Torres Novas | Ribeira da Boa Água pode afetar estatuto de Reserva da Biosfera do Boquilobo (C/VIDEO)

Luís Santos, docente e investigador do Laboratório de Investigação Aplicada em Riscos Naturais do Instituto Politécnico de Tomar, apresentou na quinta-feira, em Abrantes, trabalhos de monitorização na reserva natural do Paul do Boquilobo, referindo que o Paul funciona como uma “estação de tratamento de águas residuais” e que corre o risco de perder o estatuto de Reserva da Biosfera, atribuído pela Unesco, e renovado em 2014. O orador questionou se o Paul do Boquilobo será “um filtro resiliente ou uma reserva em perigo?”.

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O docente falava na primeira edição do ciclo de conversas ‘Tejo, Logo Existo’, no painel “A biodiversidade do Tejo”, com moderação de Miguel Pombeiro, da CIMT, e participação de Carlos Alexandre, investigador do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente. Iniciativa englobada na Semana da Cultura Científica, que decorreu até esta sexta-feira no ParqueTEJO – Centro de Acolhimento e Interpretação do Tejo, em Rossio, Abrantes.

Na apresentação que demonstrava os 16 anos de monitorização ambiental por parte do IPT, mais propriamente de monitorização de bacias hidrológicas, levantamento de vegetação, inventário de espécies existentes, Luís Santos ressalvou o estudo que tem sido efetuado no Paul.

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“Nos últimos 5/6 anos temos desenvolvido algum trabalho a nível da reserva natural do Paul do Boquilobo, e esperamos em 2016, mas principalmente 2017, trabalhar com o Tejo, mais em particular, no que diz respeito à monitorização de macroinvertebrados, no âmbito da Diretiva Quadro da Água”, referiu.

A avaliação da qualidade da água com macroinvertebrados de água doce, organismos que habitam o fundo e as margens do rio, junto aos sedimentos e que, por serem sensíveis à poluição ou degradação dos ecossistemas aquáticos, alguns macroinvertebrados bentónicos, nomeadamente insetos aquáticos, são muito utilizados como bioindicadores para avaliar a qualidade de água.

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Mas o problema é mais grave do que aparenta, pois os níveis de poluição encontrados são muito elevados e estão acima dos limites legais. “Não é o Paul que está a poluir, mas sim o que vem para o Paul do Boquilobo. O Paul do Boquilobo funciona hoje como uma Estação de tratamento de águas residuais, é uma afirmação muito forte, mas a verdade é que é semelhante a fito-ETARs”, disse Luís Santos acrescentando que teve muita dificuldade em efetuar investigação por causa da poluição.

“Não imaginam a dificuldade que tive em fazer pesca eléctrica, tipo de pesca utilizada no estudo de ictiofauna para recolha de peixes, no Paul. A aparência da água é castanha, em alturas em que o caudal não é elevado, não temos precipitação, não temos escorrência”, relembrando que isto acontece numa reserva natural, classificada como Reserva da Biosfera pela Unesco e como Reserva Ramsar/Convenção sobre Zonas Húmidas.

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A qualidade da água e os bioindicadores são aspectos que preocuparam o investigador e a sua equipa,”não só pelo próprio Paul, mas também para a própria qualidade da água do rio Tejo”. Foto: DR

O investigador mencionou ainda que “se visitássemos agora a Ribeira da Boa Água, a água estaria exatamente da mesma cor, para não falar do cheiro. (…) Houve alturas em que fui fazer recolhas com os meus alunos, e disse para não recolherem macroinvertebrados, não vale a pena. Seguramente não existe nada.”

A qualidade da água e os bioindicadores são aspectos que preocuparam o investigador e a sua equipa,”não só pelo próprio Paul, mas também para a própria qualidade da água do rio Tejo”, referiu.

“Dentro destes resultados observamos que alguns dos valores, especialmente a montante, se encontravam muito acima daquilo que são os limites legais para emissão de águas residuais. Não estamos a falar de águas piscícolas, nem de águas balneares, estamos a falar de águas residuais”.

Na apresentação projetada, estavam fotografias de alguns dos afluentes do Almonda, como Vala das Hortas, Ribeira da Boa Água, Ribeira do Vale Carvão, Vala das Cordas, apresentando imagens captadas em 2014, com águas claramente poluídas.

“É este o cenário que encontramos, ao ponto de termos medo pela segurança e saúde dos próprios alunos, ao entrarem naquela água”.

Segundo o investigador a monitorização ambiental da reserva do Paul do Boquilobo “passou por compreender a sua localização geográfica, o rio Almonda (um dos tributários do rio Tejo), mas também a sua caracterização em termos de interesse biológico”.

Foi criado um estatuto de reserva natural em junho de 1980, e tornada a primeira zona húmida em Portugal classificada pela UNESCO como Reserva da Biosfera desde 1981, tributo que fora reavaliado em 2014. Sendo ainda a primeira área portuguesa a integrar a Rede Mundial de Reservas da Biosfera, foi reconhecida como uma amostra representativa de um ecossistema pantanoso de elevado valor em termos de conservação e biodiversidade, sendo reconhecido pela Convenção de Ramsar.

Tem um Plano de Ordenamento, de 2005, o qual tem uma área específica de intervenção, áreas complementares, zona de proteção parcial e zona de proteção total, e o rio Almonda que alimenta a zona do Paul, explicou.

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Luís Santos é docente e investigador do Laboratório de Investigação Aplicada em Riscos Naturais do Instituto Politécnico de Tomar. Foto: mediotejo.net

Luís Santos criticou ainda o facto de hoje em dia, em Portugal, muitas reservas naturais não terem ainda plano de gestão, e só têm plano de ordenamento efetuado.

Segundo o próprio, “após 2 anos de elaboração de um plano de ordenamento, deve começar-se a implementar um plano de gestão. E 2 anos anos após esse plano de gestão, deverá ser revisto o plano de ordenamento. O plano de ordenamento do Paul do Boquilobo foi efetuado em 2005, fiz um segundo plano de ordenamento em 2012, e ainda hoje não temos um plano de gestão no Paul”, justificou, perguntando “Como é que se pode gerir uma Reserva natural se não há esta sequência de evolução?”.

As soluções passam por um Sistema de Gestão Integrada, mas também por uma abordagem “que tem que deixar de ser unilateral, e temos de passar a ter uma abordagem multidisciplinar”.

Sociedade, Economia e Ambiente, categorias que compõem o triângulo da sustentabilidade, não são elementos “estáticos. Por vezes a economia é mais importante”, o que leva a um desequilíbrio, como explicou o docente.

Em termos da Cultura, a certificação territorial está afirmada, pela Unesco, pela Convenção de Ramsar, ainda assim existe um desequilíbrio refletido na Governança.

O professor acrescentou que a imagem poluída que apresentou poderia ser associada a alguns dias do ano no rio Tejo. “(…) por vezes já tenho observado o Tejo bem poluído e com problemas bem semelhantes, é óbvio que numa reserva de pequenas dimensões é fácil de estudar, um rio destas dimensões é bem mais difícil de estudar”.

Miguel Pombeiro, secretário executivo da CIMT, lembrou que a zona a montante, em que se insere a reserva, “era uma das áreas que carecia de grandes investimentos em ETARs, e 2014 foi justamente a data em que Torres Novas entrou para as Águas do Ribatejo, propiciou alguns milhões de euros que estão agora a ser investidos em ETARs”.

O dirigente salientou “algumas situações como esta relativa à Ribeira da Boa Água, em que muito possivelmente o infrator está identificado – a Fabrióleo – mas que tudo indica que, em vez de ter uma postura colaborativa, a estratégia que adotou foi contratar um dos melhores Gabinetes de advocacia, e de facto, isto levava para outra discussão que é a legislação do ambiente que temos, e quem tiver de facto um bom advogado, consegue protelar e tornar inoperacional um conjunto de entidades”.

“Basta passarmos na A23 e percebemos que algo se passa de muito grave”, exclamou, fazendo referência ao cheiro que se sente naquela zona.

Já Luís Santos alertou, em jeito de conclusão, que “até para este tipo de trabalho de investigação a poluição causa graves problemas”, impedindo recolhas e estudos fidedignos.

Relembre-se que o Bloco de Esquerda (BE), através da deputada e ex-candidata presidencial Marisa Matias, fez chegar à Comissão Europeia um pedido de intervenção, por forma a “obrigar o Estado Português” a tomar medidas para resolver o problema de poluição da Ribeira da Boa Água.

Trata-se concretamente de uma Pergunta, com pedido de resposta escrita, com destino à Comissão Europeia. No texto a deputada expõe que “no Rio Almonda e na Ribeira da Boa Água, em Torres Novas, há uma situação preocupante de poluição cujos danos para o ambiente, saúde pública, e para a Reserva Natural do Paúl do Boquilobo (classificada pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera), são bastante acentuados”.

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