seguir vida e passei a amador da apanha das canas das próprias piadas que faço. Sei que não é a mesma coisa, mas sei que irei conservar os meus dedos na mão.


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A Vila de Tramagal nasceu com um som de um foguete e 30 anos depois continuamos com mais razões para festejar e lançar mais foguetes. Muito fizemos para ultrapassar todos os traumas da decadência da Metalúrgica e qual Fénix nos conseguimos levantar e erguer aos céus como um lindo foguete.

Tramagal não é uma terra normal. Não pode ser. Não acredito que seja. Há demasiada história, demasiada gente fabulosa para caber tudo numa pequena terra com uma população tão pequena. E até os fascistas soubemos reintegrar na nossa comunidade e nestes 30 anos se misturaram com resto da população e até dizem bom dia e boa tarde como grandes e profundos democratas, ainda que felizmente o meu pai me tenha identificado alguns que eram informadores da Pide lá na fábrica… Mas a maior parte já morreu e esse assunto fica enterrado com o esplendor dos que ativamente lutaram pela liberdade e pelo sonho de uma sociedade mais justa.

Por todo o mundo que vou, afirmo orgulhosamente o nosso padrão sócio-cultural, os nossos produtos locais, as nossas conquistas únicas e empreendedoramente interessantes. Puxo também os galões pelas 20 e tal organizações da sociedade civil e reforço sempre que a maioria delas funciona através da vontade, da carolice e da disponibilidade, quase estranha neste mundo atual, num imenso desapego para tanto dar em prol da nossa comunidade.

E claro que nada é fácil, temos tudo mas sempre iremos querer mais… somos o Shangri-Lá do Além Tejo, e por sermos especiais, somos uma terra em que a dinâmica social sai sempre numa rifa cara numa quermesse (em tramagalense: Cármesse) conceptual. Rifa caríssima, acabo por reforçar.

Porquê?

Porque somos uma terra que classificaria a nível político muito semelhante à Gália – a famosa terra do Astérix. A nível individual e de individualidades acho que seremos sempre sonhadores Don Quixotes e Sanchos Panças e, no âmbito social (sem grandes dúvidas), eternos Marretas.

Somos uma terra com um passado fabuloso, somos o roer do pedalar das bicicletas dos metalúrgicos na hora de almoço, somos o braço no ar de qualquer 1º de Maio, somos o sorriso de um retrato de gravatas inventadas, somos o esplendor do toque de saída do fim de turno, somos o badalar de todos os chamamentos sagrados e somos e seremos eternos perseguidores de foguetes mal rebentados.

Somos sempre o que quisermos ser, mas só triunfaremos, quando juntos quisermos vencer.

… e vivemos intenso, trabalhamos imenso e morreremos de pé.

Viva Tramagal.

Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um colecionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em 4 continentes tendo estado envolvido em projectos em mais de 25 países. Hoje chefia uma missão médica humanitária na Serra Leoa. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade. Escreve mensalmente no mediotejo.net

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