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Segunda-feira, Outubro 18, 2021

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Torres Novas | Quina, a mãe da patinagem artística em rodas de Portugal

Joaquina Deus, Quina para os amigos, 71 anos, é praticamente a “mãe” da patinagem em rodas em Portugal. Entre 1965 e 1966 foi campeã nacional de patinagem na África do Sul, obtendo também o primeiro lugar no campeonato da África Austral. Depois, com 19 anos, regressa ao país, estabelecendo-se com a família em Torres Novas. A mudança, reconhece, foi difícil, mas Quina não parou. Em 1967 fundou a secção de patinagem do Clube Desportivo de Torres Novas, estando na origem de vários clubes de patinagem da região. Com os seus atletas obteve vários títulos. A modalidade ainda não é olímpica, mas para lá caminha a passos largos, com uma profissionalização em Portugal que a muito se deve à paixão desta torrejana adotiva. 

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“Não há ninguém na patinagem que não conheça a Quina”, comenta quem passa aquando a entrevista no Palácio dos Desportos, em Torres Novas, um pouco antes do início de um treino. Pico do verão, início de uma onda de calor. Várias raparigas adolescentes circulam graciosamente pela pista, enquanto meninas de dois anos olham curiosas para as atletas que desejam, um dia, imitar. Entre os alunos, apenas um rapaz. O desporto já teve grandes campeões masculinos, mas atualmente parece que a tendência é enveredarem pelo hóquei. Quina não desanima e não desiste. A modalidade continua aberta a todos.

A patinagem artística, define, “é uma modalidade praticada com patins com oito rodas, que põe todos os músculos em movimento, numa dinâmica em que tudo se move e engloba ginástica, ballet e a destreza dos patins. Engloba tudo. Dentro da patinagem tem os saltos, a leveza, a graciosidade, é talvez um dos desportos mais completos. Também é um desporto difícil, que requer muito esforço, abdicar de muita coisa para chegar ao topo, investir”.

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Ofereceram-lhe os primeiros patins com rodas quando tinha oito anos. Natural de Lisboa, ia brincar para o ringue do Campo Grande. Aos 12 anos a família muda-se para Lourenço Marques (Maputo), onde se torna profissional de patinagem artística no Sporting de Lourenço Marques pela mão da campeã de patinagem da Alemanha Federal e do Mundo, Lotte Cadenbach Ribeiro. “Aí começou a minha carreira como atleta de patinagem artística”, recorda.

Lotte Cadenbach Ribeiro, campeã do mundo de patinagem, foi a grande impulsionadora da modalidade em Moçambique e mentora de Quina Foto: D.R.

Quina foi campeã da África do Sul e da África Austral nos anos 60 Foto: Quina Deus

Começou a participar em vários eventos, sem competição. Só quando se muda para Joanesburgo, na África do Sul, onde reside pouco mais de um ano, entra em dois campeonatos de patinagem nacionais e um campeonato da África Austral, tendo obtido os títulos de Campeã Nacional da África do Sul e Campeã da África Austral de patinagem artística, em patins de rodas.

Pouco tempo depois a família muda-se novamente, desta vez para Torres Novas, terra ainda bastante rural que representou um choque para a jovem patinadora, habituada a ambientes mais cosmopolitas e urbanos.

“Foi péssimo”, reconhece, “não conhecia ninguém daqui”, nem havia qualquer tipo de relação familiar. “Era uma vila já bastante atrasada em relação a Lisboa e ainda mais atrasada em relação às cidades de onde vinha. Para mim isto era uma aldeia. Sofri, sofri bastante, custou-me muito a adaptar-me”.

As mentalidades também eram mais fechadas e ainda agarradas a vários tabus. “Mas tudo se ultrapassou”, lembrando-se de estar no ringue com pessoas tanto a criticar como a aplaudi-la, uma jovem liberal, do mundo, que tanto atraia a população como despertava críticas.

Com 50 alunos, a patinagem em Torres Novas continua a formar grande atletas Foto: mediotejo.net

Tornou-se então atleta do Benfica e continuou sempre a patinar, até que, com 23 anos, casou e deixou a competição, tornando-se apenas treinadora. Entretanto, em 1967, já a haviam desafiado a dar treinos em Torres Novas, fundando a secção de patinagem do Clube Desportivo de Torres Novas que ainda hoje se mantém. “Foi a segunda escola de patinagem do país”, recorda.

Ao longo de 50 anos a secção obteve diversas vitórias nacionais e internacionais, recordando Quina os nomes de Joaquim Lopes (campeão nacional, tendo representado o clube no Campeonato da Europa) e os pares Joaquim Lopes e Florbela Deus (vice-campeões nacionais) e Soraia Deus e Luís Santana (campeões nacionais).

No seu currículo tem seis atletas internacionais, entre eles Daniel Pereira, Rui Durão, Beatriz Ventura, Telma Elias, as duas últimas com vitórias na Taça da Europa.

“Em Portugal não havia competições e quando começou a haver entendi que já não tinha idade”, recorda, sendo então já mãe. Desenvolveu assim a patinagem através do treino de novos atletas, fundando vários clubes nos distritos de Santarém e Leiria (Marrazes, Alcobaça, Rio Maior, Ribafria, Alpiarça, Coruche, Benfica, Entroncamento, etc) e vários treinadores.

“Criei clubes, criei atletas”, refere, “os núcleos começaram a aparecer depois de eu começar a desenvolver a patinagem nesses sítios. Andei por todo o lado”. Chegou inclusive a ser selecionadora do Ribatejo.

Margarida Lopes (11 anos) e Carolina Julião (9 anos) destacaram-se nas distritais de patinagem, com os títulos de vice-campeã e campeã nos respetivos escalões Foto: mediotejo.net

A patinagem artística de rodas, assim como o hóquei, não tem estatuto olímpico (embora esteja em discussão a integração nos próximos anos, adiantam-nos). O maior campeonato nesta modalidade atualmente é o Campeonato do Mundo, que recebe apenas júniores e séniores. Quina nunca passou por essas competições porque tem mantido apenas os escalões de formação e os atletas, com a ida para a universidade, mesmo que continuem, mudam de clube. “Formamos atletas, mas nunca usufruímos, ou então desistem”, reconhece.

A patinagem artística no país está hoje porém “muito forte”, afirma, encontrando-se inclusive a “superar o hóquei em patins” em número de atletas e qualidade. “Temos campeões da Europa, temos campeões do mundo”. O investimento tem aumentado, encontrando-se Portugal a bater de frente com os grandes países da patinagem, como a Itália.

Não, não é uma modalidade feminina. Quina chegou a ter 40 atletas masculinos há 50 anos e nas competições os rapazes conseguem inclusive ter mais destaque, porque há menos concorrência. Talvez tenha a ver com a mentalidade, comenta, que faz os pais encaminharem os filhos para o futebol e para o hóquei e não para a patinagem. “Para pares fazem imensa falta”, reconhece.

A patinagem artística é um misto de ginástica e ballet conjugado com a destreza no uso dos patins. As regras dos patins em rodas são as mesmas dos patins em gelo Foto: mediotejo.net

Quina foi homenageada pela Câmara de Torres Novas na Gala do Desporto de fevereiro. O momento foi “bastante gratificante” e a treinadora considerou-o “justo”, uma vez que a secção de patinagem completou 50 anos em 2017. Apesar de já ter acumulado diversos prémios e distinções, senda sócia de mérito da Federação de Patinagem, Quina “gostaria de continuar a poder levar estas atletas que tenho hoje a um patamar mais elevado”. A escola está a “evoluir muito bem”, tendo conseguido obter bons resultados nas competições.

Atualmente treina 49 raparigas e um rapaz, tendo a atleta mais velha 18 anos. Possui todos os escalões, menos os séniores. “Isto é uma escola que tem atletas com três anos de patinagem, em formação”. Para entrar num campeonato é necessário em média cinco anos de formação, mas, frisa, depende muito do atleta e do esforço que colocar na modalidade. O apoio dos pais é fundamental, refere.

Fazendo o balanço, Quina está satisfeita. “Estou rodeada de bons seccionistas, de bons pais, consegui impor a minha maneira de trabalhar e a minha maneira de unir as pessoas e de conseguirmos ser uma família, de conseguirmos levar a escola para a frente. De impor as minhas regras. E acho que tem resultado”.

A secção de patinagem do Clube Desportivo de Torres Novas treina no Palácio dos Desportos e sobrevive mediante o apoio de pais, empresas e apoio municipal. A criança não precisa de fazer logo um investimento em equipamento, que a secção reconhece ser caro, havendo facilidades da parte do clube, sobretudo se se estiver em período experimental. Aceitam-se jovens a partir dos 3/4 anos.

Campeã de patinagem desenvolveu a modalidade na região e marcou o seu lugar na modalidade a nível nacional Foto: mediotejo.net

Longe vão os tempos que a patinagem de rodas era tida como uma modalidade mais amadora, praticada por meia dúzia de países com clima quente. “Neste momento está-se a trabalhar ao nível profissional”, afirma Quina, sendo as regras as mesmas da patinagem artística no gelo.

Terminada a entrevista, Quina, quase sem nos apercebermos, já está no meio da pista. Duas das suas meninas, de 9 e 11 anos, obtiveram boas classificações num campeonato que decorreu em Faro na semana anterior. É a prova que a secção está forte e a evoluir. Basta continuar (sempre) a trabalhar.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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