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Segunda-feira, Dezembro 6, 2021
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Torres Novas | VASTO, espetáculo poético fruto da gestação de três mulheres, ganha vida este sábado

Unidas pelo amor às palavras e à poesia, Andresa, Fernanda e Rita juntaram-se para criar uma homenagem – declamada, cantada e musicada – à arte poética em língua portuguesa. O mediotejo.net conversou com duas das mentoras do projeto para perceber o que o público poderá esperar deste espetáculo que, para já, será "filho único", de uma noite só.

“VASTO” é o nome do projeto concebido por três mulheres unidas pelo amor às palavras e à poesia. Andresa, Fernanda e Rita juntaram-se para criar uma homenagem – declamada, cantada e musicada – à arte poética em língua portuguesa, invocando autores de Portugal a Moçambique, passando pelo Brasil ou São Tomé e Príncipe. Tendo como fio condutor os quatro elementos da natureza, também o empoderamento da mulher está presente nesta performance que, depois de 9 meses de ensaios, verá a luz no palco do Teatro Virgínia, em Torres Novas, na noite deste sábado, 27 de novembro, às 21h30.

Mas o que é este “VASTO”? “No fundo, é uma homenagem à poesia da língua portuguesa, também de acordo com as nossas particularidades, trabalho e experiências de vida”, começa por resumir Andresa Olímpio. Na verdade, começou a ser delineado depois de Andresa e Fernanda Collares Borghetti, escritora, se conhecerem num projeto desta primeira, o Roda de Leitura, que promove sessões intimistas de poesia, normalmente na natureza. Já com algumas ideias na gaveta, as duas foram pensando e conversando, e a ideia do espetáculo foi sendo construída. 

Por intermédio de Fernanda, juntou-se ao grupo Rita Damásio, cantora, pelo que se começou a criar um projeto em torno da poesia mas “dando voz aos poemas, não só pela leitura”. Percebendo “as particularidades que cada uma tinha, os trabalhos que cada uma desenvolvia, com a poesia, com a palavra, com a voz”, foi-se criando naturalmente o espetáculo, conta Andresa. 

A preparação para o espetáculo, com vários ensaios, durou 9 meses: uma verdadeira “gestação”.

Dividiram o trabalho, restringindo a pesquisa bibliográfica a poemas relacionados com os quatro elementos da natureza: o ar, a água, a terra e o fogo. Entretanto, entre as três, foi consensual a vontade de que o projeto fosse também um manifesto feminino – não feminista, clarificam – mas relativo ao empoderamento da mulher e da voz da mulher, pelo que além dos quatro elementos, focaram a pesquisa em autoras femininas.

Mas há sempre alguns “desvios” desse alinhamento e das condições “autoimpostas”, e as mentoras do projeto também sentiram a necessidade de falar de outras coisas. “No que toca a empoderamento feminino, eu que estava responsável pela pesquisa da poesia do Brasil, trouxe uma exceção à regra, trouxe um poema que não tinha os quatro elementos, mas que era da representatividade afrodescendente, ou seja, além do empoderamento feminino também senti a necessidade de dizer o quanto ainda é mais difícil o empoderamento feminino na raça negra, no contexto do Brasil”, exemplifica Fernanda.

“Portanto, houve uma série de particularidades que cada uma, no seu entendimento e no seu sentimento de missão, de trabalho, de emoção que sente quando lê ou quando escreve, trouxe numa carga muito subjetiva em cada percurso de escolhas”, acrescenta a escritora natural do Brasil.

Se tinha toda a lógica Fernanda ficar responsável pela poesia em português do Brasil, também fazia sentido que Rita se encarregasse da poesia portuguesa originária de países de África – uma vez que é formada em Estudos Africanos. A poesia em português de Portugal ficou nas mãos de Andresa.

As três artistas abordam poesia de língua portuguesa de Portugal (Andresa Olímpio), Brasil (Fernanda Collares Borghetti) e também de países africanos (Rita Damásio). Créditos: DR

O foco não recai unicamente numa época literária. “Tivemos a preocupação de trazer vários tempos, não ficamos só nos nomes clássicos ou modernistas, trouxemos também poetas atuais, contemporâneos”, diz Fernanda, explicando que ao longo do processo, que foi uma verdadeira gestação (nove meses), foram sendo limadas ideias num constante brainstorming “super cansativo” mas igualmente “muito gratificante”, uma vez que o espetáculo, “que tem muito trabalho por trás, ficou com a personalidade de todas”, complementa. 

Até porque o espetáculo não se limita unicamente a dar voz aos poemas, mas também de lhes “dar corpo, aproveitando as particularidades que cada uma de nós tem”, explica Andresa Olímpio, pelo que vão existir momentos de leitura mais encenada, mais performativa, algumas canções, leitura de pedaços de poemas também de forma mais ligeira, e canto. Para o final, está ainda reservada uma surpresa, que, apurou o mediotejo.net, será musical. 

O Teatro Virgínia, a Poesia e a Cultura

Porquê um teatro, como o Virgínia, para uma performance em torno da poesia? A base da explicação parte de uma expressão, ao que parece, característica de Andresa: “A poesia entra como uma flecha no nosso coração.” O trio pensou então que precisavam de um local onde houvesse foco e as pessoas não se perdessem em conversas, para conseguirem enviar muitas flechas que acertassem em cheio no alvo.

“A poesia merece essa atenção, também merece ocupar o espaço do teatro, e nós começamos a ver que existe um movimento que está cada vez a ganhar mais força. Nos grandes centros já há muita leitura em teatros e realmente, porque não? Se nós fazemos isso da nossa vida, eu escrevo, a Andresa lê, a Rita canta, somos todas um pouco poetas, então porque não trazer isso para o palco?”, questiona Fernanda, expectante quanto a esta “semente” que vão plantar, e que esperam que dê frutos.

O Teatro Virgínia, em Torres Novas, foi o local escolhido para acolher o espetáculo. Créditos: DR

É também importante desmistificar a poesia, defende Andresa: “Não é só para eruditos. A poesia, a nosso ver, não se dirige ao entendimento, mas sim aos sentidos, por isso é que ela é construída de uma forma diferente da prosa. Recorre a muitas figuras de estilo, procura o som, o ritmo, o compasso, mesmo no verso livre em que não haja rima, são textos que devem ser sentidos. Independentemente daquilo que nos ensinam, que aprendemos na escola – e essa é outra questão –, não temos de procurar aquilo que o poeta quer dizer (…) é um apelo aos sentidos e também à imaginação”, diz Andresa.

As expectativas para o espetáculo prendem-se com o cumprir ao que se propuseram, “estamos super-preparadas, trabalhámos muito juntas, ralhámos, foi uma ebulição de emoção, e acho que a poesia precisa dessa entrega também”, diz Fernanda, que tem uma expectativa segura, embora reconheça que estejamos numa época muito incerta.

Mas essa incerteza não figura como preocupação. Todo o processo até chegar a este ponto é o que vale a pena, consideram as artistas, que sublinham o facto de a criação de algo com estrutura e consistência, sem apoios, já é um “grande passo”. O espetáculo “VASTO” não faz parte da programação oficial do Teatro Virgínia. 

É aliás, por isso mesmo que este espetáculo terá um bilhete pago, pois o projeto não teve qualquer financiamento ou apoio, à parte do apoio logístico dado pelo CRIT (Centro de Reabilitação e Integração Torrejano), instituição para a qual reverterá parte das receitas do espetáculo, que tem assim também um cunho solidário.

“A cultura também tem de ser paga, como a comida ou outras coisas materiais”, defendem.

Os bilhetes para ver “VASTO”, espetáculo que promete ser uma “lavagem dos sentidos”, podem ser adquiridos online AQUI ou na bilheteira do Teatro Virgínia, por 10 euros.

Licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade da Beira Interior. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo. Ávido leitor, não dispensa no entanto um bom filme e um bom serão na companhia dos amigos.

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