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Sábado, Julho 24, 2021

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Torres Novas | Sópovo, o fim do sonho cooperativo de um grupo de “cachopos”

Aprovado o avanço para a insolvência, em assembleia geral, nos últimos meses de 2015, a Cooperativa de Habitação Económica de Riachos – Sópovo via assim chegar ao fim 40 anos de um trabalho social intenso, que deu origem a cerca de 700 casas por todo o concelho de Torres Novas. Quem ali habita não esconde a desilusão e a generosidade do sonho de um grupo de jovens adultos, que logo em 1974 começaram a planear uma cooperativa que permitisse dar uma habitação condigna a quem nada tinha. Hoje, refletem, avançar com um projeto semelhante seria praticamente impossível.

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Sópovo é Riachos! Apesar de existirem oito bairros (conhecidos como “Bairros Sópovo”) na envolvente da cidade de Torres Novas, o berço do projeto e o seu espírito democrático reside ainda na terra da Bênção do Gado. É ali também que está instalada a sede, agora abandonada, que outrora albergou um projeto de supermercado, mas na qual subsiste apenas um café. A 1 de março de 2016, numa reunião de câmara descentralizada na vila de Riachos, o presidente da junta de freguesia, José Júlio, pediu ao executivo municipal que adquirisse o edifício sede da cooperativa insolvente. A resposta foi vaga mas positiva.

primeiro Bairro Sópovo, em Riachos, foto mediotejo.net
primeiro Bairro Sópovo, em Riachos, foto mediotejo.net

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Em 2016 a Sópovo ficou insolvente e com o destino nas mãos de um administrador de insolvência. Aos credores devia cerca de 400 mil euros.

 Os direitos de superfície foram cedidos pela Câmara à cooperativa habitacional Sópovo, que os vendeu posteriormente aos habitantes, mas os prédios ainda pertencem ao município, ao qual regressarão em 2055. Até ao dia 31 de dezembro deste ano 2018, o município de Torres Novas tem à venda a raiz dos prédios da Sópovo por 18 euros o metro quadrado, sendo que, posteriormente, o preço será revisto.

Num esclarecimento aos superficiários da cooperativa Sópovo, a Câmara Municipal de Torres Novas recorda que foi o município que cedeu os terrenos, em direito de superfície, à instituição, para que esta construísse o seu projeto de habitação social. Com os anos a cooperativa vendeu os lotes e habitações aos habitantes em regime de direito de superfície, o qual caduca, na generalidade dos casos, a partir de 2055. “A partir desta data, os lotes, habitações e benfeitorias revertem para o Município”, refere a autarquia.

Desde 2003 que o município tem vindo a vender a raiz dos prédios aos munícipes que o solicitaram. Até final do ano, por deliberação camarária, o preço de venda mantém-se nos 18 euros o metro quadrado, “data após a qual o valor poderá ser revisto”.

Na tentativa de procurar as origens desta cooperativa sui generis no país, não foi fácil ao mediotejo.net encontrar um porta-voz dos acontecimentos. Pelo jornal “O Riachense” ficamos a saber que os problemas financeiros terão começado com a construção de mais um bairro, há cerca de uma década. Má gestão, negócios pouco definidos, uma crise a nível nacional que não ajudou à resolução dos problemas. Um terreno que nunca chegou a ver as casas prometidas e cujos proprietários pouco obtiveram de retorno financeiro. Futuros inquilinos que avançaram com o “sinal” para terem direito à moradia e permanecem sem casa e sem dinheiro.

O que aconteceu à Sópovo? Ninguém tem coragem de atribuir culpas, há apenas muita desilusão e expetativas frustradas. “Foi um sonho muito bonito”, confessa uma habitante do primeiro Bairro Sópovo. E uma cooperativa que nasceu da esperança revolucionária vê agora morrer o projeto que deu teto a milhares de pessoas.

Uma ideia de cachopos

Após vários contactos infrutíferos chegamos a Bernardino Carrilho, 66 anos, um dos pais da Sópovo, que abandonou a direção no princípio dos anos 90. Carrilho e o já falecido António Pereira de Sousa foram as traves mestras do projeto Sópovo, cuja iniciativa residiu num grupo de jovens de 20 e poucos anos nos finais de 1974.

Bernardino Carrilho tinha 24 anos quando fundou, com mais 12 jovens, a Sópovo. foto de Bernardino Carrilho
Bernardino Carrilho tinha 24 anos quando fundou, com mais 12 jovens, a Sópovo. foto de Bernardino Carrilho

“Chamavam-nos cachopos”, começa por refletir, referindo que acabaram por dar o nome a uma das ruas do primeiro Bairro Sópovo, em Riachos. Mais tarde acaba por confidenciar que não era “cachopos” mas “putos” o termo que alguns grandes proprietários da época lhes atribuíam, quando a eles se dirigiam para pedir apoios. Na altura de definir o nome da Rua optaram por mudar o termo para algo menos ofensivo.

Mas sim, eram miúdos! É o próprio Bernardino Carrilho que o reconhece. Ele tinha 24 anos, acabado de chegar de Angola, quando se começou a reunir com um grupo de jovens e se iniciou o debate sobre a Cooperativa. Pretendia ser uma “resposta às carências habitacionais e a uma juventude que queria casar mas não tinha habitação e as rendas eram altas”, explica. A ideia chegou de Alverca, por alguns jovens de Riachos que lá trabalhavam. “Éramos uns 12 da Juventude Operária Católica que nos juntávamos e fazíamos atividades”. “É esta malta que se junta e começa a conversar”.

Carrilho lembra que a televisão era a preto e branco e não havia dinheiro para cinema. Os jovens juntavam-se e conversavam. António Pereira de Sousa trabalhava em Lisboa e começou a tratar dos primeiros contactos com o Instituto Nacional de Habitação. Carrilho, funcionário da Câmara de Torres Novas, ocupou-se das licenças, dos terrenos e da cativação de sócios. Não foi difícil. Para um Bairro inicial de 74 fogos apareceram 300/400 inscritos.

assembleia geral nos anos 70. Arquivo Sópovo
assembleia geral nos anos 70. Arquivo Sópovo

Os primeiros dois anos de trabalhos focaram-se na constituição da Sópovo, angariação de sócios, definição de prioridades. “Também tínhamos dúvidas”, reconhece Carrilho, mas não pediram dinheiro a ninguém. Fizeram atividades de angariação de fundos e assim foram pagando as dívidas iniciais, relacionadas com o início do projeto. “Só em 1976 se começou a pedir cotas mensais”, na altura de 100 escudos, quando a Cooperativa se legalizou e obteve financiamento do Instituto Nacional de Habitação.

“Éramos verdadeiramente democráticos. Tudo o que falávamos ponhamos à votação”, lembra com orgulho Carrilho, recordando as assembleias gerais num antigo barracão de madeira e que até o nome “Sópovo” foi a votos, apesar de não se recordar bem como ele surgiu. Mulheres não havia muitas, começaram a surgir sobretudo nos anos 90. Nos anos 70 e 80, época áurea da Sópovo, as assembleias eram maioritariamente constituídas por homens. As esposas ficavam por casa.

A partir de 1976 “começamos a sonhar que é possível”. “Damo-nos ao atrevimento de exigir que os sócios venham à assembleia, se não eram penalizados com pontos que influenciavam na prioridade da casa”, explica. No bairro inicial só existiam 74 casas, pelo que quem não cumprisse os critérios teria que esperar pelo segundo bairro. Criou-se também uma Comissão de Necessidades, que foi verificar caso a caso (120 casas) para ver quem detinha as piores condições em termos de falta de água, luz, casa de banho, etc. Foi todo este trabalho de organização e espírito de justiça social que permitiu definir para quem eram atribuídas as primeiras 74 moradias.

O espírito democrata destes jovens foi elogiado pelo Instituto Nacional de Habitação, que ganhou confiança na Sópovo, assim como por aqueles grandes proprietários, que ajudaram na aquisição dos terrenos, e que os chamavam de cachopos. A 25 de Novembro de 1979 foi inaugurado o primeiro Bairro Sópovo (sem qualquer relação com a data, sublinha Carrilho), à saída da vila de Riachos, no sentido da Golegã. “Fizemos um banquete com umas mil pessoas e uma grande mesa. Cada um trouxe qualquer coisa”, recorda.

“Às vezes não era fácil”, comenta Carrilho, lembrando as tantas reuniões que teve, as lutas, para conseguir avançar com o projeto. Os terrenos foram comprados a 27,50 cêntimos o metro quadrado e todo o montante devido ao Instituto Nacional de Habitação foi devolvido, por meio das cotas à cooperativa, ao longo de 25 anos. “Vimos que havia tanta necessidade que começámos logo a avançar com outro Bairro, de 166 fogos. A história repete-se”.

“Chegámos a ter em Riachos 600 associados”, recorda. “A grande explosão de vitalidade da Sópovo é com este segundo Bairro”, beneficiando da credibilidade que a direção adquirira ao longo da construção do primeiro projeto.

A concretização de vários Bairros decorreu nos anos 80, em Lapas, Meia Via e Torres Novas (aqui já em prédios e não moradias). A estrutura de gestão foi mudando, com a Cooperativa a perder a ligação dos sócios quando se deu a possibilidade de adquirir a propriedade das casas, já nos anos 90.

Cinco casamentos e cotas consoante os rendimentos

Bernardino Carrilho vive no primeiro Bairro Sópovo, em Riachos. Foi membro da direção até aos anos 90 e um dos pais da Sópovo. foto mediotejo.net
Bernardino Carrilho vive no primeiro Bairro Sópovo, em Riachos. Foi membro da direção até aos anos 90 e um dos pais da Sópovo. foto mediotejo.net

A história do primeiro Bairro Sópovo tem algumas particularidades, narradas entre risos e nostalgia por Bernardino Carrilho. “Os primeiros bairros é uma autogestão da cooperativa a 100 por cento. Os sócios só tinham dívida à cooperativa, que respondia ao Instituto Nacional de Habitação”. “Era a cooperativa que fazia a cobrança. Nunca houve problemas, mas havia carências”, reconhece.

O Bairro inicial respondeu integralmente ao espírito de justiça social em que foi criado. Cinco casais tiveram um mês para casar, pois estava referido nos estatutos da Cooperativa que as casas eram destinadas a casais unidos em matrimónio. Já o pagamento de cotas respeitou, durante dois anos, o regime de valor consoante os rendimentos do agregado. Quem ganhava mais, pagava mais. Mas “acabou por se fazer uma média das rendas”, comenta Carrilho, confessando que esse método de pagamento de cotas rapidamente começou a dar problemas entre os vizinhos.

“Éramos muito democratas e muito rígidos, nunca nos desviámos dos nossos objetivos”, salienta Carrilho. De lembrar que as casas, T2, T3 E T4, foram distribuídas por sorteio consoante os agregados familiares e tinham água, luz e casa de banho, condições que muitas habitações da época não possuíam. O respeito devia-se à Cooperativa, que geria e mantinha todo o património.

Porém, ao fim dos primeiros 15 anos de trabalho, os meios e as mentalidades começaram rapidamente a mudar.

O início do fim de um projeto comunitário

Edifício sede da Sópovo está encerrado, funcionando no local um café. Junta de freguesia de Riachos pediu à Câmara Municipal que adquirisse o espaço. foto mediotejo.net
Edifício sede da Sópovo está encerrado, funcionando no local um café. Junta de freguesia de Riachos pediu à Câmara Municipal que adquirisse o espaço. foto mediotejo.net

Antes do início do século XXI, a Sópovo já enfrentava alterações significativas, que iriam marcar o fim do seu espírito inicial de Cooperativa. “Hoje em dia seria difícil. Na altura era tudo novidade, as pessoas estavam ávidas de conhecimento”, admite Carrilho.

Ao longo dos anos as casas dos primeiros Bairros foram sendo alargadas, vendidas ou passaram para filhos e netos e hoje as estruturas estão, inclusive, algo degradadas (a necessidade de asfaltamento das estradas dos Bairros Sópovo são uma reivindicação constante nas assembleias municipais). No final dos anos 90, com a passagem das vivendas para a propriedade dos seus residentes, perdeu-se a ligação à Cooperativa. Carrilho recorda várias propostas para estruturas coletivas de manutenção e autossuficiência do primeiro Bairro, mas os sócios foram abandonando as assembleias gerais e já não havia grande interesse nas ideias.

“Éramos muitas vezes apontados como exemplo das cooperativas, chegámos a ser a quarta cooperativa com mais peso” no país, recorda Bernardino Carrilho, que em 1992 abandonou a direção da Sópovo e manteve-se apenas como sócio. O seu conhecimento das finanças da Cooperativa terminam por aí, referindo que na altura a estrutura possuía bons condições económicas.

Ainda se lembra do preço das primeiras casas: 760 contos, a pagar pelo associado ao longo de 25 anos. Havia também um seguro de 200 escudos por mês, para apoiar casos de desemprego, morte ou invalidez.

Seria possível hoje esta estrutura, com tantos jovens desempregados e sem possibilidades? “É giro, mas não é possível. O tempo não recua. Temos outras necessidades. Hoje há comodidades diferentes, novos mundos. As pessoas olham mais para dentro de si, antes as pessoas não sabiam, era tudo novidade. O tempo não volta para trás… Era giro, era… Podiam-se unir para outros fins…”, vai divagando.

Valeu a pena?

Fernanda (esq.) e Deolinda (dirt.) vivem no primeiro Bairro da Sópovo desde 1979. Afirmam que na época não teriam tido outro meio de ter casa. foto mediotejo.net
Fernanda (esq.) e Deolinda (dirt.) vivem no primeiro Bairro da Sópovo desde 1979. Afirmam que na época não teriam tido outro meio de ter casa. foto mediotejo.net

Carrilho, como é conhecido no primeiro Bairro Sópovo, onde reside, não tem dúvidas em afirmar: valeu a pena! “Tanto esforço, tanta gente. Valeu a pena!”, afirma. Sobre a insolvência refere que esteve na assembleia geral que aprovou o início do processo, mas prefere não fazer comentários sobre o que se terá passado. O projeto para um último Bairro e negócios mal geridos terão conduzido à insolvência. Prefere não pensar noutras causas, não duvidar das pessoas.

“Acreditava nas pessoas, hoje já não acredito tanto”, reconhece. “É possível concretizar coisas desde que o indivíduo admita que não é uma ilha e junte algumas pessoas com a mesma tenacidade, dispostos a lutar. Sozinho não se consegue nada”.

Ainda passeamos pelo primeiro Bairro Sópovo. A estrada precisa de um asfaltamento urgente, mas as moradias, com uma organização geométrica e de jardins bem cuidados, dão um aspeto distinto e algo característico ao espaço. Nota-se que é um Bairro antigo, mas no final dos anos 70 seria sem dúvida um dos melhores Bairros da região.

Há carros à porta de todas as casas, algumas exibem um placar a dizer “Vende-se”. Não é um Bairro abandonado, nem assim tão longe dos seus tempos áureos. Conversamos que nas atuais condições económicas do país não seriam assim casas tão simples, todas elas com rés-do-chão e primeiro piso, que não despertassem o interesse de casais jovens que quisessem alguma independência. Carrilho não acredita. Os tempos mudaram.

À saída, com a chuva a expulsar-nos, encontramos Fernanda Gomes e Deolinda Oliveira, de guarda-chuva e compras debaixo do braço, em animada conversa. O mediotejo.net aproxima-se e faz perguntas: o tempo voltaria atrás? O que significou para vós ter uma casa em 1979?

construção de um dos bairros Sópovo. Arquivo Sópovo
construção de um dos bairros Sópovo. Arquivo Sópovo

As respostas das senhoras divergem. Estão ali há perto de 40 anos. “Não trocava a minha casa por nada”, refere Deolinda Oliveira, “mas na altura tinha muito medo de não conseguir pagar. Nunca tinha pago renda, água, luz”, confessa. “Mas foi o melhor que me aconteceu”, recorda, lembrando que quando soube o número da casa que lhe coubera começou a correr pelo Bairro à procura dela.

Já Fernanda comenta que foi presença assídua nas reuniões enquanto não teve casa, mas depois deixou de ir. “Nunca houve tanto desejo de ter casa”, comenta, recordado os idos anos 70 do pós 25 de abril. “Não tinha tido outra hipótese de ter casa. Foi muito bom, eu vivia numa casa pequena e tinha que ir à casa de banho ao quintal”. Uma ideia bonita sim, que deu casa a muita gente. “Agora está tudo a morrer…”.

*Reportagem publicada em 2016, revista e atualizada em novembro de 2018

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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3 COMENTÁRIOS

  1. Obrigado por este imporante documento sobre a história de um dos bairros onde cresci com os meus amigos! De facto, é impossível fazer uma história de Riachos sem o nome desta cooperativa surgir como uma das que mais fez para tirar da pobreza centenas de pessoas. Os meus pais ainda lá vivem e volto lá sempre que posso!

  2. Parabens pela excelente reportagem.

    Enquanto alguem que cresceu e decidiu continuar a morar num bairro cooperativo (até ver), é bom saber que existiram outros exemplos de cooperativas de habitação com sucesso.
    Hoje o crédito esta bem mais facil do que a 40 anos e qualquer um pode escolher onde quer morar, mas na altura as cooperativa de habitação tiveram um papel fundamental na melhoria das condições de vida dos portugueses, tendo cumprido o seu papel.

    Bem hajam.

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