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Sábado, Setembro 25, 2021

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Torres Novas | Sem concertos, Cruz de Ferro arrisca lançar álbum “Leão dos Mares” em plena pandemia

A banda de heavy metal Cruz de Ferro está de volta com “Leão dos Mares”, que será lançado a 12 de março pela Rastilho Records. Reunidos por Ricardo Pombo em 2009, cantam em português, evocam momentos heróicos da História nacional e contam com um público fiel que anseiam reencontrar, quando for possível voltar aos palcos. O mediotejo.net falou com o baixista João Pereira a propósito do lançamento do quarto álbum de originais da banda, para conhecer melhor os metaleiros de Torres Novas.

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Com facilidade, nas páginas de uma qualquer enciclopédia sobre História de Portugal encontramos os heróis homenageados nas músicas dos Cruz de Ferro. É uma das marcas distintivas da banda de Torres Novas que, com o seu característico som massivo e encorpado, alcançou o feito de ser, logo após o primeiro disco (em 2013), a banda do ano para os leitores da Loud!, a única revista impressa dedicada ao heavy metal. Naquele ano começaram a tocar ao vivo por todo o País, fazendo também as primeiras partes dos finlandeses Ensiferum em Lisboa e Porto.

A banda tomou forma no início de 2009 para dar continuidade ao projeto idealizado por Ricardo Pombo, guitarrista, vocalista e principal compositor. Ao músico juntou-se o baixista João Pereira para compor e gravar. E mais tarde outros amigos chegaram. A partir daí surgiu o primeiro EP (2012) com cinco temas. “Fizemos a apresentação do disco no Teatro Virgínia, com uma casa cheia”, recorda João Pereira ao nosso jornal.

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O vocalista da banda Cruz de Ferro, Ricardo Pombo, durante um concerto. Créditos: Cruz de Ferro

Ricardo Pombo e João Pereira cruzaram-se em miúdos na aldeia de Meia Via, onde formaram a primeira banda. A vontade de ficarem ligados à música “numa onda de rock pesado” permaneceu ao longo dos anos. Ricardo levou a música mais a sério, entrando numa formação musical no Hot Clube, em Lisboa, que o fez evoluir e dar um novo fôlego a essa vontade de cantar em português – “o fator diferenciador” que distingue os Cruz de Ferro das outras bandas de metal, considera João Pereira.

“Neste momento não há praticamente Heavy Metal cantado em português. Existem algumas bandas que cantam em português mas em géneros mais extremos. Cantar em português confere-nos identidade, mesmo para quem nos ouve no estrangeiro pode ser algo interessante… embora para muita gente não funcione.”

Crítica que não representa um obstáculo para os jovens que os seguem, “um público fiel, um grupo de fãs bastante alargado”, refere. “De certeza que não iriam gostar que cantássemos em inglês”, garante o músico. Esse público sabe as letras de cor, memoriza os diferentes temas e há canções com presença assídua nos concertos, como por exemplo ‘Defensores’, indica.

Concerto da banda Cruz de Ferro. Créditos: Cruz de Ferro

Trazer a História nacional para a música em português

A banda, cujo o álbum de 2015 “Morreremos de pé” – três anos depois do EP de estreia “Guerreiros do Metal” – garantiu o cimentar de um lugar nos palcos de Heavy Metal em Portugal, viu rapidamente o nome Cruz de Ferro ser notado em diversos circuitos atentos às músicas de rock pesado.

É no “Morreremos de pé” que o recurso à História fica mais vincado. “Tentamos sempre trazer à música uma componente histórica, ou personagens ou eventos históricos, pouco falados ou desconhecidos do público. Desde o inicio que o abordamos, logo com o ‘Auto de Fé’”, explica João.

Nesse primeiro álbum longa-duração, a capa, elemento fundamental dos discos das bandas metálicas, é baseada nos atos heróicos de D. Duarte de Almeida, que mesmo depois de o inimigo lhe ter decepado as mãos nunca largou o estandarte nacional. A música “O Decepado” relata esses mesmos feitos.

“A capa é muito importante. A componente visual, às vezes, é quase meio caminho para ouvirmos ou deixarmos de ouvir algo. Nesse álbum lembramos D. Duarte de Almeida, praticamente esquecido em Portugal e curiosamente em Zamora (Espanha) ainda hoje existe o tributo a esse soldado valoroso. Na altura foi um feito heróico e até as tropas castelhanas o terão honrado. Ainda hoje o honram”, refere.

Os temas escolhidos e transformados em letras de músicas, tendo muitas vezes a colaboração do historiador Eurico Dias, agradam ao público e garantem à banda uma discreta ascensão nos principais palcos do País abertos ao metal.

Capa da edição em vinil do EP “Leão dos Mares” pela Rastilho Records

No final de janeiro de 2021 saiu o vídeo para “Leão dos Mares”, tema de avanço ao EP com o mesmo nome, o quarto trabalho da banda, com lançamento marcado para 12 de março, numa edição em vinil pela Rastilho Records.

A editora está a coo-editar o trabalho dos Moonspeel. “Tivemos a sorte, a felicidade e a possibilidade de trabalhar com eles. É uma boa noticia porque permite-nos chegar a um público muito mais vasto do que conseguiríamos pelas nossas mãos. Tem uma chancela a dar-nos um carimbo de qualidade”, explica João.

“Leão dos Mares” não é mais que o cognome de D. Afonso de Albuquerque, “o terror dos mares da Ásia”, outra figura histórica que trazem à música. “Acabamos por explorar e dar a conhecer”, além disso “esta veia histórica e factual ajuda-nos a compor”, refere o baixista. “Hoje estamos inundados de músicas vazias, vácuas, que não nos trazem nada. As nossas passam a ter um outro significado, que valoriza o trabalho musical e até cultural”, defende.

O disco alimenta-se, então, da mesma matéria dos predecessores, numa ponte entre a música e a História de Portugal, uma homenagem a heróis portugueses “que consigam encarnar no espírito do Heavy Metal”, com a dureza da voz mais ou menos grave, pelas cordas igualmente graves da guitarra e pela exploração de sonoridades em tons menores, dando o característico ar sombrio às composições. No fundo, um disco de continuidade, como os fãs esperariam, diz.

Concerto da banda de rock pesado Cruz de Ferro. Créditos: Cruz de Ferro

O baixista dos Cruz de Ferro considera este quarto álbum uma obra consistente. Aliás, sente o trabalho da banda “consistente desde o primeiro disco”. Talvez porque “nenhum era caloiro, todos sabíamos o que estávamos a fazer, foi tudo pensado, muito trabalhado, demorado, difícil até chegarmos ao ponto de satisfação”.

Na composição de músicas e na escrita das letras o processo criativo não se apresenta complicado. Difícil é conciliar opiniões. Por isso, este último álbum foi trabalhado em duas metades, ou seja, com os quatro a trabalharem os temas, mas com Pombo e Pereira nos acabamentos do produto final.

Apesar da matéria beber da mesma fonte, João Pereira fala em “evolução” da banda, uma vez que alteração dos gostos musicais reflete-se na criação. De resto, os Cruz de Ferro assumem-se diferentes da banda que nasceu há mais de 10 anos. “Se não houver evolução significa que ficámos parados, estanques. Se, em tanto tempo, não olharmos para as coisas de outra maneira, se não tivermos outras opiniões, se os nossos gostos musicais não se alterarem, acho que alguma coisa está errada”, refere.

Embora não seja algo pensado, “a evolução faz parte de alguém que produz uma obra artística, mais que não seja pelo desafio intelectual”. Essa ação passa por, naturalmente, revigorar e reinventar o legado metaleiro. “O desafio é fazer algo diferente mas que, de alguma forma, mantenha a tal identidade, uma coisa muito própria do Heavy Metal”, explica.

Outro “desafio” que precisa de ser ultrapassado passa pela “demora” temporal entre ter os temas terminados e o início da gravação. “Às vezes é contraproducente”, confessa. “Passados alguns meses já não gostamos, alteramos e acabamos por perder ainda mais tempo”. Embora reconheça que “o processo criativo nunca está terminado” e até possa criticar e apontar defeitos a músicas do passado, não se conta entre os músicos que recusam ouvir o que ficou para trás. “Não! Isso seria renegar a própria criação. Ouço com regularidade”, assegura.

A banda Cruz de Ferro de Torres Novas. Créditos: Cruz de Ferro

Viver a música sem viver da música

Além dos velhos amigos Ricardo Pombo e João Pereira, a banda Cruz de Ferro conta ainda com Riccardo Teixeira (guitarra) e Bruno Guilherme (na bateria). Nenhum dos quatro vive da música que a banda cria. “Neste país não há apoio à Cultura, não existe sequer incentivo à Cultura a vários níveis e o rock pesado ainda está rotulado como não-Cultura. Um género à parte que ainda recebe algum desprezo, não só do Governo, mas das entidades públicas ao nível geral. Em 2021 ainda não é um género socialmente aceitável”, critica o baixista.

Os tempos não têm sido benevolentes para os músicos mas, mesmo antes da pandemia, a expectativa inicial e jovial de “viver da música” esfumou-se com a maturidade. “Em Portugal, viver da música obrigaria a vender muitos discos, iria requerer o apoio maciço das rádios, da imprensa… e o circuito de música está fechado a uma série de artistas. São aqueles que vemos em todos os verões, que atuam em todas as festas ou nos grandes concertos, são sempre os mesmos. Sabemos que é muito difícil entrar ainda mais porque temos um género musical que não é para dançar”, nota.

João Pereira é professor nas áreas de Multimédia e Audiovisual na Escola Superior de Tecnologia de Abrantes. O vocalista produz Fado, em paralelo é proprietário de uma escola de música e trabalha como técnico de som. Bruno Guilherme trabalha na área da educação musical e Riccardo Teixeira tem trabalhado como roadie do cantor Boss AC.

Concerto da banda de Torres Novas, Cruz de Ferro. Créditos: Cruz de Ferro

João Pereira lamenta ser complicado conseguir financiamento para projetos mais ambiciosos. “A nível institucional não existe. Eventualmente algumas entidades ajudam num ou noutro patrocínio.” Mas nos Cruz de Ferro o investimento parte dos músicos, é como um hobby. “Acabamos por nos adaptar à nossa realidade, não temos falsas esperanças, sabemos que não existem apoios financeiros e vamos por nossa conta e risco. Não nos frustra, embora saibamos que noutros países a filosofia seja outra.”

Conta que em 2020, em Portugal, foram lançadas cerca de 70 edições de heavy metal. “Setenta discos são muitos discos, é muita gente a trabalhar, muita banda ativa, muito estúdio, editora, produtora, muitas fábricas de CD. E um disco não é lançado sem uma T-shirt, um pin, um crachá ou outro tipo de merchandising. Portanto, é um indústria que está escondida, no underground musical, em movimento, que mexe com milhares de pessoas e provavelmente muitos milhares de euros por ano”, diz, dando conta de centenas de festivais ligados ao género que considera “ostracizado”.

João Pereira garante não ser “difícil” tocar ao vivo em Portugal. “Há um circuito de salas de espetáculos quase fixo, um pouco por todo o lado, organizados por pessoas ativas, que trabalham por amor à camisola” diz exemplificando com a aldeia Pindelo dos Milagres, no distrito Viseu, que realiza três festivais por ano, um deles gratuito, com três dias onde tocam várias bandas de renome internacional. “Há espaço e público para as bandas atuarem”, vinca.

Algum sucesso, vários concertos, quatro discos, uma carreira a pensar no prazer de tocar e não no dinheiro a ganhar. E as rádios? “Há rádios que passam Heavy Metal, mas são basicamente rádios locais, ou seja, sem expansão nacional… embora hoje em dia possamos alegar que todas têm expansão nacional porque têm presença online, mas ainda nos pautamos pela frequência. Se tivermos rádios nacionais que não passam Heavy Metal é quase como se não existisse. Honrada exceção é o ‘Alta Tensão’ na Antena 3, normalmente passa pela madrugada [..] Também em Torres Novas a rádio local tem, há mais de 20 anos, três horas dedicadas ao Heavy Metal, à segunda-feira”, refere.

Os Cruz de Ferro, agora parados, já subiram a vários palcos, das salas mais emblemáticas por todo o País, nomeadamente no Porto, Lisboa, Évora, Odemira, Viseu, Marinha Grande, Famalicão, Cascais, Almada ou Corroios. Conta que tocar além fronteiras não está nos planos da banda, principalmente por “uma questão de custos” financeiros. Curiosamente, em 12 anos, só tocaram quatro vezes no concelho de Torres Novas, lembrando o ditado popular que “santos da casa não fazem milagres”.

João justifica tal com a falta de sala de espetáculos no concelho. “No Café Concerto do Teatro Virgínia tocavam imensas bandas aos fins-de-semana, mas entretanto a sala fechou. Já tentámos tocar mais vezes mas efetivamente não existe uma sala. Arriscámos fazer o lançamento de um álbum na Meia Via, numa sala da Banda Filarmónica e conseguimos”, recorda.

Concerto da banda Cruz de Ferro. Créditos: Cruz de Ferro

Chegada a pandemia de covid-19, a Cultura foi um dos setores mais afetados. Entretanto passou um ano “sem concertos, sem nada”, afirma. Ainda assim, os Cruz de Ferro conseguiram concluir “Leão dos Mares” em 2020. “A gravação do disco esteve parada à conta da pandemia. Até porque o nosso produtor tem outra profissão e trabalha num hospital e isso impossibilitou que nos pudéssemos encontrar para terminar a gravação. Foi durante o desconfinamento que conseguimos terminar”, conta.

Não é um problema exclusivo da banda de Torres Novas, mas os Cruz de Ferro lançam agora um álbum que não podem promover. “Normalmente lançamos um disco, fazemos uma festa e temos mais 10 ou 20 concertos durante o ano para promover esse disco. Neste momento a banda está parada, até impossibilitados de estarmos juntos, embora três elementos estejam em Torres Novas e só um em Santarém… mas impossibilita o trabalho.”

Numa época em que os estímulos estão associados às novas tecnologias disponíveis, João Pereira garante que o teletrabalho, a escola à distância e os filhos em casa também impedem o processo criativo. “Não há disponibilidade física e até mental para a banda trabalhar… e afinal com que finalidade? Não sabemos se vale a pena continuar”. Por isso os Cruz de Ferro nem sequer ensaiam recorrendo às plataformas online. “Só ensaiamos juntos quando vamos tocar ao vivo, para preparar o concerto”, explica.

Apesar da pandemia, João sabe que os Cruz de Ferro chegam inclusivamente à China. As novas tecnologias e a Internet vieram promover a divulgação da música. Quem está do outro lado do mundo pode ouvir os músicos portugueses, “mas ao mesmo tempo estamos a concorrer e a roubar espaço às bandas da China. E o mesmo se passa aqui. A Internet trouxe uma avalanche de informação e de repente somos atropelados por esse excesso”.

O baixista faz o paralelismo com o número de artistas. A web “é um pau de dois bicos e exige disciplina”, muito pela quantidade de bandas e publicidade disponíveis. “É de todo impossível ouvir um trabalho do principio ao fim. Hoje é muito mais difícil sermos ouvidos, com impacto, mesmo em Portugal. Há 20 anos, se tivéssemos um trabalho a sair de uma editora como a Rastilho, não havia ninguém que não ouvisse o nosso nome”. Atualmente manifesta dúvidas.

Num passado recente “estávamos semanas a ouvir sempre a mesma cassete, agora carregamos em plataformas e se for preciso estamos ad nauseam a ouvir música, sem saber que banda é, a que álbum pertence. Isso vai tirar a componente identitária. Tornou-se tudo descartável!”, lamenta.

Bruno Guilherme na bateria dos Crus de Ferro. Créditos: Crus de Ferro

Ainda assim, os quatro elementos dos Cruz de Ferro, com idades entre os 35 e os 45 anos, traçam um objetivo futuro relacionado com “a veia cultural”. No metal “há um culto e não conseguimos desapegar-nos da música enquanto objeto cultural. A partir do momento em que fazemos parte desse movimento já não somos apenas consumidores, somos também produtores. O nosso maior prazer é criar. O segundo é poder tocar ao vivo, conhecer pessoas e sabermos que a nossa arte é apreciada por mais gente. A ambição é tocar!”.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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