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Sábado, Julho 24, 2021

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Torres Novas | Rita Cruz e a noite (louca) da Dona Luciana no Teatro Virgínia (entrevista)

Quem chegar ao foyer do Teatro Virgínia pouco antes das 21h30 deste sábado, dia 21, espera encontrar um espetáculo de teatro, mas depara-se no palco com um encenador, uma atriz e um técnico (a dobrar) em pleno ensaio tardio. Também procura a Dona Luciana, mas ela não aparece (ou será que aparece?). Por lá passam, de certeza, uma antiga stripper transexual e um rato… Já se perdeu? Nós já e decidimos encontrar (algum) sentido na loucura com a atriz Rita Cruz, que integra o elenco da peça “A Noite da Dona Luciana”.

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Comecemos pelo início, passando a redundância. O dramaturgo, cartoonista, escritor e ator Copi apresentou Dona Luciana ao mundo em 1985 na obra que dá nome à peça teatral produzida pelo Teatro do Eléctrico e estreada no Teatro da Politécnica em fevereiro de 2016. Comédia misturada com o sarcasmo e a irreverência que marcam a obra do argentino e surgem envoltos pelo enredo do encenador Ricardo Neves-Neves e os figurinos de José António Tenente.

Rita Cruz interpreta a atriz Madame La Rite. Foto: Alípio Padilha

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Segundo ponto. Quem é afinal a Dona Luciana? Bem, ela é a causa de toda a trama que se dsenrola na noite em que se procura esta senhora da limpeza. Uma coisa é certa, está desaparecida e assume-se que outra “limpeza” tenha sido feita por mãos criminosas. No local (do crime… ou não) estão Zé Rafael, o motorista criado por Copi que Ricardo Neves-Neves transformou em dois técnicos sincronizados num só, o encenador e a atriz Madame La Rite, interpretada por Rita Cruz.

O público habituou-se a vê-la em horário nobre nos ecrãs de televisão com “Dancin’ Days”, “A Única Mulher” ou, atualmente, “A Impostora” cujas gravações coincidiram com os ensaios de “A Noite da Dona Luciana”. Um registo diferente que a levou a desligar “o chip” entre os momentos de encarnar a vilã da telenovela da TVI ou a atriz de Copi que atinge “extremos de loucura e grotesco”, num dos “períodos mais criativos” da carreira.

O motorista de Copi deu lugar ao técnico em dose dupla criado por Ricardo Neves-Neves. Foto: Alípio Padilha

Estúdios de televisão à parte, o palco é partilhado com Custódia Gallego, José Leite, Patrícia Andrade, Rafael Gomes e Vítor Oliveira nesta peça nomeada para o Prémio “Melhor Espetáculo do Ano” e que lhe valeu a nomeação para o Prémio de “Melhor Atriz do Ano” pela Sociedade Portuguesa de Autores. Foi apanhada de surpresa, chegou a pensar que se tratava de uma brincadeira, mas depressa assumiu o reconhecimento como “uma responsabilidade acrescida”.

Ao longo da conversa com Rita Cruz sobre o espetáculo a palavra “loucura” vai-se repetindo. Talvez porque nada aparente fazer sentido. Talvez devido à forma como Copi critica o teatro através do teatro naquilo que a atriz carateriza como “uma grande viagem” adaptada a cada localidade por onde passa a produção do Teatro do Eléctrico. Talvez porque Vicky Mancha Negra, a antiga stripper transexual, e o rato que está sempre à mão (depois percebem porquê) surgem para ajudar a desvendar um crime que pode não ser crime (ou será?).

Rita Cruz e Custódia Gallego. Foto: Alípio Padilha

Uma autêntica “montanha-russa”, diz, cujo texto a prendeu desde o primeiro momento e faz o público sentir na pele o slogan publicitário criado por Fernando Pessoa para a Coca-Cola nos loucos anos 20 do século passado: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. O claim acabou por ser censurado pela empresa, mas ganha sentido no espetáculo que, segundo Rita Cruz, tem de belo “o rigor que existe dentro da loucura e a loucura que existe dentro do rigor” encenados por Ricardo Neves-Neves.

Madame La Rite, assume, foi um desafio pela faceta “out of the box” e resultou de “um processo de rasgo” marcado pelo “cansaço bom, de exaustão”. A mesma Madame com oscilações de personalidade que acabou por se lhe entranhar no corpo, mas fica latente nas horas do dia que parecem escassas para a carreira que também inclui dobragens de séries e desenhos animados e a música.

Da voz não lhe sai apenas o texto dos guiões. Saem também as letras revolucionárias com o ritmo dos blues, soul e afro-funk que interpreta com a banda “Rita & o Revólver” desde 2014 e reafirmou com o novo single “Os Blues do Aleixo”. Não se fica por aqui e, recentemente, juntou-se como cantora e atriz ao rapper Da Rocha nos temas “Só nós Dois” e “Tanto pra Dizer”, do álbum “Erro OrtUgráfico”.

Muitos registos diferentes numa vida recheada de dias de correria que não cansam Rita Cruz. Para muitos pode até parecer loucura, mas é “um jogo de cintura” que a artista diz gostar e, na verdade, a loucura está mesmo presente nas noites em que partilha o palco com a Dona Luciana (se a senhora da limpeza chegar a aparecer). Este sábado é uma delas e o encontro está marcado no Teatro Virgínia.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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